Tuesday, June 03, 2014

O dia da Caça



No véu escuro da noite calada ele deslizava pela corrente de ar ascendente para poupar energia. Há muito não se alimentava, e já não tinha muito tempo. A cidade não estava longe, mas a aurora não tardaria a lançar seus primeiros raios de luz anunciando a manhã.
Precisava encontrar uma presa antes que o dia chegasse e poder descansar em algum canto sombrio, até que as trevas o chamassem novamente e lembrar-lhe a sua natureza. Ele não era propriamente um ser vivo, mas nutria-se da vida pulsante e quente que corria nas veias dos homens. Como um parasita nascido no inferno, drenava a vitalidade daqueles, cujo destino fatídico os colocava em seu caminho.
Com as pupilas dilatadas nos olhos ansiosos ele percebeu um caminhante solitário percorrendo a trilha que levava à cidade. Era um homem idoso, mas caminhava em passos largos com desenvoltura e energia, embora usasse um cajado como apoio. Ele parecia ter pressa, mas seria difícil dizer se isso se devia aos os perigos que o rondavam naquele lugar, ou simplesmente tinha a impaciência dos homens de espírito inquieto, desses que viajam com freqüência e habitualmente se envolvem em longas jornadas. Naturalmente, tais conjecturas não ocorriam à ele. Seria uma frivolidade desnecessária tecer qualquer tipo de consideração a respeito daquele que estava preste a se tornar mais uma de suas vítimas. Tudo o que lhe importava era o líquido escarlate que corria nas veias daquele homem incauto. É certo que iria preferir uma presa mais jovem, se lhe fosse dado naquele momento a oportunidade de escolher, mas o tempo estava se esgotando com a proximidade da aurora.
Silenciosamente sobrevoou o homem e, um pouco mais adiante, inverteu sua trajetória e arremeteu em sua direção. Como o radar de um míssil travado no alvo, os olhos do vampiro enxergavam apenas o pescoço da vítima, e em sua mente ele percebia apenas a imagem de uma carótida pulsante da energia vital que necessitava. Tal era sua concentração no ataque, que não percebeu o homem erguer o cajado e proferir algumas palavras na língua de antigos deuses já esquecidos.
Primeiro uma luz o feriu como se de repente fosse dia, depois algo chocou-se contra ele e o arremessou a uma grande distância. A sorte o fez cair na entrada de uma caverna, e ele arrastou-se com dificuldade para a escuridão. O cheiro forte de ureia revelou a presença de uma colônia de morcegos. Ele estava em segurança, apesar da fraqueza e das dores que sentia devido à reação sua pretensa vítima.
Ainda metamorfoseado num estágio híbrido, entre homem e morcego, ele tentava entender o que lhe acontecera. Passado o momento de sofreguidão pelo ataque, sua memória resgatou indícios de energias místicas que seus sentidos, e sua imprudência, ignoraram. O caminhante solitário não era um homem comum, posto que tinha uma aura diferente da dos mortais.
- Um ser da escuridão! – Ecoou a voz bestial do vampiro na escuridão da caverna. A noção do perigo de repente lhe afrontou os sentidos e o medo só não foi maior que a fome lancinante que tomava conta de si.
- Irmãos! – Gemeu tão alto quanto pôde. – Venham alimentar-me.
Em resposta, asas começaram agitar-se no fundo da caverna. Num último esforço, o vampiro os chamou mais uma vez. Depois, caiu desmaiado.
Na trilha, o viajante solitário mortificava-se por não ter percebido a aproximação da criatura alada e ter sido forçado a usar de magia para repelir o ataque. Os humanos não costumavam tratar bem os seres das trevas. Agora tinha que caçar aquele maldito monstro sanguessuga. Isso era um aborrecimento que poderia ter evitado, se estivesse atento. Um vampiro por perto sempre punha em risco os não humanos, pelo ódio que suscitava.
Olhando para direção em que o vampiro foi arremessado, ele avistou uma ravina quase encoberta pela vegetação. Ainda irritado com aquele imprevisto, saiu do caminho e aproximou-se do lugar com passos leves e silenciosos, torcendo para que a criatura não tivesse sobrevivido ao impacto da energia que havia sido deflagrada pelo encanto arcano que havia proferido. Isso era uma possibilidade remota, ele sabia. Vampiros eram criaturas extremamente resistentes, e o seu domínio das artes arcanas era ainda imperfeito, haja visto que eram praticadas em segredo, longe dos olhares curiosos.
Descendo a ravina, ele não demorou muito a encontrar a entrada da caverna onde a criatura havia se abrigado momentos antes. Apesar da penumbra, seu olhar atento logo encontrou os sinais da queda do vampiro, e rastros que indicavam claramente onde ele havia se metido.
- Ele sobreviveu. – Murmurou para si, irritado com a possibilidade de ter que entrar na caverna e expor-se a um ataque daquela cria do inferno.
- Acho que não tenho escolha. – Murmurou o estranho, resoluto.
Contudo, quando se aproximou da entrada da caverna, uma revoada interminável de enormes morcegos barrava-lhe a passagem. As criaturas passavam por ele e voltavam para atacá-lo em tal número que era impossível afasta-los sem o uso de magia.
- Infernos! – Praguejou, batendo o cajado no chão.
Com o impacto, um abalo sísmico atingiu a entrada da caverna, fazendo-a desmoronar. Em poucos instantes não havia mais sinal dela, nem dos morcegos que o haviam atacado.
O mago afastou-se e voltou para a trilha, torcendo para que a caverna não tivesse outras saídas, ou que o vampiro não tivesse percebido o que o havia atingido, nem percebido sua natureza a ponto de revelar sua presença. Essa possibilidade existia, é verdade, mas vampiros, como os seres mágicos, não são criaturas populares em lugar nenhum. De modo que ele tinha uma grande chance de continuar incógnito, mesmo que a besta tivesse sobrevivido. Já refeito do imprevisto, o mago tomou novamente o caminho da aldeia mais próxima. Seria uma longa caminhada.
No interior da caverna, o vampiro sugava avidamente o sangue dos morcegos que se aproximavam ao atender o seu chamado. Não era exatamente uma dieta que o atraía, mas servia para restituir-lhe as forças até a noite seguinte. Em sua mente ensandecida, alguma criatura ainda pagaria pelo seu infortúnio.
Horas depois, Nos arredores da aldeia, uma camponesa saía do estábulo com um balde de leite. Caminhava com os passos apressados de quem tinha muitas tarefas a cumprir antes do romper da aurora. Em breve, os homens da casa levantariam para a lida no campo e se atirariam famintos sobre a comida que ela ainda tinha que preparar.
E por estar apressada, a mulher não ouviu o respirar forte e ansioso da criatura que se ocultava na sombra projetada pelo telhado do paiol. Pendurado de cabeça para baixo, o vampiro a observava com os olhos famintos e injetados de sangue. Ao pressentir que era chegado o momento do ataque, a criatura lambeu os lábios ansiosos e começou a salivar. A fome era atroz e o deixava ainda mais impaciente. Num movimento abrupto e desajeitado, fez a madeira estalar.
 - Q-quem está aí? – Gaguejou a mulher, subitamente alerta. Com o olhar fixo nas sombras, ela abaixou o balde e pegou a foice encostada na parede ao seu lado. A camponesa não era medrosa, e estava acostumada com as tentativas de saques no depósito de provisões. Segurando a ferramenta com firmeza, aproximou-se cautelosamente do paiol.
- Quem está aí? – Repetiu, levantando a foice.
A mulher não esperava ser atacada de cima, mas mesmo assim conseguiu brandir a foice em direção à sombra que caía sobre si. Ainda conseguiu ouvir um urro de dor, seguido de uma imprecação, antes de perceber o que estava acontecendo. O monstro conseguiu segurá-la pelo pescoço e arreganhou as presas. Ela gritou, para logo desfalecer, com o vampiro preso à  sua carótida estraçalhada.
O grito da mulher ecoou na escuridão e alertou os homens que já haviam acordado. Eles precipitaram-se para fora da casa com armas improvisadas em punho. Um deles trazia um arco e
flecha e corria estabanado, tentando prepara-lo.
- Drusila, onde está você? – Alguém gritou, piscando os olhos na escuridão.
- Ali! Do lado do paiol, tem uma sombra se mexendo.
- Luther, traga um archote. – Gritou o homem mais velho para o garoto assustado que olhava da porta entreaberta.
- Drusila! Onde está você, mulher? – Perguntou ele, gritando para a escuridão.
De repente ouviram um rosnado.
- Tem alguma coisa ali, do lado do paiol.
- Luther! Depressa com esse archote.
O garoto não chegou a tempo. Sentindo-se acuado, o vampiro pulou sobre os homens e derrubou um deles com o impacto.
- É um maldito vampiro! – Vociferou o velho, após se esquivar do ataque da criatura. Num movimento surpreendente ágil, virou-se e desferiu uma pancada no vampiro com um pesado cajado.
O vampiro urrou de fúria e dor. Tentou atacar novamente, mas estava cercado. Sem saída, ele iniciou a metamorfose que o transformaria num ser alado.
- Olhem suas asas. O desgraçado vai fugir.
Ele abriu suas asas e começou a batê-las com todo o vigor que dispunha. Em alguns segundos já estava a alguns metros do chão.
- Não vai, não. – Disse o homem com arco e flecha.
- Atire!
O homem soltou a corda do arco e disparou a flecha em direção ao vampiro. A criatura soltou um guincho de dor, mas conseguiu manter-se no ar e sumiu na escuridão.
- O desgraçado escapou! – Vociferou o homem velho brandindo o cajado.
- Onde está a mamãe?  - perguntou Luther, com os olhos arregalados de pavor.
Seguindo a direção de onde o vampiro havia surgido, eles acharam o corpo exangue e já sem vida da mulher.
- Mamãe!
- Que desgraça! – Exclamou o homem velho, com os olhos marejados. – Minha pobre Drusila.
O estranho ouviu o ruído da estrada e se aproximou da casa a tempo de ver o vampiro tentando alçar voo. O acaso o fez encontrar novamente a criatura que o atacou. Desta feita, ele não desperdiçaria a chance e arremessou seu cajado com uma força sobrenatural. A cria das trevas foi atingida com tal violência, que despencou já quase desfalecida.
Os homens logo perceberam sua queda e o cercaram, empunhando foices, forcados e qualquer instrumento cortante ou perfurante que pudessem pegar. O vampiro ainda teve tempo de olhar pedindo clemência, mas nem mesmo ele sabia o que era isso.
O estranho não esperou para ver o esquartejamento. Embora fosse um ser da escuridão, não tinha nenhuma satisfação na presença da violência, a qual considerava uma futilidade desnecessária. Incontinenti, sumiu na escuridão.
Naquele dia, os homens daquele sítio não foram trabalhar, tinham uma morte a prantear. E por mais que lhes doesse, decapitaram Drusila e cremaram seu corpo. Depois espalharam suas cinzas no campo. Essas providências eram necessárias para evitar que a vítima retornasse do reino dos mortos e se tornasse também um demônio sugador de sangue.
Longe dali, o estranho chegava ao seu destino, um velho mosteiro, onde frades de aspecto contrito o aguardavam para receber os sacramentos que os permitiria serem aceitos na escuridão.

 
 
 

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