Wednesday, May 10, 2006

A Vizinha

Após pendurar o último quadro na parede, ele olhou ao redor de si. Estava satisfeito. O apartamento não era muito grande, mas nele cabiam todos os seus sonhos e expectativas de uma nova vida. As desilusões, ele esperava, ficariam do lado de fora junto com os fantasmas de lembranças que deveriam ser esquecidas.
Seu novo endereço fica no alto da Felipe Schmidt, próximo de uma igreja evangélica. Isso não quer dizer nada. Ele não era religioso, e muito menos evangélico. A menção serve apenas para situar geograficamente essa história. Importante é o apartamento que ficava defronte a janela basculante do seu banheiro, no edifício vizinho ao seu.
Normalmente jamais teria percebido aquilo, mas justamente no momento em que havia

terminado de arrumar suas coisas resolveu tomar um banho e relaxar. Mas como não relaxava nunca, logo percebeu os vidros sujos da janela do banheiro e resolveu limpá-los. Não era lá muito prendado, mas tinha que se acostumar a cuidar do apartamento sozinho. O recente acordo de divórcio não lhe permitia luxos, como contratar uma faxineira.
O mecanismo do basculante estava duro, mas cedeu depois de algumas tentativas e abriu. Curioso, ele ergueu-se nas pontas dos pés e olhou para o apartamento vizinho, situado um andar abaixo do seu. De onde estava tinha uma visão privilegiada da janela do quarto. Contemplou-o por alguns segundos e resolveu sair dali, antes que fosse pilhado numa situação embaraçosa. Talvez se tivesse passado imediatamente do pensamento ao ato não a teria visto, mas hesitou uma fração de segundos.
Do outro lado, uma garota entrou no quarto. Linda e graciosa, ela vestia apenas um roupão. Aproximou-se da janela e olhou em sua direção por um momento, como se o estivesse vendo, mas logo se afastou. Desconcertado, ele saiu rapidamente da janela, pensando que já não tinha idade para molecagens daquele tipo. Além do mais, ficar na ponta dos pés estava ficando desconfortável.
Mas se já não tinha idade, o lado moleque ainda estava forte nele, pois logo voltou trazendo um caixote. Subiu no estrado improvisado e, cautelosamente, olhou para a janela do quarto da vizinha. Ficou sem fôlego com o que viu. Completamente nua, ela se contemplava no espelho. Mudava de posição e ficava imóvel novamente, num solitário deleite ante seu próprio reflexo. Depois de alguns minutos, ela vestiu uma lingerie vermelha e voltou a mirar-se no espelho. Depois mudou para uma preta, em seguida uma branca. Parecia ainda indecisa, mas voltou a pôr a lingerie vermelha e terminou de vestir-se. Para desalento de seu anônimo espectador, fechou a janela. O ato foi acompanhado de um rápido olhar em sua direção, fazendo-o pensar que talvez tivesse sido percebido. Metódico, e já sem os escrúpulos anteriores, ele olhou para o relógio e anotou mentalmente a hora marcada.
No outro dia, lá estava ele pontualmente a olhar para a janela da vizinha. Ela não o fez esperar muito, e novamente o brindou com sua nudez, lânguida e sem pressa. Aquilo se repetiu por vários dias seguidos, fazendo-o concluir que ela realmente se exibia para ele. Afinal, mesmo uma mulher, não se demorava tanto em vestir-se.
Era como se um acordo tácito houvesse se estabelecido entre eles. Um jogo de sedução que ficava cada vez mais ousado e interessante. A medida em que os dias se sucediam, ele começou a vê-la de uma forma diferente. Passou a fantasiar uma grande paixão e o momento em que se encontrariam. Mas cadê coragem? Sabia que aquela mulher era muita areia para o seu caminhão. Se o encontrasse na rua, provavelmente o olharia como se ele fosse transparente. Decididamente, enxergava-se como um sujeito comum, e ela era uma deusa – ou um pequeno demônio – provocando-o com desejos que nunca seriam satisfeitos.
Os dias se passaram, e sempre da mesma forma. Diariamente ela lhe concedia a oportunidade de apreciar sua nudez, depois fechava a janela. E ele nada de arrumar coragem para apresentar-se e lhe falar.
Um dia ele a viu com outro homem no seu quarto. Desalentado, contemplou pela janela o sujeito tocá-la de todos modos, enquanto ela parecia delirar de prazer. A sua deusa nos braços de outro homem era algo quase insuportável, mas não conseguia sair da janela. Depois de meia hora, que lhe pareceu uma eternidade, o homem foi embora.
Ela permaneceu na cama, nua e exausta. Depois levantou, pegou uma folha de cartolina, escreveu algo e aproximou-se da janela. Olhou em sua direção, sorriu maliciosamente e ergueu o cartaz improvisado. Ele firmou os olhos e leu o derradeiro golpe em seus devaneios românticos: “Soninha, liberal e carinhosa. Cem reais. Aceito cheque pré”.

4 comments:

Milezzi said...

LuiZa:

Tá muito massá!
x)
bjOOs

Milezzi said...

Dorinha:
Bem legas!!
haha!
;P

Anonymous said...

adoreiiiiiiiii!!!!!

Eduardo Jauch said...

Trabalho é trabalho. Tem gente com emprego muito pior... :)