Friday, November 12, 2010

O Garanhão de Florianópolis

Esta é a história de Lírio, um sujeito muito popular entre as mulheres da Ilha de Florianópolis no início da década de 70. Nas praias de Coqueiros, Itaguaçu e Bom-Abrigo ele reinava absoluto, para admiração e inveja de seus companheiros de farra. Não tinha prá ninguém: onde houvesse empregadas domésticas, mocinhas com os hormônios em ebulição, solitárias já não tão mocinhas assim ou qualquer rabo de saia dando sopa, lá estava o Lírio fazendo a festa. Mas aquilo não lhe subia à cabeça. Havia algo que o atormentava em a sua decantada virilidade. Ninguém sabia, mas a fama de garanhão que o acompanhava, embora justa e merecida, tinha uma mácula. Algo que ele escondia tanto quanto possível, temendo o implacável julgamento da malta invejosa. Ele temia, sobretudo, o desprezo que adviria e que o acompanharia no ostracismo a que certamente seria condenado. Parecia inacreditável, mas ele tinha realmente motivos para preocupar-se. Por alguma razão, que só os deuses poderiam explicar, o seu ímpeto de garanhão só se manifestava com mulheres feias. Quanto mais feia fosse a mulher, mais ele se empenhava em conquistar seus favores. E tinha ainda um outro detalhe: Lírio adorava mulher de pés grandes. Quando descobria que a dita cuja calçava mais de 40, era um delírio. Já com as mulheres bonitas, ele sentia uma indiferença atroz do seu velho companheiro de batalhas. Não havia nada que acordasse o, antes, impávido colosso.
Sujeito simpático, e de grande traquejo social, Lírio era bastante popular nas rodas de samba do bar do Nino, em coqueiros, e das noitadas regadas a caipirinha do Bar das Pedras, na praia de Itaguaçu. Nessas ocasiões, podia ser visto rodeado de belas mulheres, mas sempre terminava a noite nos braços de uma mocréia qualquer. Essa era a vida do Lírio. E seria uma vida boa, se ele se conformasse com o que tinha. Mas no fundo da alma, ele se ressentia e sonhava com o dia em que teria nos braços uma daquelas lindas meninas que freqüentavam as boates do Lira Tênis Clube e do Paineiras, nas noites de verão. Disposto a mudar sua vida, Lírio foi à luta. Num baile do clube Limoense, ele conheceu Aline, uma loura espetacular recém chegada de Blumenau. A atração foi mútua e eles dançaram a noite inteira, com direito a alguns amassos dissimulados. Todavia, a moça era de respeito e não deu mole para o incorrigível conquistador. Experiente no trato com as mulheres, Lírio logo percebeu que devia refrear seu temperamento ardoroso e esmerar-se no galante papel de um cavalheiro cheio de boas intenções. Apesar dessas restrições iniciais, ou por causa delas, começaram a namorar várias semanas depois daquele primeiro encontro. Depois de algum tempo, ele já freqüentava a casa dos pais de Aline, e ela já não se mostrava tão puritana quando eles trocavam carícias na parte escura da varanda da casa dela, onde tinha até uma lâmpada providencialmente queimada Tudo parecia perfeito. Contudo, Lírio vivia apavorado com o momento em que teria que fazer jus à fama que granjeara durante tanto tempo. E, se dependesse do entusiasmo da moça, esse momento não tardaria a chegar. As carícias foram se tornando mais ousadas e a moça mais exigente. Lírio, por outro lado, desconversava quando as coisas se tornavam mais quentes, na tentativa de ocultar suas dificuldades sob o manto do respeito que lhe dedicava. Aquele era um bom pretexto, mas não ia durar muito. Ele precisava encontrar uma forma de superar a ausência de reação que lhe afligia nos momentos mais calorosos. Pesquisando discretamente, ouviu falar numa benzedeira que vivia na costa da Lagoa da Conceição, e que sabia preparar uma garrafada que era tiro e queda para o problema que o afligia. A queda ele dispensava, naturalmente. Mas foi procurar a mulher. Após ouvir uma atrapalhada explicação sobre o problema de um suposto amigo, a tal benzedeira preparou uma beberagem para ele, composta de vinho, ovo de pata, amendoim e algumas ervas estranhas de que Lírio nunca tinha ouvido falar. O resultado daquela mistura foi um litro de um líquido marrom escuro, de
aspecto não muito atraente. A benzedeira entregou-lhe a garrafada com instruções para que ele a enterrasse numa noite de lua cheia e a deixasse de repouso por três dias. Após isso, Lírio deveria tomar um cálice daquela beberagem todos os dias antes de dormir. Quando o conteúdo da garrafa tivesse acabado, seus problemas estariam resolvidos. Alguns dias depois que ele começou aquele “tratamento”, Aline o encontrou. Estava entusiasmada com a possibilidade de ficar sozinha em casa no fim de semana, em razão de seus pais irem para Blumenau. Era a oportunidade que eles tanto desejavam, segundo a moça, e com a qual ele apressou-se a concordar, sem muito entusiasmo. Lírio, que já estava ficando confiante na eficácia da garrafada, começou a ficar apavorado com a aproximação do fim de semana. Estava tão inseguro, que quando a sexta-feira chegou, ele tomou o restante do conteúdo da garrafa de uma só vez antes de ir ao encontro de Aline. Todo aquele líquido no estômago o fez sentir-se um tanto estranho, mas não fez caso disso. Resoluto, foi para a casa dela, martelando na mente aquele velho mantra: “Seja o que Deus quiser”. No caminho ele se acalmou, e quanto mais pensava em Aline, mais sentia suas calças apertarem. Estava funcionando, pensou entusiasmado. Apressou o passo, pois sentia que não devia perder tempo. Mal ela abriu a porta, Lírio a agarrou. Tal era o seu ímpeto que Aline sorriu toda feliz com a reação que tinha provocado no amado. Aquilo dissipava as dúvidas que a estavam incomodando ultimamente quanto ao que ele sentia por ela. Pelo jeito não ia dar tempo nem para degustar o jantarzinho caprichado que ela havia feito. Isso não a incomodava, é claro. A ordem dos fatores não alterava o produto. e aquela noite prometia. Foram atravessando a sala deixando peças de roupa pelo caminho, dando a Lírio a certeza que havia conseguido dissipar o bloqueio que tanto lhe atormentava. Graças à benzedeira e a garrafada que ela lhe dera.
Mentalmente anotou o compromisso de levar um presente para a mulher. Foi com esse pensamento que sentiu o primeiro espasmo do intestino.
Suas entranhas pareciam estar entrando em colapso, como se tivesse tomado litros de algum tipo de laxante. No segundo espasmo sentiu que deveria correr para o banheiro. Antes que desse um passo, veio o terceiro espasmo, e ele percebeu que não havia tempo para mais nada.
Aline olhou para ele perplexa, ainda sem compreender o que estava acontecendo. Depois, tapou o nariz e correu para o banheiro. Lírio ficou só, com sua dignidade esvaindo perna abaixo. Aquilo era o fim, pensou. Mas o fim ainda não havia chegado. A porta da sala se abriu naquele momento atroz, e o pai de Aline entrou para pegar a carteira de motorista que havia esquecido. Felizmente para Lírio, sua desgraça foi também a sua salvação, pois o que seria difícil explicar foi creditado a um mal estar súbito acarretado pela sua emergência intestinal. Todavia, o namoro com Aline não prosperou. Depois daquele vexame, ele decidiu nunca mais se arriscar com beberagens estranhas e voltou para os braços das feias e mal amadas da ilha.

2 comments:

Simone said...

Tão gostoso ler algo assim, ainda mais quando nos traz boas recordações. Quando criança conheci alguns desses lugares. Foi uma viagem no tempo. hahahahaha. Pena que ele não se deu bem. Parabéns!!!! Muito gostoso de ler.

Julio Kammers said...

Divertido, Gilmar! Gostei bastante de ler, apesar de dar dó do Lírio haha