Saturday, August 02, 2014

A Mulher Aranha

Depois do jantar era sempre a mesma coisa. O garoto via o pai esconder-se atrás de um jornal e se fingia compenetrado na leitura. Pouco importava se já tivesse lido o mesmo jornal de manhã, desde que não se sentisse obrigado a prestar atenção na conversa de sua mãe.
A “conversa”, na verdade limitava-se à um monólogo, quando ela se punha a desfiar um longo e enfadonho relato das coisas corriqueiras e banais do seu dia, em meio a alguns resmungos de aquiescência do marido.
Ele não saberia dizer se os pais eram felizes. Provavelmente eram, já que pareciam não pensar muito nisso. Suas vidas pareciam acompanhar a trajetória de um ponteiro de relógio, que volta ao mesmo ponto a cada ciclo. A Rotina estava impregnada no destino de ambos, como uma âncora num pequeno mundo, familiar e seguro.
Sua mãe parecia não se importar se alguém estava ouvindo o que falava. Parecia falar apenas para si mesma, como se
rever os acontecimentos comezinhos do seu dia os tornassem mais reais do que eram e pudessem evitar o silêncio acusador de uma vida tediosa e vazia. Assim como o pai, ele não se sentia obrigado a prestar atenção ao que sua mãe falava. Já conhecia os assuntos e se aborrecia com aquela conversa.
Seu pai, entretanto, gostava que fosse assim. Era um sinal reconfortante de que tudo estava normal. Nessa noite, porém, havia uma partícula de incerteza pairando no ar. Uma pequena nuance que se revelava num tom levemente acima do normal no costumeiro cacarejar da mulher, que lhe chamou a atenção. Havia um elemento destoante. Talvez o ritmo da respiração traindo certa ansiedade.
O garoto também percebeu que havia algo diferente no tom de voz de sua mãe. Os assuntos de sua conversa eram quase os mesmos de todos os dias, mas ela parecia querer dizer algo mais daquela vez. Ele olhou para o pai e vislumbrou o conhecido arquear de sobrancelha, quando ficava na expectativa de algum aborrecimento iminente.
- A Laura me ligou. – Disse a mulher de repente.
- Quem?
- Você sabe muito bem de quem eu estou falando. – Ela retrucou com irritação. – Estou falando da minha amiga Laura. Aquela que você dava em cima quando éramos noivos.
- A Laura Pimenta? - Perguntou ele, subitamente interessado. – Desde que casou com aquele sujeito grã-fino nunca mais deu notícias. O que a fez ligar para você?
- É que... Bem, ela separou-se dele e está com algumas dificuldades no momento.
- E daí?
- Daí que ela pediu para morar conosco por algum tempo.
As palavras saíram como uma enxurrada que se segue ao temporal. O garoto ouvia atentamente, curioso com a reação paterna. Finalmente havia alguma novidade naquela casa.
- O que você respondeu?
- Disse que poderia vir. – Respondeu a mulher com um olhar de desafio.
O homem dobrou o jornal e se levantou da mesa irritado.
- Você deveria ter me consultado antes.
- O que eu poderia fazer? Era uma situação de emergência. Ela saiu de casa com uma mão na frente outra atrás. Eu não poderia negar ajuda a uma velha amiga.
- Velha amiga... – Ele retrucou com um muxoxo. – Eu sabia que aquela sirigaita ainda ia aprontar alguma. Era de se esperar, com a vida de solteira que levava e, depois, aquele casamento apressado.
- Não seja injusto. Ela não estava grávida, como todo mundo falava.
- Ainda bem! Imagine ela aparecer aqui com um pirralho nos braços. – Disse ele exaltado.
- Pare de gritar. – Ela ordenou.
- Grito o quanto eu quiser! – Retrucou o homem, mas baixando o tom de voz.
Ainda aborrecido, ele virou-lhe as costas e foi para o quarto e bateu fortemente a porta, em protesto. A mulher permitiu-se um leve sorriso de triunfo, que foi percebido pelo garoto.“Lar doce lar”, ele pensou, ao encaminhar-se também para o seu quarto. Lembrava-se vagamente de uma mulher, a qual chamava de “Tia Laura”. Isso foi há alguns anos. Ela costumava levá-lo para passear. Dava-lhe presentes em algumas ocasiões e levava-o às matines no cinema do bairro, num domingo ou outro. Graças a ela tornou-se fã de Guerra nas Estrelas. A suprema ingratidão é que não se lembrava da “tia” com a mesma nitidez que conseguia rever Darth Vader na memória. O fim da primeira trilogia marcou também a última vez que a viu. Tempos depois, sua mãe mencionou casualmente que ela havia se casado e mudado para outra cidade. Agora a tia Laura estava de volta. Ficou imaginando se ela ainda usava aqueles vestidos curtos e decotados. Era difícil falar com ela, sem que os olhos escorregassem para alguma zona proibida, imposta pela moral imposta das aulas de catequese. Talvez, desta vez, tivesse a chance de olhar seus peitos, sem que alguém lhe dissesse que estava cometendo um pecado mortal.
Piscou o olho e cedeu ao impulso de um bocejo. Apagou a luz e tentou dormir, mas ainda continuou pensando na “tia” Laura por mais algum tempo. Através da janela fechada, o ruído intermitente de um grilo avançava nos cantos escuros da noite e ressoava em seu inconsciente. Aos poucos o ruído cessou e o silêncio serenou as águas do sono, convidando-o para um mergulho profundo.
Acordou de repente, com o costumeiro grito da mãe.
- Levanta, Ângelo! Tá na hora de acordar.
Não contente em falar aos gritos, ela o sacudia na cama.O garoto odiava aquele jeito de acordar. Coçou a cabeça e apertou os olhos antes de abri-los completamente e olhar para a mãe.
- Bom dia, filhinho.
Odiava aquele “filhinho” de manhã cedo, também.
- Dormiu bem?
Um resmungo foi a resposta. Ainda sonolento ele dirigiu-se para o banheiro.
- Você não tem muito tempo. Não demore no banheiro como sempre faz.
“Sim Sargento”.
O garoto engoliu o desjejum apressadamente e saiu de casa no mesmo ritmo. Dispunha de poucos minutos para atravessar o portão da escola, antes que o segurança o fechasse. Entrou na sala de aula no momento em que o professor de língua portuguesa abria a lista de chamada. Isso era conveniente porque ele era o primeiro a ser chamado.
Enquanto o professor iniciava a chamada, um avião de papel sobrevoou sua carteira, bateu em sua mão e caiu no chão. Ao agachar-se para pegá-lo, deu de cara com o sorriso dentuço de Zeca, seu companheiro de muitas aventuras, reais ou imaginárias. Sua expressão indicava que havia algo no avião de papel. Encontrou um recado para olhar em direção à posição vinte e uma horas de onde estava. Era onde se sentava a garota dos seus sonhos, Letícia. Olhou novamente para Zeca, que devolveu seu olhar com uma expressão de cumplicidade. Então voltou a contemplar sua deusa e percebeu que os botões de sua camisa estavam soltos e deixavam entrever os pequenos seios de bico rosado. Ele surpreendeu-se por ver que ela não usava sutiã e maldisse o amigo por ser tão indiscreto, mas não conseguia desviar os olhos da visão mais sublime que ele se lembrava de já ter tido algum dia. Totalmente hipnotizado, ele seguia o movimento dos seios dela no vai e vem da respiração e alguma mudança fortuita na sua postura. De repente ele percebeu que ela o fitava com um olhar zombeteiro. Atrapalhado, Ângelo sentiu o sangue subir até suas orelhas. Com esforço conseguiu controlar-se e olhou para ela novamente, envergonhado por ter sido surpreendido. A menina sorriu e mordeu a tampa da caneta Bic, com um jeito que ele nunca esqueceria.
- Ângelo, venha até o quadro. – Disse o professor de repente.
- Eu?
- Suponho que sim – Retrucou o professor irônico. – Já que não existe outro Ângelo na minha lista de chamada. Queira vir até o quatro, por favor.
- Bem... Não posso. Eu...
- Alguma coisa errada, Ângelo?
- Ele não pode se levantar, professor. Respondeu Zeca.
- Por que não?
- Ele tá de barraca armada.
A Sala explodiu numa gargalhada quase uníssona. Com muito custo, o professor conseguiu impor a ordem depois de intermináveis segundos de balbúrdia. Evitando olhar para Ângelo, que já estava bastante constrangido, ele falou:
- Gostaria que os senhores colocassem tanta energia no estudo, quanto gastam com seu hormônios. Agora que o assunto está encerrado, vamos continuar aula. Abram seus livros na página trinta e quatro.
Ângelo não ouviu as últimas instruções. Juntou o que lhe restava de dignidade e olhou para Letícia com um pedido mudo de desculpas estampado na face. Ela lhe sorriu levemente. Um sorriso impregnado de uma malícia habilmente dissimulada, mas que se revelava nos gestos lentos e estudados com que a garota ajeitou e abotoou a camisa. Só aí ele percebeu que ela havia permanecido com a camisa entreaberta até aquele momento. O possível significado disso o acompanharia durante todo o trajeto de volta para casa, e iria martelar em sua mente por muito tempo, até que tivesse coragem suficiente para tomar uma atitude.
Ao entrar em casa, percebeu vozes na sala. Uma era desconhecida, embora vagamente familiar.
- Ah! Finalmente você chegou – Exclamou a mãe, com um entusiasmo inusitado na voz. – Venha até aqui, filhinho.
“Filhinho”?
- Vem dar um abraço de boas vindas à tia Laura.
Ao lado de sua mãe, uma mulher lhe sorria.
- Acho que ele não lembra mais de mim. – Disse ela levando-se.
Desajeitadamente ele correspondeu ao abraço surpreendentemente forte que ela lhe deu, junto com um beijo demorado na face.
- Senti muitas saudades de você, meninão. – Sussurrou-lhe ao acariciar sua nuca.
Ela lhe falava tão de perto, que Ângelo não pôde deixar de notar a estranha simetria de seus dentes, imaculadamente brancos e perfeitamente alinhados. A imagem de um predador lhe veio à mente, mas ele a reprimiu e concentrou-se na “tia”. Lembrou-se que só ela o chamava de “meninão” e essa lembrança levou a outras que estavam adormecidas em algum canto da memória. Todas vinham acompanhadas de uma sensação de bem-estar e encantamento, exceto a que se referia ao dia em que soube que ela foi embora.
- Nossa! – Ela exclamou depois de soltá-lo. – Deixei um menino e agora encontro um homem feito. Tomou fermento?
- Ele puxou à minha família. – Disse Sofia, sem disfarçar o orgulho materno.
- Não pensei ter ficado tanto tempo longe. – Disse Laura, com uma breve expressão de tristeza no olhar.
- Não pense nisso querida. Você está aqui com a gente agora. Ângelo, meu filho, vá lavar as mãos e venha ajudar-me com o jantar.
- Deixe o menino Sofia. Eu ajudarei você
O garoto aproveitou a deixa e escapuliu para o banheiro. Tarefas domésticas não faziam parte da sua relação de coisas interessantes para fazer. Não que um banheiro fosse tão atraente assim, mas ele tinha um estoque de gibis e algumas revistas eróticas escondidas no forro. Era ali que dava vazão aos seus devaneios juvenis e, também, deixava o tempo passar quando estava aborrecido.
Ângelo saiu do banheiro somente quando ouviu a voz do seu pai. O homem detestava encontrar o banheiro ocupado quando chegava vindo do trabalho. O garoto, na verdade, nunca se preocupou muito com isso. Todavia pensou que seria interessante apreciar o encontro de seu pai com sua antiga paixão. Pelo menos isso tiraria o foco de atenção dele e, assim, poderia observá-la com mais tranquilidade. A “tia” Laura o perturbava mais do que gostaria de admitir, mas estava contente com a sacudida que ela deu na rotina daquela casa. Até mesmo sua mãe parecia mais viçosa, depois da chegada dela.
O Jantar transcorreu normal, de certa forma, exceto pelo silêncio que se fazia nos intervalos dos costumeiros monólogos de sua mãe. Esses eram preenchidos pela voz de Laura, que relembrava a época em que eram elas eram solteiras. Algumas dessas lembranças pareciam evocar momentos mais felizes do que o presente proporcionava. O pai, como de hábito nada falava e parecia ausente daquela mesa, mas Ângelo percebeu no seu jeito taciturno um breve lampejo de ressentimento. Ao contrário das mulheres, havia em suas lembranças algumas dores que estavam quase esquecidas.
Sob o olhar do garoto, a serenidade de Laura contrastava com a vivacidade nervosa de sua mãe e o olhar perdido do pai. Este levava a colher à boca em gestos lentos, como se tomar a sopa fosse tudo o que lhe importava em todo o universo. Ângelo percebia o esforço enorme que ele fazia para aparentar uma tranquilidade que estava longe de sentir, o que lhe dava um aspecto cansado e patético.
Somente Laura parecia ouvir o que a mãe falava. De repente Ângelo sentiu uma necessidade premente de escapulir dali. Apressadamente terminou o jantar e murmurou um pedido de licença que ninguém pareceu ouvir, para seu alívio. Em certos momentos era bom ser invisível. O fato é que se sentia constrangido por eles e isso era mais do que poderia suportar. Deixá-los só era uma maneira de ajudá-los. Talvez conseguissem reatar os laços que os unia em outra época.
Saiu para o jardim. O cheiro de grama molhada pelo orvalho impregnava o ar frio daquele início de inverno. Pensou em voltar para pegar um casaco, mas desistiu da ideia e foi para a rua. Gostava de caminhar quando algo o incomodava, só não sabia ainda o que era.
No dia seguinte, Ângelo matou a aula. Não era seu costume escapar da escola, mas não tinha a menor disposição para enfrentar a gozação de que certamente seria alvo, depois daquele vexame. Andava sem rumo, enquanto remoía planos de vingança Ele ainda não sabia como, mas ia dar o troco a Zeca por aquele mico. Livre para vadiar, ele perambulou pelas ruas do bairro até o fim das aulas. Era bom andar pelos lugares que só costumava frequentar nos fins de semana e feriados, pois a cidade se mostrava diferente e fervilhava de gente apressada entrando e saindo de lojas e escritórios. Quase sem se dar conta, chegou à banca de revistas que ficava próxima ao antigo cinema que frequentava. O cine Glória, de tantas alegrias passadas, fechou para dar lugar a uma igreja evangélica.
Ainda distraído, olhou as revistas penduradas. Às vezes tinha dinheiro para comprar algum gibi, mas aparecia ali de qualquer modo e já era bem conhecido pelo jornaleiro, que havia se tornado um amigo ao longo de alguns anos. O Chico da banca de revistas era o seu principal fornecedor de gibis usados e, também, seu habitual comprador das revistas que ele queria descartar ou trocar. Mas além das revistas, eles gostavam de conversar, e não só sobre quadrinhos. Cinema era a segunda paixão de ambos, que lamentaram juntos o fechamento do cinema do bairro. Naquela ocasião, Chico rogou todas as pragas que conhecia às igrejas evangélicas, aos pastores e aos tolos que os seguiam, no seu entendimento. Ângelo, mais comedido, evitava comentários que pudessem soar como preconceito, mas secretamente, preferia que o cine Glória continuasse aberto, em vez de mais uma igreja no bairro. Acreditava que o melhor templo de Deus era o coração dos homens e não precisava de ninguém para sentir sua fé.
- Você viu o que vai passar hoje na TV? – Perguntou Chico.
- Não. O quê?
– Em que planeta você vive? O Canal 2 vai reapresentar Guerra nas Estrelas, cara! A primeira trilogia.
- Legal! – Respondeu Ângelo. Novamente veio-lhe à mente a antiga entrada do cine Glória, a bilheteria e as mãos cuidadosas de “tia” Laura conduzindo-o para dentro. Por um segundo sentiu o cheiro de pipoca, misturado ao leve odor de mofo da forração, cuja cor tinha sido vermelha um dia.
Em meio ao tagarelar de Chico sobre os efeitos visuais do filme, Ângelo pensou na coincidência que era a reapresentação daquele filme na TV, quando “tia” Laura reaparecia em sua vida. Ainda não sabia o que esperar daquilo, mas parecia que o destino estava para pregar uma peça em toda a sua família. Provavelmente o retorno de Laura estava perturbando mais seu pai do que a ele, mas outra coisa o deixava curioso: a insistência de sua mãe em receber em casa alguém que quase lhe tirou o marido. Embora Laura tivesse sido uma rival involuntária, Ângelo acreditava, em sua curta experiência de vida, que as mulheres não costumavam ser tão generosas com supostas invasoras de território.
Quando voltou para casa na noite anterior, todos estavam entretidos com um programa de televisão. Aproveitou a pouca atenção que lhe deram para tentar esgueirar-se discretamente para o quarto. Entretanto sua mãe o chamou no último passo antes da porta e, segundo sua experiência, aquilo não era um bom sinal.
- Sua cama está feita no sofá da sala, querido. A tia Laura vai ficar no seu quarto por algum tempo.
“Sobrou”.
Ele ajeitou-se no sofá com algumas revistinhas e esperou pacientemente que a TV fosse desligada. Felizmente isso não demorava a acontecer em sua casa. Seus pais mantinham uma rotina de dormir cedo que era praticamente imutável. Logo ele também desistiu da intenção de ler. A luz da sala era indireta e muito fraca. Isso tornava a leitura desconfortável e ele cobriu-se todo, esperando que o sono não tardasse. Pensou em Letícia, mas ela não era um bom pensamento quando se queria adormecer, pois estava frequentemente em suas fantasias mais ousadas. Desta feita, entretanto, a imagem dela não se formou em sua mente. A “tia” Laura parecia preencher toda a sua capacidade para sonhar acordado. O sono, ele já sabia, demoraria a chegar.
O som de passos no corredor interrompeu sua tentativa para adormecer. Não se deu ao trabalho de olhar. Quem quer que fosse certamente não estava ali para falar com ele. Naquela
casa ninguém costumava falar com ele algo além do trivial e o estritamente necessário. Todavia, alguém se espremeu entre o seu travesseiro e o braço do sofá. Acariciou seu cabelo e aquele afago tinha algo remotamente familiar.
- Sei que você está chateado comigo, Ângelo. – Disse a mulher, num sussurro.
Ele se esforçou para não esboçar nenhuma reação. Isso não era uma tentativa para rejeitá-la. Simplesmente não sabia o que fazer
- Eu lamento perturbar sua vida, mas ficarei aqui por pouco tempo. Apenas o suficiente para reorganizar-me e tomar algumas decisões.
A mulher falava suavemente, como se o estivesse acariciando com as palavras. Ângelo arriscou um rápido olhar. Ela não o fitava e parecia falar para si mesma. Estava de camisola e sentada contra a luz difusa que vinha do corredor. Sua silhueta desenhada na contraluz lembrava uma estátua grega, cuja foto ele viu em algum livro. Desconcertado, Ângelo percebeu que respirava muito próximo de suas coxas e podia sentir o perfume suave que ela exalava.
Ela percebeu que ele estava acordado, mas não se afastou. Depois de um momento calada, voltou a acariciar seus cabelos.
- Estou aborrecendo você, não é? Vou deixá-lo dormir. Eu sei que você tem que acordar cedo, mas não poderia deixar de me desculpar por tirá-lo do seu quarto.
Ela se curvou e beijou-o na face. Novamente aquele beijo suave e úmido que ele sentiu outra noite e já lembrava ter sido beijado assim em outras ocasiões, num passado distante. Ele sentiu-se envergonhado por não ter tido coragem de abrir os olhos e falar-lhe. Ao ouvir seus passos em direção ao quarto, sentiu vontade chutar sua própria bunda.
O dia seguinte não o encontrou com um ânimo melhor. Ângelo pegou uma forte gripe. Acordou com o nariz entupido e um mal-estar generalizado em decorrência da moléstia. Apesar disso, o arsenal de receitas caseiras, chás e escalda-pés que sua mãe conhecia era uma ameaça maior que a gripe, propriamente dita. Mas entre chás de alho e folha de laranja, entremeados com analgésicos diversos, a convalescença do garoto acabou não sendo nenhum castigo, paparicado em tempo integral pela “tia” Laura. Talvez para compensar o desconforto por ele ter sido obrigado a dormir no sofá da sala, ela se desdobrou em cuidados, que ia do preparo dos chás à caldo de galinha, os quais ela dava pessoalmente de colher na sua boca.
Nessas ocasiões era difícil, mesmo doente, não olhar para o decote que ela generosamente parecia exibir, e que aumentava o diminuía caprichosamente, conforme a roupa que usava e os movimentos que fazia com a colher, ao imitar comicamente o aviãozinho das histórias de bebês. Naturalmente, os devaneios eróticos já não tinham Letícia como inspiração. Também o sono, que antes vinha tão fácil, demorava mais a chegar.
Outro dia se passou e a gripe já dava sinais de ceder. Sinais esses, que ele ocultava cuidadosamente, a fim de prolongar os cuidados que recebia da “tia” Laura. À noite, depois que ela se recolheu, ele percebeu que o congestionamento nasal e a dor de cabeça não o incomodavam mais. Ângelo acomodou-se melhor para tentar dormir, quando ouviu passos furtivos no corredor. Por um instante pensou que ela voltava e seu coração disparou. Contudo, quem surgiu em meio à penumbra e andando com passos cautelosos era seu pai. De onde estava podia vê-lo parado na porta olhando furtivamente para dentro do quarto. “Quem diria que o velho fauno ainda tinha libido”. Pensou o garoto com uma mordacidade incomum para a sua idade, enquanto fitava a patética figura espreitando sono dela, como uma ave de rapina.
Ângelo sentiu-se tentado a deixá-lo prosseguir naquela lúbrica vigília. Contudo, não queria expor Laura a uma possível situação constrangedora, caso ela acordasse de repente. Simulou um acesso de tosse que ecoou pela casa toda. Seu pai sobressaltou-se, olhou para ele e, rapidamente voltou para o seu quarto.
Alguns minutos depois foi a vez dele sentir-se tentado em verificar o que seu pai conseguia ver da porta do quarto onde Laura dormia. Levantou-se como se fosse ao banheiro, mas parou onde queria. Ela dormia de bruços e sua respiração compassada indicava que estava em sono profundo. Dormia como um anjo e ele, comovido, sentiu-se um intruso a violar sua intimidade. Tentou voltar, mas não conseguia deixar de olhá-la. Preferia sofrer todas as penas do inferno a afastar-se dali.
Armando-se de coragem, Ângelo entrou no quarto, mas desajeitado, bateu com o joelho na cama. A mulher se mexeu e virou-se para cima. O movimento quase lhe descobriu os seios e
ele percebeu que Laura estava nua sob o lençol. Ele chegou até a porta disposto a sair antes que ela acordasse, mas sem conseguir resistir, voltou para apreciar sua nudez. Sem muita cerimônia desta vez, já acostumado com a ideia de se tornar um pervertido em tempo integral. Ela mexeu-se novamente e o seio esquerdo ficou completamente descoberto. Ângelo aproximou-se e viu a tatuagem. Era uma aranha estilizada, desenhada de modo a parecer que guardava o mamilo intumescido que apontava para ele.
A Aranha parecia zombar de sua angustiada excitação, tão carregada de culpa por invadir a intimidade dela. Mesmo a contragosto, Ângelo saiu do quarto e voltou para a solidão do sofá. Aquela noite certamente seria uma daquelas em que ele iria penar para adormecer. E assim foi. Meia hora depois ainda estava procurando uma posição que o fizesse mergulhar no mundo dos sonhos, mas um ruído o pôs novamente alerta.
A luz do pequeno abajur na mesa ao lado do sofá foi acesa e alguém se aproximou. De olhos fechados, ele fingia que estava dormindo, esperando que não fosse tia Laura, furiosa por ter percebido que ele a havia espionado minutos antes. Mas era ela.
- Abra os olhos, Ângelo. Sei que você está fingindo. – Ela sussurrou.
- Tia Laura? – Respondeu ele, com os olhos piscando e uma expressão pretensamente sonolenta.
Ela soltou uma risada. Um riso baixinho e malicioso.
- Pensou que fosse algum fantasma?
- N-não! – Gaguejou ele sem jeito.
- O que há menino? Não queria me ver? Então aproveita...
Ela deixou cair o lençol e exibiu sua nudez em todo o seu esplendor.
- Então? Sou bonita?
Ele tentou responder, mas não conseguiu articular nenhuma palavra.
- Agora chega prá lá, ela disse. Hoje vou dormir com você.
Ela deitou-se ao seu lado e o abraçou como fazia quando ele era pequeno. Sem jeito, Ângelo encolheu-se temendo encostar-se a seu corpo, mas ela não lhe deu trégua.
- Nossa! Como você cresceu menino. Mas será que cresceu tudo direitinho? – Disse ela, enquanto mordiscava-lhe a orelha e sua mão descia em círculos e sumia sob o elástico do calção do pijama.
Os pelos da nuca de Ângelo se eriçaram e ele mal podia acreditar no que estava acontecendo.
- Ah! Meu taludinho. Que coisa boa você tem aqui.
“Será que tô sonhando? Ela tá fazendo isso mesmo”?
Uma sensação forte subiu pela virilha e explodiu em um gozo prolongado, como se o mundo fosse acabar. Era como um rio represado, que de repente encontrou seu caminho.
De repente o alarme do relógio ressoou insistente no silêncio da noite. “Quem, diabos botou o relógio para despertar de madrugada”?
- Ângelo, meu filho! Desligue esse despertador – Gritou sua mãe da cozinha. – Esqueceu que hoje você não vai à escola?
“Que bosta! Era sonho mesmo”. Procurou com os dedos o estrago feito no lençol. A mancha acusadora estava ali. “Que meleca! Talvez, se deixar tudo dobradinho, ela não note. Se descobrir, me mata”.
De costas para o corredor, Ângelo não percebeu que Laura havia entrado na sala.
- Bom dia Ângelo! Dormiu bem? – Ela saudou alegre.
Ele se virou rapidamente. Estava embaraçado, e o rubor traiçoeiro e inoportuno não demorou a queimar suas faces.
- Nossa! Você parece um gato que acabou de comer o canário. – Disse Laura, ao mesmo tempo em que tentava sufocar o riso.
Atrapalhado, Ângelo deixou cair o lençol que segurava na cintura e a mancha amarelada e suspeita apareceu para ela. Laura o fitou amistosamente, como se não houvesse nada de anormal.
- Vá tomar seu banho, enquanto eu arrumo essa bagunça. – Disse, sem demonstrar que percebia o que tinha acontecido.
Balbuciando um agradecimento, Ângelo escapuliu rapidamente da sala.
Aquilo não poderia ter acontecido, disse ele para si mesmo, enquanto socava furiosamente a parede.
- Ângelo! – Gritou sua mãe. – Que barulho é esse, menino?
- Nada não. Tô só verificando se os azulejos não tão soltos.
- Azulejos soltos? Saia logo desse banheiro, antes que o destrua. Anda logo! Preciso verificar sua temperatura.
- Já tô saindo. – Resmungou Ângelo, antes de abrir a porta e sair enrolado numa toalha. Já sabia que isso irritava sua mãe. Ela achava uma falta de compostura sair do banheiro sem estar totalmente vestido.
- Vá se vestir! – Ordenou ela com impaciência.
Ângelo correu para o quarto antes que ela resolvesse estender o assunto. Na pressa deu um encontrão em Laura, que saía do quarto com uma pilha de roupa suja nos braços. Com o impacto as roupas e a toalha dele foram ao chão.
- Precisamos parar de nos encontrarmos assim, meninão. – Disse ela, ao agachar-se para pegar as roupas.
Ângelo permaneceu parado, sem saber o que fazer e sentindo-se um completo idiota, ao tentar esconder sua genitália com as mãos.
- Esse tipo de situação acaba com a reputação de uma dama, sabia? – Disse Laura, ao estender-lhe a toalha. Ela tinha um leve sorriso nos lábios e um olhar zombeteiro. – Sabe que eu já enxuguei você muitas vezes?
-J-já? – Gaguejou ele.
-Já. Quando você era pequeno. Quer um talquinho?
-N-não precisa não, obrigado.
Ela riu e saiu do quarto. Ângelo ficou olhando a porta com a impressão de que havia feito papel de tolo e isso não ia ficar sem troco, ele pensou, sem ter a menor ideia de como ia fazer isso.
À noite, Ângelo evitou olhar para Laura durante o jantar. Ainda ouvia a risada dela em sua mente e sentia-se constrangido. Comeu rapidamente e refugiou-se no sofá da sala, onde dormia. Ligou a televisão e assistiu um capítulo inteiro da novela em companhia de sua mãe. Ele sabia que Laura não era muito interessada em televisão e preferia refugiar-se no quarto para ler.
Ângelo assistiu TV até de madrugada, mas continuava com insônia. A tatuagem de Laura não lhe saía da cabeça. Estava tão nítida em sua memória que poderia imaginá-la em todos os detalhes. Talvez conseguisse transpô-la de memória para o papel. Ainda pensando nisso, adormeceu.
No dia seguinte Ângelo sentiu-se totalmente curado da gripe. Finalmente poderia sair um pouco de casa. Estava farto da convalescência e tinha saudade até da escola. Todavia, sua mãe não tinha a mesma opinião e o obrigou a ficar mais um dia de molho.
Sem alternativa, ele resolveu se enfiar no quarto, que ainda era seu durante o dia, e levar adiante a ideia de recriar a tatuagem de Laura no papel. Logo depois do café da manhã, ela saía de casa para o trabalho e voltava só no fim da manhã. Isso lhe daria tempo suficiente para fazer o desenho e escondê-lo em algum lugar.
Ao entrar no quarto, porém, ele sentiu que a presença dela era forte e, mesmo ausente, se mostrava nos detalhes. Seu “cafofo”, como costuma dizer, nunca estivera tão limpo e arrumado. Em cima do criado-mudo encontrou uma pilha de revistas com um bilhete: “Menino, seu gosto por alguns tipos de leitura não fazem justiça à inteligência que demonstra possuir. Tente gostar destas”. Assinava apenas “L”. As revistas eram de curiosidades científicas, motocicletas, modelismo e alguns gibis que ele não conhecia. Nenhuma de mulheres peladas.
Ângelo levantou o colchão e não encontrou seu acervo de revistas eróticas. Deveria ter imaginado que ela iria revirá-lo em algum momento. Aquilo o aborrecia, mas não era o fim do
mundo. Já estava enjoado daquelas revistas e seria fácil conseguir outras com o Chico da Banca. Então, esqueceu aquilo e se concentrou no que pretendia fazer quando entrou ali.
Horas mais tarde, depois de muitas tentativas ele se deu por satisfeito. Quando dava acabamento ao desenho, Laura entrou no quarto e sentou-se ao seu lado na escrivaninha. Ela acompanhou a evolução de seus traços por alguns minutos, sem nada dizer. Enquanto isso, Ângelo tentava encontrar alguma explicação para sua imitação de uma tatuagem que não deveria ter visto.
- A aranha é uma criatura fascinante, não acha? – Perguntou ela de repente. Sem esperar resposta continuou: - É um predador implacável e voraz. Suas teias são verdadeiras obras de arte, apesar de serem também armadilhas mortais. Você sabia que a teia dela é uma espécie de seda?
- Não. – Respondeu Ângelo indeciso, sem saber onde ela queria chegar. Em seu íntimo, maldizia-se por não ter escondido o desenho antes de Laura entrar no quarto.
- O que mais me fascina nas aranhas é a relação entre o macho e a fêmea. – ela disse com um estranho timbre metálico na voz.
Ângelo desviou o olhar do desenho e olhou para ela. Estava fascinado com sua expressão. Parecia um predador à espreita.
- Você sabia que a fêmea devora o macho, logo após o ato sexual?
Ângelo gaguejou algo incompreensível em resposta, ao ser surpreendido a olhá-la embevecido. Perturbado, forçou-se a se concentrar novamente no desenho.
- Após a cópula, o macho tenta escapar, mas ela o agarra com suas mandíbulas e suga os seus fluídos vitais. – Ela completou num sussurro, como se falasse para si mesma.
- Isso é nojento! – Retrucou o garoto, chocado.
Ela riu, mas não lhe deu trégua.
- As mulheres poderiam ser como as aranhas e devorar seus machos. Isso resolveria um monte de problemas.
De repente Laura se deu conta de que estava indo longe demais em questões que Ângelo não compreenderia e lhe sorriu com carinho. A referência aos hábitos gastronômicos pós-coito das aranhas fêmeas eram direcionadas a um homem em particular, não era para ele.
- Não se preocupe. – Disse, e acariciou seus cabelos. – Eu estava falando em sentido figurado.
Laura pegou seu desenho e o analisa com expressão crítica.
- Está muito bom... Você tem talento. – Comentou.
- Não é tão bonito quanto sua tatuagem. – Mal pronunciara a frase, ele percebeu que havia se traído.
- Eu já tinha percebido certa semelhança, mas achei que era só coincidência. Agora vejo que você andou pesquisando referências onde não devia. Como você sabe dessa tatuagem? Eu não mostrei para ninguém.
Pela sua expressão era difícil o garoto saber se ela estava realmente zangada.
-Eu vi uma noite, quando você se mexeu e deslocou o lençol que lhe cobria.
- E o que você estava fazendo no quarto? – Ela perguntou implacável.
- Estava passando pela porta quando isso aconteceu. – Respondeu Ângelo, sem muita convicção.
- Ah! Então, sem querer, olhou para dentro do quarto, como fez seu pai, não é? Parece que você também gosta de andar pela casa no meio da noite.
Então ela sabia! O velho fauno lhe pareceu ainda mais patético e, em seu íntimo, se solidarizou com ele.
- Você viu minha tatuagem ontem, não é? Por isso acordou atrapalhado daquele jeito, não foi?
O garoto podia perceber uma leve contração nos cantos daquela boca que tanto o fascinava. Ela estava realmente zangada.
- S-sim. – Gaguejou. – Desculpe-me. Eu não queria... – Ele desistiu de falar, ao sentir o rubor a lhe queimar as faces.
- Não se desculpe garoto. – Você cometeu uma indiscrição. – Ela disse, aproximando-se dele. Ângelo baixou os olhos e encontrou seu decote. Atrapalhado, ele desviou o olhar para o lado. Com um ligeiro sorriso ela lhe deu uma ligeira pancada no queixo.
- Você merece um castigo, seu menino safado.
Ele respirou com alívio, diante da possibilidade de ter sido perdoado.
- Faço o que você quiser.
- Agora não. Seu castigo será à noite, aqui no quarto. – Ela disse de modo misterioso, enquanto saía do quarto.
Aquilo lhe deixava o que pensar. Ângelo sentiu que passaria o resto do dia tentando decifrar o significado oculto nas palavras de Laura. Ela tinha mais que o dobro de sua idade e, por consequência, mais tempo de “vadiagem”, como ele se referia à experiência de vida. Não era justo querer bancar a esfinge com ele. Talvez o castigo fosse ficar o dia inteiro atormentado em descobrir o significado de suas palavras. No fim ela riria dele e o faria sentir-se um tolo, como seu pai às vezes parecia. Ele não deixaria isso acontecer e deu de ombros, disposto a esquecer-se daquele assunto. Nesse no momento ouviu seu nome num berro vindo da cozinha. Era sua mãe chamando.
- Ângelo, meu filho! Venha ajudar-me a pôr a mesa.
Isso ele compreendia. Sua mãe era bem mais fácil de entender do que o restante das mulheres do mundo.
Durante o almoço Laura manteve-se distante dele. Embora mantivesse uma atitude naturalmente cortês, a única pessoa que parecia realmente atrair sua atenção era a mãe dele, cuja loquacidade sempre parecia dominar a todos durante as refeições.
O pai ostentava o costumeiro olhar taciturno, firmemente concentrado no prato à sua frente. Ele parecia satisfeito em não ser o alvo da tagarelice da mulher e, assim, ficar a sós com seus pensamentos. De certo modo, o garoto partilhava daquele sentimento. Ele parecia compreender a necessidade de se estar só em alguns momentos, sem a interferência invasiva da mãe. Então, assim que pôde, escapuliu para o quarto. Graças a Laura, ele tinha bastante leitura para aquela tarde, cujo programa era ler e dormir, não necessariamente nessa ordem.
Entretanto, estava escrito que o resto do dia não seria exatamente do modo como ele havia planejado. Por volta das 14h, Ângelo recebeu uma visita inesperada, anunciada por sua mãe de modo surpreendentemente discreto.
- Ângelo? Você tem visita. – Ela disse, depois de bater levemente na porta.
- Visita? Quem?
- Uma mocinha. Tão bonitinha... Ela disse que estuda com você.
- Ela disse o nome?
- Disse, é claro! O nome dela é Letícia. Agora vai de uma vez, que a menina está esperando.
O garoto não podia acreditar que Letícia estivesse ali, na sua casa. Laura havia perturbado tanto seu pequeno mundo, que ele havia se esquecido dela. A empolgação durou só até ele se lembrar do vexame que deu no último dia de aula. Não ia conseguir olhá-la nos olhos.
- Diz que eu tive uma recaída e tô dormindo.
- Tá é nada! Vai já prá sala receber sua vista. – Retrucou a mãe naquele tom que ele conhecia e que não admitia contestação.
Sem opção, Ângelo arrastou-se para a sala a contragosto. Em certas ocasiões ele sabia que não adiantava tentar adiar o inevitável. Se tivesse que enfrentar outra situação constrangedora, que fosse ali, na sua casa. Ele entrou na sala suando frio. Letícia não o viu de imediato, entretida em admirar um dos quadros pintados por sua mãe. Ela estava usando um gracioso vestido de alcinha, com estampas florais. A luz vinda da janela emoldurava seus cabelos castanhos e lhe conferia um brilho, cujo efeito era encantador. Às vezes ele gostaria
que ela não fosse tão perturbadoramente linda. Seria mais fácil para ele. De repente Letícia percebe sua presença e se vira sorrindo.
- Oi. – Ele conseguiu dizer.
- Oi. – Ela respondeu timidamente. – Falaram na escola que você estava doente.
- Tive uma gripe muito forte, mas já passou.
Letícia parecia tão atrapalhada quanto ele. A constatação disso o fez descontrair-se um pouco, mas a lembrança dos acontecimentos no último dia de aula ainda o travava.
-Você sumiu desde terça-feira. Eu... Isto é, nós ficamos preocupados. Pensamos que fosse por causa daquela brincadeira do Gino. – Ela disse de um fôlego só.
- Nem me lembra disso. Aquele miserável ainda me paga.
Ela sorriu já segura de si.
- Esquece isso. Não tão ruim assim, não é? Pelo menos eu fiquei sabendo.
- Ficou sabendo? De repente ele ficou em guarda de novo.
- Ora!... Você sabe. – Ela disse. Era sua vez de retrair-se.
Ângelo percebeu seu embaraço, mas não facilitou nada. Sabia do que ela estava falando, é claro. Mas não tinha certeza de que sabia onde ela queria chegar com aquela conversa.
- Eu não sei de nada. Quer me dizer?
- Não sei se devo.
- Se você não diz, como é que vou saber?
- Você sabe, sim. Mas prefere ficar aí, se fingindo de morto. – Ela respondeu exasperada.
Ele sabia que ela tinha um temperamento forte e temeu que fosse embora. Sentia-se estúpido, mas como poderia falar daquilo? Felizmente ela condescendeu e veio em seu socorro.
- Eu falo, mas você tem que me prometer que não vai falar para ninguém, nem pensar mal de mim. Mulheres não falam dessas... Coisas.
- Tá, eu prometo. Agora fala.
- Eu gostei de saber que provoquei aquilo... – Ela engoliu em seco e ficou vermelha. Você sabe... O seu... Pinto. Ele ficou bem animado, né? Foi mesmo por minha causa?
- Foi. – Ele disse e sentou-se rapidamente no sofá. Não ia passar vergonha de novo, mesmo que ela gostasse disso. – Eu...
Ela riu com gosto, ao perceber o quê acontecia.
- Você tava espiando meus peitos, não tava?
- Tava.
Ela riu de novo e se aproximou dele.
- Eu ia perguntar se você queria vê-los de novo, mas acho que nem precisa né?
Antes que ele pudesse responder, Laura entrou na sala e sua presença age como uma ducha fria no clima que se armava entre os dois. Ela segurava o vestido com as mãos, ainda aberto nas costas.
- Ângelo, puxa o zíper para mim, por favor.
Ele se apressa em atendê-la, mas intimamente lamenta a intromissão. Letícia acompanha tudo com o cenho franzido.
- Obrigada, querido. Tenho que voltar para o trabalho, mas à noite continuaremos aquela conversa. Não esqueça.
- Tá bem. – Ele respondeu a contragosto.
Laura olhou ligeiramente para Letícia e saiu da sala, mas deixou atrás de si o perfume que costumava usar quando saía para o trabalho.
- Quem é a dona? – Perguntou Letícia.
- Minha tia. – Respondeu Ângelo taciturno. Havia se esquecido da conversa que teria com Laura à noite.
- Tia? Ela parecia mais uma aranha ao convidar a mosca para jantar. – Disse a garota, sem evitar o sarcasmo. – É melhor eu ir embora. Tá ficando tarde e eu preciso ajudar minha mãe na faxina de casa.
- Já? Fique mais um pouco.
- Não posso. Prometi à minha mãe que voltava logo.
- Puxa! – Ele exclamou desolado.
Ela sorriu e passou a mão no seu rosto.
- Nossa conversa terminou. – Disse cheia de malícia. – Espero que você queira continuar.
Foi a vez dele sorrir. Tanto tempo para criar coragem e se declarar e, no fim, ela tomou a iniciativa. Sentia-se um banana, mas era um banana feliz.
- Podia ser hoje à noite né?
- Não podia não. Meu pai ainda não me deixa namorar. A gente se vê amanhã, na praça.
- Na praça? Lá não vai dar para a gente continuar aquela conversa.
Ela riu de novo. Somente dessa vez ele reparou nas covinhas em seu rosto quando ela ria e um nó se formou em sua garganta.
- Até amanhã. – Ela disse, sem falar do que ele gostaria de escutar.
- Até.
Ângelo ficou só e pensou que teria muito a aprender sobre as mulheres. Aquela tarde seria de longa permanência no banheiro. Só não sabia qual das duas estaria em seus devaneios sacanas, mas para quê escolher?
Laura não voltou cedo nesse dia, mas Ângelo só percebeu que ela não estava na hora do jantar. Sua ausência causou certo desconforto. Para sua mãe havia a perda de uma ouvinte atenciosa, mas para o velho fauno ele não conseguia determinar exatamente o que isso acarretava, mas percebia seus olhares disfarçados para a porta.
- Laura não virá para o jantar hoje. Foi encontrar-se com o ex-marido.
Aquela notícia não era exatamente o que ele gostaria de ouvir, mas já sabia que a passagem dela em sua casa seria por pouco tempo. Contudo, também imaginou que aquela tal “conversa” não aconteceria. Olhou para o seu pai e viu em seu rosto uma ligeira expressão de desagrado, talvez uma mágoa por sonhos desfeitos. Naquele momento ele sentiu pena do velho fauno.
Depois do jantar acomodou-se no velho sofá já com tudo o que precisava para dormir. Não esperava que Laura retornasse naquela noite, mas não queria ser acordado, se ela viesse para dormir em casa. Três horas depois, ele acordou com o som da TV ainda ligada. As luzes da casa estavam apagadas, mas uma claridade no corredor indicava que a luz do seu quarto estava acessa. Laura havia voltado.
Minutos depois ele ouviu o som de passos se aproximando do sofá onde ele estava deitado.
- Levanta Ângelo. Eu sei que você está acordado. Tá na hora de nossa conversinha lembra-se? – Disse ela num sussurro.
Sem alternativa, Ângelo abriu os olhos e olhou para ela.
- Venha. – Ela disse, puxando-o do sofá. Ainda segurando em suas mãos ela o conduziu para o quarto e lhe entregou uma caneta. – Pegue.
Ele pegou a caneta e ficou olhando para ela sem entender.
- Quero que você me faça outra tatuagem.
Aquilo era o castigo? Ângelo não conseguiu entender.
- Onde? – Conseguiu perguntar, surpreso por não gaguejar.
- Aqui! – Ela disse, e puxou a alça da camisola para desnudar os seios.
O garoto fitou aquele monumento sem acreditar no que via. Começava a entender o sentido do castigo. Cautelosamente ele a tocou. Sentiu a pele macia e aveludada na ponta dos dedos, mas não se atreveu a tocar nos mamilos intumescidos.
- Se você não parar de tremer vai borrar tudo.
- Desculpe.
- Fique calmo. Agora desenhe algo que signifique liberdade.
- Uma borboleta? – Ele sugeriu timidamente.
- Uma borboleta? – Gostei! Desenhe-me uma borboleta, então. – Ela disse, deitando-se na cama de costas.
Ele pegou a caneta esferográfica e iniciou o esboço de uma borboleta pousando graciosamente sobre o bico do seio. Laura fechou os olhos e ergueu os braços, passando-os por baixo do travesseiro. O movimento a deixou mais próxima do rosto de Ângelo e ela sentiu sua respiração ofegante em sua pele arrepiada.
- Não pare. – Gemeu baixinho. – Isso é bom.
Ele fez um esforço para manter-se concentrado e continuou a desenhar. Cada traço da caneta provocou nela um nos estremecimento e novos gemidos mal contidos. Terminado o desenho, ele pôs-se a retocá-lo, desejando prolongar aquele momento o máximo possível, mas a posição era difícil e lhe causava câimbras. Com um gemido, ele mudou de posição. Laura abriu os olhos e lhe sorriu languidamente.
- Terminou?
- Sim, mas acho que não ficou bom.
- Deixe-ver.
Ela arqueou o corpo esguio e levantou-se, espreguiçando-se como uma gata sonolenta. Fascinado, Ângelo não consegui desviar os olhos dos seios dela, que apontavam imponentes para o espelho.
- Está ótimo. Eu disse que você tinha talento.
Ela ajeitou a camisola, sorriu e afagou-lhe os cabelos.
- Agora vá dormir. – Disse-lhe com um olhar significativo. – Esse é o seu castigo. Esta noite você terá dificuldade para dormir. Apague a luz quando sair, por favor.
Se ele ficou desapontado, fez o possível para não deixar transparecer. Embora fosse ainda um garoto, não a deixaria levar a melhor. Arrancou-lhe o lençol e a puxou para si.
- O que pensa que está fazendo? – Ela perguntou ofegante.
Ele a puxou ainda mais e a beijou com brutalidade. A mulher o olhou demoradamente, espantada com a sua ousadia.
- De Anjo você não tem nada, menino. – Falou com voz rouca, e enlaçou-lhe o pescoço.
O garoto se desvencilhou e virou-lhe as costas. Apesar de querer muito, aquela noite ainda não seria a sua vez de provar do gosto da mulher aranha. Todavia, isso ainda aconteceria, mas nos seus próprios termos. Sem dizer nada, ele apagou a luz e saiu do quarto.
Já na sala, Ângelo jogou-se no velho sofá e tentou dormir. Algum tempo depois, ainda se mexia e se revirava em busca de uma posição mais cômoda, mas o esforço parecia inútil e apenas resultava em rangidos de protestos da armação de madeira, como se estive a lamentar por ele a noite perdida.
Os minutos foram passando e ele perdeu a conta de quantas ovelhas contou, antes que cada uma se transformasse em Laura e desaparecesse rindo, por entre as brumas de um sono que não vinha. O garoto já pensava em calcular raiz quadrada mentalmente, quando a luz do quarto se acendeu. Saber que ela também não dormia lhe deu alguma satisfação. O ruído de passos se aproximando o deixou curioso, mas decidiu fingir que dormia.
Ela sentou-se no chão e encostou a cabeça em suas coxas. Levantou sua camiseta e acariciou seu ventre com as unhas. Ângelo não conseguiu controlar o arrepio e os pelos ainda ralos do seu abdômen se eriçaram. Ele tentou se mexer, mas ela o impediu com uma leve pressão e deslizou a mão para dentro do calção de pijama dele e o tocou levemente, antes de abrir-lhe a braguilha.
Ângelo deixou escapar um gemido abafado quando ela manuseou seu pênis, antes de puxá-lo para sua boca. Sem pressa, ela o envolveu com seus lábios e o pressionou com a língua, antes de iniciar um movimento de vai e vem cadenciado e firme. Em nenhuma de suas
solitárias fantasias ele havia imaginado algo semelhante, apesar do acervo de revistas de sacanagem que possuía.
Ele percebeu que o gozo já vinha e tentou afastá-la, mas ela acelerou os movimentos e segurou seus quadris com firmeza. A onda de prazer veio forte e o sêmen jorrou incontrolável, mas Laura não deixou que nada se perdesse e sorveu o líquido com sofreguidão.
Ainda arquejante, ele tentou olhar para ela, mas Laura levantou-se e, sem dizer nada, voltou para o quarto. Ângelo ficou ainda algum tempo tentando decifrar o que lhe acontecera, mas o pragmatismo juvenil e o cansaço o fizeram desistir de entender. Dessa vez não precisou das ovelhas.
No dia seguinte, quando sua mãe o chamou, Ângelo soube que Laura havia ido embora. Tinha se reconciliado com o marido. Por algum motivo ele não se surpreendeu com aquilo. Na verdade, pensou que compreendia naquele momento o que havia acontecido à noite. Não tinha sido um castigo, mas uma despedida. Entretanto, intimamente lamentou que tudo tivesse sido tão breve.
- Ela lhe deixou isso aqui para você. – Disse-lhe a mãe estendendo-lhe um cartão. – É o endereço dela. Disse que é para o caso de você desejar continuar suas lições. Não sabia que Laura o estava ajudando com os estudos.
- Hã? E-estava, sim.
- Que bom. Então você pode visitá-la de vez em quando e me trazer notícias dela.
Ele já não ouvia o que a mãe lhe falava, entretido que estava em imaginar as próximas lições que receberia de Laura.

Nota do autor. Este conto é um pouco mais longo dos que habitualmente publico neste blog. Foi escrito há muito tempo atrás. Encontrei os originais datilografados em páginas amareladas pelo tempo, dentro de uma caixa de papelão que guarda minhas primeiras tentativas, feitas ainda numa velha máquina de escrever Olivetti. Postarei continuações conforme for revisando o texto, e espero que sua leitura seja do agrado das pessoas que costumam visitar minha página.

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