Sunday, September 28, 2014

Os Lobos



Ele ouviu seus passos bem antes de ela se aproximar. Eram passos leves e apressados, de alguém que continha o impulso de correr a muito custo. Ela estava com medo, mas parecia não querer admitir isso para si mesma. Sua pulsação levemente acelerada indicava que seus sentidos estavam alerta, embora ainda não tivesse se dado conta da presença dele tão próxima de si.
Confiante, ele a deixou passar sem se fazer notar. Apenas aspirou seu odor e conteve, por sua vez, um suspiro de satisfação. Ela estava pronta, como lhe tinha sido prometido. O cheiro corporal que a fêmea exalava não indicava apenas o receio que sentia por transitar naquele caminho desolado. Havia uma nota de excitação, ele percebia. Era como se ela já esperasse ser encontrada. Se ela tinha consciência de tudo isso ele não saberia dizer. Talvez seus instintos já contivessem o roteiro que era de seu destino cumprir. Essa era uma questão que não lhe importava, todavia. Tinha sua própria natureza a guiar seus passos no cumprimento da sina que lhe cabia e que, por sua vez, cruzaria a linha do destino dela em algum momento, uma vez que esse era o fado que ambos carregavam.
Ela pensou ter ouvido ruído, mas não conseguiu identificar o que seria. Nem mesmo tinha a certeza de tê-lo realmente escutado, pois seus sentidos estavam todos tão excitados que poderiam facilmente levá-la ao engano e imaginar coisas. O fato é que estava realmente assustada ao percorrer aquele caminho totalmente só. Cada sombra que via, cada arbusto que se remexia e rangia, parecia anunciar uma ameaça preste a se concretizar.
Para afastar o medo que sentia, ela começou a recitar antigos poemas aprendidos na infância, como se o som da própria voz tivesse o dom de exorcizar as ameaças que poderiam cruzar seu caminho. Entretanto, como se o destino estivesse a caçoar de seus temores, o casaco que usava prendeu-se num arbusto e ela soltou um grito abafado.
Passado o susto, ela percebeu aborrecida que havia rasgado a ponta do casaco, que se enroscara no arbusto. Ficou imaginando a bronca que levaria de sua mãe pelo descuido. O casaco tinha sido um presente de sua avó, e ela o tinha adorado desde que o vira. Tinha um lindo capuz e sua cor vermelha contrastava com os seus longos cabelos escuros, negros como a noite que havia chegado tão rapidamente.
Depois de ajeitar novamente o capuz na cabeça, ela segurou a cesta que trazia e apressou o passo. Ainda tinha um longo caminho a percorrer até chegar à casa de sua avó. Ainda não entendia o porquê de sua mãe insistir para que percorresse aquela trilha sozinha, quando seria certo que a noite a alcançaria antes de chegar ao seu destino. Certas atitudes dos adultos pareciam teimar em manterem-se afastadas de sua compreensão, mas ela intuía que havia algo mais naquela história de “levar doces para a vovozinha”. Se sua mãe estava tão preocupada com a vovó, por que diabos deixava a velhinha solitária naquela cabana no meio da floresta? Por algum motivo desconfiava que estivesse próxima de descobrir a razão disso, mas não saberia dizer se estava com medo. Em meio ao possível temor pelo desconhecido havia uma excitação que ela também não compreendia, e que parecia ter a origem em sua própria natureza. Aquela pequena jornada até a cabana da sua avó, no recôndito da floresta, parecia ter algo a ver com a busca e a compreensão de si mesma. Contudo, a percepção disso não lhe garantia que gostaria do que viesse a descobrir.
O estalo do galho seco ecoou na noite de forma tão nítida que ela não poderia deixar de perceber. Estaria sendo seguida ou o ruído foi inadvertidamente provocado por alguma criatura da floresta? O fato de haver criaturas ocultas na escuridão da noite não era de modo algum tranquilizador, mas preferia pensar que fosse apenas um animal inofensivo incomodado com a presença dela. Todavia, nem sempre o que desejamos é o que efetivamente acontece. Ela o viu quando olhou para trás mais uma vez.
Era um lobo enorme, como nunca tinha visto antes. Sua pelagem cinza conseguia contrastar com a escuridão. Ela apressou-se e rogou aos deuses antigos que o animal não estivesse caçando. Os lobos, normalmente, preferem evitar encontros com humanos, a menos que já tivessem adquirido certos hábitos gastronômicos, o que também não era incomum naquela região.
Ela não olhou mais para trás, mas percebia sua aproximação. Talvez se ignorasse sua presença, ele seguisse em frente. Era uma esperança idiota, ela sabia. Então, sem conseguir se controlar, pôs-se a correr quando ouviu um rosnado. Apavorada, ela tropeçou e caiu de bruços na relva molhada do sereno. Já não havia mais tempo para os deuses atenderem seu clamor. Tudo o que podia fazer era se deixar levar pelo trágico destino que se anunciava.
O lobo se aproximou. Ela não se mexia e, por um segundo, ele temeu que  tivesse se ferido na queda. Não a queria, de modo algum, machucada. Todavia, logo a fera se tranquilizou. Seus sentidos lhe diziam que a menina estava apenas assustada.
Contendo sua própria excitação, o animal a farejou com mais vagar, desejando prolongar aquele momento. Tocou suas coxas com o focinho úmido e ela estremeceu ao sentir o contato dele em sua pele. Era esse o momento pelo qual tanto ansiava, quando seus instintos finalmente se comunicariam.
Quando ela percebeu que ele a tocava, sentiu-se desfalecer por um breve momento. Um arrepio percorreu seu corpo carregado de sensações que não poderia descrever. O medo cedia lugar a uma excitação tão intensa quanto desconhecida e ela queria mais. Ansiosa, esperou que ele a tocasse novamente. Mas ele se afastou, para sua consternação.
Depois de um momento, ela se virou e olhou para ele. O Lobo estava sentado a alguns metros dela e a contemplava de um modo que lhe parecia insuportavelmente distante. Ela enfrentou seu olhar, como se ambos estivessem a medir forças. Aquele instante pareceu durar uma eternidade, até que o lobo, aparentemente cansado daquele jogo, desapareceu na mata que margeava a trilha.
Ela suspirou profundamente. Passada a excitação, tentou entender o que tinha acontecido. Embora fosse jovem e inexperiente, sua própria reação diante da fera selvagem não lhe parecia algo que poderia considerar dentro dos padrões que lhe haviam sido incutidos como normais. Todavia, tinha argúcia suficiente para considerar aquela pequena jornada na floresta como algo totalmente além de qualquer parâmetro de “normalidade”. Já lhe era natural sentir que aquele encontro estranho era permeado de segredos e significados, para os quais ainda não tinha uma compreensão plena, mas intuía que sua querida vozinha tinha as respostas que desejava. Então se levantou, ajeitou o capuz de seu casaco na cabeça e pegou a cesta de doces. Resoluta, seguiu pela trilha em passos rápidos e decididos.
Em meio a um trecho especialmente denso da floresta, o lobo cortava caminho e se aproximava rapidamente da cabana. Ele ainda ansiava por ela, mas tinha um ritual a cumprir antes do derradeiro encontro.
Ele chegou junto com a noite à clareira. Olhou para a silhueta da cabana recortada na escuridão pelo brilho da lua cheia, e buscou na memória as lembranças que aquela visão lhe evocava. Muitas estações haviam se passado, desde a última vez que estivera com a mulher. Ela deveria estar velha e gasta, pensou. O tempo não costumava ser complacente, e era especialmente cruel com alguém que já trilhara um longa jornada.
Há muito, ela já deveria ter ido ao encontro de seus ancestrais. Contudo, eventos inesperados a retiveram neste plano por mais tempo. Sua sucessora havia se rebelado e se negara a cumprir o destino que lhe cabia na tradição do clã. Com a habilidade e a sabedoria que jamais desconfiara possuir, a mulher dedicou-se a minimizar as consequências advindas da rebeldia de sua jovem sucessora.
Anos se passaram, até que a jovem pudesse ceder sua descendência para honrar o papel que lhe cabia na tradição do clã. Foi um longo tempo de espera, mas finalmente ela estava preste a chegar. Caberia à sua filha cumprir o papel que repudiara anos atrás.
Ele estava ansioso, mas conteve-se para não perturbar as linhas do destino. O tempo tinha seu próprio ritmo para desenrolar os acontecimentos e, até mesmo ele, tinha que se submeter. Depois de contemplar a lua, que flutuava no horizonte atrás da cabana, ele ergueu-se e caminhou para a porta. Caminhar ereto era algo que não praticava amiúde, mas a sensação era boa. Talvez devesse mudar seus hábitos dali por diante.
A batida na porta fez a mulher estremecer. Ela o esperava, mas não conseguiu evitar o tremor nas pernas e a contração desconfortável na boca do estômago. Muito tempo havia se passado desde a última vez, ela pensou. Muito tempo acalentando a expectativa daquele reencontro, embora ele servisse apenas para marcar sua despedida. Será que ele ainda a acharia atraente? Sabia que estava sendo tola, mas tinha uma esperança vaga de que nada havia mudado naqueles anos todos de ausência.
Ela deu um passo em direção à porta e parou. Agora que estava na iminência de revê-lo, sentiu o medo apossar-se de sua alma. Isso era bobagem, é claro. Ele não estava ali por causa dela. O som da batida soou novamente. Desta vez com uma nota de impaciência no ritmo. Ela estremeceu e apressou-se em abrir a porta.
Quando a porta se abriu, um homem totalmente nu a olhava de modo impassível, como se a nudez lhe fosse um estado perfeitamente natural. Para ela também não havia surpresa. Na verdade, a mulher nunca o vira vestido. Pelo menos não quando a visitava na calada da noite, em tempos remotos.
- Entre. – Disse-lhe sem rodeio.
Tentava parecer natural, mas sabia que ele percebia sua pulsação levemente acelerada. Procurou acalmar-se para não lhe dar esse gosto. Não o deixaria saber que o esperava tão ansiosa, embora soubesse que ele não se importaria.
- Eu a vi. – Disse ele com voz soturna. – Está vindo para cá.
A mulher sabia de quem ele estava falando e não sentiu ciúme. Antes, a sensação era de orgulho. A menina havia crescido e vinha ocupar o seu lugar na tradição do clã. Sua filha havia cumprido a palavrada anos atrás. Ela havia oferecido a própria filha, cuja semente já carregava no ventre, para ocupar o seu lugar. Sua neta honraria a tradição e tudo continuaria como sempre fora. Ela poderia então descansar e finalmente encontrar-se com seus ancestrais.
- Não temos muito tempo, então. – Disse a mulher, com uma nota de ansiedade na voz. Ela não sabia bem o que fazer. Preparara-se para aquele momento, mas de repente tudo lhe parecia estranho e sem sentido. Voltou-se para a mesa e olhou o odre com o vinho que pretendia servi-lhe.
- Sim. – Ele disse seguindo seu olhar. – Um copo de vinho seria bom.
Ela o serviu e depois encheu outro copo para si mesma. Afinal, aquela noite era de celebração. Estendeu o copo para ele e suas mãos se tocaram levemente. Foi o bastante.
Ele bebeu o vinho lentamente, sem deixar de olhá-la. Sem saber o que fazer ela bebeu o vinho com sofreguidão, quando sentiu-se erguida. O homem a puxou de encontro a si e lhe sorriu, deixando-a desconcertada. Aquilo não deveria acontecer, mas ela também o desejava.
- Uma última vez. – Disse com a voz rouca.
- Uma última vez. – Ele repetiu, quando arrancou suas roupas com sofreguidão.
- Espere.
Ele a olhou sem entender.
- Quero que seja como da primeira vez, quando você me tomou.
Ela se abaixou e ficou de quatro, enquanto se metamorfoseava. Era novamente uma fêmea no cio.
Ele compreendeu o que ela queria e iniciou sua transformação.

Não muito longe dali, ainda na trilha da floresta, a menina ouviu o longo uivo e apressou o passo.
A garota ouviu novamente o uivo e teve a impressão que o som vinha da direção da cabana da avó. Prendeu o capuz vermelho com os laços ao redor do pescoço e seguiu pela trilha quase correndo. Felizmente era noite de lua cheia e podia se orientar com facilidade. 
Enquanto avançava pelo caminho sombrio, continuava a ouvir aquele som lúgubre. Todavia, o uivo não parecia um lamento ou uma saudação à lua cheia. De cada vez que ela o ouvia, tinha a impressão que era mais uma celebração e lamentou a distância que ainda a separava da cabana. Imaginou, então, se não estaria ficando insana, por desejar juntar-se ao lobo que uivava para a noite enluarada.

No outro lado da floresta, um caçador apurava a audição. Ele também havia ouvido a sequência de uivos e parou para determinar sua origem.  Não demorou muito para precisar de onde o som vinha, e o que tinha naquela direção.
Ele lembrou-se da cabana. Já havia estado lá numa época distante, quando ainda era jovem. Foi numa ocasião em que rastreava um grande lobo cinzento e encontrara a mulher na trilha. Lembrava bem dela e sua expressão sombria. Naquela ocasião, ela o olhava como se poderia olhar para um invasor e vigiava atentamente seus movimentos.
Embora estivesse diante de uma mulher, o caçador percebeu que não era bem vindo e não perdeu tempo em questionar a razão de sua presença ali. Ele já sabia de sua existência, embora nunca a tivesse visto antes. A mulher era uma lenda, e tema frequente nas conversas de camponeses e caçadores ao redor da fogueira. Era a mulher lobo, diziam, ao mesmo tempo em que faziam o sinal da cruz, antes de mudarem de assunto e se refugiarem num silêncio obstinado.
Ficaram se olhando e se medindo por algum tempo. De repente ele se esqueceu do lobo que seguia e já não sabia o que estava fazendo ali. Como se percebesse sua hesitação, a mulher   sorriu. Era um riso cativante, que teve o dom de tranquiliza-lo. Aparentemente, ela o havia aceito em seus domínios.
Num gesto estudado, a mulher lhe estendeu um pequeno odre e o convidou a beber. Em algum canto de sua mente, ele pensou que não deveria beber aquilo, mas era um canto distante. Nada verdade, desejava ansiosamente fazer o que ela queria e ver novamente o seu belo sorriso. Então, subitamente tudo escureceu à sua volta.
Ele acordou horas depois, já no interior da cabana. Estava deitado de costas num catre e seu primeiro pensamento foi para indagar-se de como havia chegado ali. Era um homem corpulento e pesado demais para que uma mulher conseguisse carrega-lo sozinha. Todavia, não conseguiu concentrar-se muito tempo em especulações. Ainda estava tonto e seus olhos teimavam em fechar-se, apesar do esforço que fazia para mantê-los abertos.
Dessa vez, o tempo em que permaneceu desacordado foi curto. Assim que recobrou a consciência, ele ouviu o ruído de água sendo despejada. Ainda com certo esforço, ele girou a cabeça em direção ao som e viu a mulher enchendo o que parecia ser uma grande bacia.
Sem se voltar, a mulher despiu-se e entrou na bacia. Sua pele molhada refletia a luz bruxuleante do lampião e lhe dava um aspecto sobrenatural e irresistivelmente belo. Ela não tinha pressa em banhar-se e ele percebeu que o fazia para si.
Naquela ocasião, ele era jovem e inexperiente. O apelo dos sentidos era forte o bastante para não pensar na razão da mulher para fazer aquilo. Bastava-lhe saber que ela o queria. Isso era tudo o que precisava saber.Ela, por sua vez, tinha realmente suas próprias razões para querê-lo. Estava em período fértil e desejava ser fecundada, para garantir a continuação de sua linhagem. Sua natureza compreendia essa necessidade e preparava-lhe o corpo para os rituais de sedução que culminariam no acasalamento. Isso se manifestava em ondas de desejo cada vez mais intensas, que logo se tornariam impossíveis de serem contidas.
O homem ainda apreciava sua nudez magnífica, quando ela se voltou e o encarou. Ambos sabiam que era o momento. A mulher levantou-se e caminhou em sua direção.
Sem esperar que ele se despisse completamente, ela acomodou-se sobre si e o cavalgou com sofreguidão e urgência. O homem sentia que ela o apertava em suas entranhas, como se quisesse suga-lo todo para dentro de si. De repente ela soltou um longo gemido e parou. Ainda ofegante, deitou-se de costas ao seu lado.Ele sentiu-se contrariado, até perceber que a mulher ainda o queria. Era sua vez de tomar a iniciativa. Afastou suas pernas e subiu sobre ela para penetrar-lhe com a mesma avidez. Em cada estocada sentia que ela o recebia cada vez mais fundo, até que o gozo irrompeu e ele soltou um longo gemido.
Momentos depois, ainda exausto e ofegante, ele tentou levantar-se, mas ela cruzou as pernas em suas costas e não permitiu. Assim ficaram, até que o cansaço o fez adormecer ainda dentro dela.
O dia já havia amanhecido, quando o homem abriu os olhos e viu que a mulher já não estava ao seu lado. Sem se importar, ele levantou-se para recompor suas vestes. Foi somente quando se virou em busca de suas botas que ele o viu.
O lobo que ele seguia estava à sua frente e o olhava com aparente indiferença, embora acompanhasse atentamente seus movimentos. De maneira dissimulada, o homem pôs a mão em sua adaga. Foi nesse momento preciso que a mulher o derrubou, com a pancada certeira de um pesado cajado.
Horas depois, quando ele acordou, já não estava na cabana. A cabeça ainda latejava e a dor o fez lembrar-se do ocorrido. Não tinha visto quem o derrubara, mas intuiu acertadamente que havia sido a mulher e desejou esganá-la por isso. Contudo, esse desejo jamais foi satisfeito, pois não conseguiu lembrar-se da trilha que levava à cabana.

Agora, quase quarenta anos depois daquela noite, o uivo do lobo o fez lembrar-se de tudo com clareza e, sem hesitar, ele encontrou a trilha que o levaria até a cabana. Caminhou pensando se a cabana ainda existiria. Provavelmente a mulher já havia morrido há muito tempo, mas parecia haver lobos naquele lugar e ele ainda era um caçador.

Mas a mulher ainda existia. Entretanto, seu tempo e seu propósito de existência neste plano se extinguiram naquele último momento de prazer. Ela se desfez numa nuvem brilhante de ectoplasma, que logo se dispersou, sob o olhar do lobo. Uma jornada havia se cumprido e ele sentia que a sua estava próxima de findar.


A garota chegou diante da cabana cerca de meia hora depois de ter ouvido o último uivo. O lugar parecia silencioso e desolado, mas isso não a surpreendeu. A mãe já lhe prevenira de algumas excentricidades de sua vó e ela sabia que o silêncio e a solidão lhe eram caros. Todavia, algo lhe dizia que nem tudo estava como deveria ser. Havia uma incongruência qualquer que ela não conseguia identificar na serenidade aparente daquela visão. Tinha alguma coisa que não se encaixava naquilo tudo e, instintivamente, se pôs em estado de alerta.

Com o coração acelerado, ela conteve a respiração e tocou a porta. Estava destrancada e cedeu à pressão de sua mão com um leve rangido. À luz tremulante de uma vela pouco revelou do interior da cabana. Tudo parecia do mesmo jeito que se lembrava, quando ali estivera anos atrás, mas não havia sinal de ninguém no seu interior. Ela entrou e procurou o velho catre com o olhar. Lembrava que sua avó costumava deitar cedo, logo após a noite chegar.

Apesar da penumbra viu que havia alguém deitado no catre. Estava totalmente coberto por uma manta, mas ela podia perceber o movimento compassado de sua respiração.

- Vovó? – Chamou num sussurro.

Ninguém respondeu. Ela se aproximou e tocou o vulto encoberto, antes de chamar novamente. Em resposta, ouviu o que parecia ser um rosnado.
Assustada, a garota recuou, mas não se afastou totalmente. Estava intrigada e pensou, por um momento, que sua avó estivesse com pigarro ou talvez tivesse roncado. Estaria ela acometida de alguma enfermidade?
Contendo o próprio medo que já se insinuava, ela levantou uma ponta da manta. Um par de olhos brilhou à luz da vela e uma boca enorme e cheia de dentes se abriu num rosnado.
- Meu Deus! – Exclamou, ao mesmo tempo em que recuava apavorada.
Com o coração aos saltos, ela se virou para a porta e empreendeu uma tentativa de fuga, tão rápida quanto permitiam suas pernas. Contudo, quis o destino, ou a sina que carregava, que um banquinho estivesse em seu caminho. Ela tropeçou, girou sobre si e caiu de costas. A queda foi amortecida por um grosso tapete.
A jovem permaneceu consciente e ouviu novamente o rosnado, quando o lobo se aproximou. À meia luz da vela, ela conseguiu perceber que era o mesmo animal que a encontrou antes na floresta. Então a consternação e o medo lhe apertaram o coração, ao imaginar o que poderia ter acontecido à sua querida e estranha avó.
Sem conseguir se mexer, ela sentiu o focinho úmido do lobo tocando suas coxas. Ele a estava farejando, como se apreciasse o cheiro do medo que ela exalava. Seria medo? Em algum canto de sua mente, ela se perguntou se era o medo que percorria suas entranhas, ao sentir os mamilos intumescidos. Talvez a fera estivesse percebendo um outro aroma, cuja origem ela ainda não ousava admitir.
O lobo percorreu suas coxas com o focinho e levantou-lhe a saia. O movimento arrancou-lhe um gemido mal contido. Ela sentia sua a respiração sobre a púbis e desejou que ele a toca-se, mas a fera recuou e colocou-se do seu lado, com a cabeça próxima do seu quadril. O que aquele bicho queria? Ela pensou frustrada e já despojada de qualquer resquício de pudor.
Quando já pensava que poderia levantar-se, o lobo a tocou no quadril e a empurrou levemente. Ela levou alguns segundos para entender, mas percebeu o que ele queria e virou-se de bruços.
A fera puxou-lhe a calcinha e lambeu sua vagina sem nenhuma cerimônia. Ela sentiu esvair-se num gozo prolongado, que parecia não ter fim e que arrancou-lhe um urro de prazer. Já não se sentia humana. Era uma fera no cio, e se perguntou, em algum momento, se tornar-se uma pervertida não era seu destino. Isso já não importava, pois estava refém do desejo insano e incontrolável. Quase por instinto, ela ergueu os quadris para melhor recebe-lo, quando ele se ajeitou para penetrá-la.
A metamorfose começou antes mesmo do orgasmo, mas ela só percebeu depois, quando sentiu que o corpo se apoiava não mais nos joelhos e nos cotovelos, mas em quatro patas. Contudo, a sensação maior veio pelo olfato, quando os odores do sexo invadiram suas narinas de um modo que jamais havia sentido. Ela havia se transformado completamente e, quase de imediato, compreendeu sua verdadeira natureza.

Fora da cabana ouviu-se uma longa sequência de uivos, que ecoaram no silêncio noturno da floresta e alertaram o caçador.Embora não conseguisse reconhecer o caminho que trilhava, ele sentia estar próximo e se orientou com facilidade nas sombras da noite, graças ao som que vinha da cabana. Desta feita, no entanto, ele percebeu que havia nuances e sutis diferenças entre um uivo e outro. Parecia haver dois lobos e não um, como pensara a princípio. Tanto melhor. Haveria dois animais para esfolar e o preço das peles compensaria a longa permanência naquela floresta, sem nenhuma caça que tivesse valido o esforço daquela jornada.
Quase sem perceber, ele checou o rifle e apressou o passo. Por alguma razão, estava ansioso por aquele encontro. Em sua memória havia o fragmento de lembranças de outra ocasião, quando um lobo enorme lhe escapara por interferência da mulher que morava na cabana. Desta vez, ele se certificaria de que nada daria errado.
 O som de passos se aproximando foi percebido bem antes do caçador se deparar com a cabana, mas eles não se mexeram. Não podiam naquele momento. Estavam presos um ao outro até que a natureza os libertasse daquela união. Quedaram-se em silêncio, à espera. Apenas ouviam o som cada vez mais próximo.
Ao chegar à clareira, o caçador viu a cabana. Estava do mesmo jeito que se lembrava quando a viu pela primeira vez. Detalhes de acontecimentos estranhos surgiram em sua memória, junto com a sensação de ter sido enganado anos atrás. A sensação de ter sido usado para algum fim que nunca compreendeu o acometeu de novo. Essa sensação o fazia pensar na mulher e quis encontrá-la mais uma vez. Todavia, não era o desejo sensual que o instigava, mas o desejo de vingar-se pelo que pensava ter sido uma afronta em sua dignidade. A mulher o havia usado e descartado logo depois, com absoluta frieza. Ele lembrou claramente dos detalhes, quando ela o golpeou para salvar o lobo e, depois, o abandonou desacordado na trilha Quando despertou já não lembrava mais como poderia voltar à cabana.
Durante anos ele havia matutado sobre o motivo da mulher ter salvo o lobo. Quem, em sã consciência, defenderia uma fera selvagem, de comportamento imprevisível, e que poderia estraçalhá-lo facilmente? Na época que tais fatos ocorreram, ele não havia se dado conta, mas parecia evidente ter havido uma estranha ligação entre a mulher da cabana e aquele grande lombo cinzento. Entretanto, tais conclusões não lhe valiam de muita coisa agora. Depois de tanto tempo, é possível que a mulher já tivesse morrido. Quanto ao lobo, seu tempo de vida já havia se esgotado naturalmente, se já não tivesse caído antes, diante da arma de algum caçador. De qualquer modo, havia lobos novamente na cabana e ele era um caçador. Isso era tudo o que importava.
Dentro da cabana, o casal de lobos finalmente soltou-se. Ela agachou-se e ficou com o corpo rente ao chão. Estava exausta, não somente pelo intercurso sexual, mas também pela metamorfose. Havia sido sua primeira vez e ficou a imaginar se era possível reverter a transformação, mas estava cansada demais para tentar. De qualquer modo, havia algo mais premente e que requeria sua atenção. O cheiro do homem se tornava mais forte a cada minuto e, provavelmente, isso representava perigo. Ela olhou para o lobo, mas ele estava impassível e nada demonstrava. Então, deu-se conta de que ele não poderia se comunicar daquela forma, como se fosse humano. Lobos não tinham o mesmo arsenal de expressões que os homens possuíam.
Mas se ela havia passado por uma metamorfose, era lógico pensar que ele também poderia fazer isso e reassumir sua condição humana, se não fosse um lobo comum. Assim, ficou na expectativa de ele iniciar sua transformação, mas nada aconteceu. O lobo parecia esperar aquele encontro e isso a consternou. Via na sua atitude um fatalismo que era próprio de criaturas que carregavam um trágico fado do qual não podiam escapar, como se estivessem por cumprir os desígnios de algum demiurgo ensandecido. Ela compreendeu que ele nada faria para evitar o encontro com o homem e caberia a si mesma protegê-los.
A porta rangeu e abriu-se lentamente. O cano de um rifle surgiu antes do homem, com a boca negra apontando diretamente para ela. Da porta, o caçador olhou para eles de um modo frio e calculista. Avaliava suas chances de acertar as duas feras antes que fosse atacado, enquanto se maldizia por ter sido tão imprudente. Tinha diante de si dois exemplares magníficos. Eram enormes e suas peles valeriam uma pequena fortuna no curtume. Todavia, isso de nada lhe valeria se estivesse morto.
Os lobos o olhavam do mesmo modo insolente. Pareciam avaliá-lo também. Isso o surpreendeu. Aquelas criaturas pareciam quase humanas e não estavam intimidadas com a sua aparição. Lobos não se comportavam daquele jeito e, por um momento, ele hesitou. Já não tinha certeza de que realmente queria fazer aquilo e esperou que a mulher surgisse de algum lugar para impedi-lo. Entretanto, a hesitação foi apenas por aquele breve momento, pois já não havia como voltar atrás.
A fêmea se movimentou e ele percebeu que ela ia atacá-lo. Num impulso apontou o rifle para ela e quase lamentou o que ia fazer, mas o macho se interpôs de repente entre eles e o olhou com as presas à mostra. O rosnado em desafio o assustou e ele apertou o gatilho. O rifle cuspiu sua carga de morte e o lobo caiu para trás.
O caçador ainda olhava para o lobo caído, quando a fêmea saltou sobre ele e alcançou sua garganta. Era a primeira vez que ela sentia o gosto de sangue. Também era a primeira vez que matava. Sua natureza recém-descoberta se manifestava num frenesi de sangue e cartilagens dilaceradas. Ela estava em êxtase, como se a morte pudesse se equiparar à sensualidade experimentada momentos antes.
No momento em que a loba saltava para atacá-lo, o caçador viu em seus olhos um brilho estranhamente familiar, como se o seu próprio semblante que ali se refletia indicasse a existência de algo além da aparência de uma fera enfurecida. Tudo durou apenas um instante, pouco antes do momento em que ele deixou de existir.
Depois do ataque, ela olhou incrédula o que havia feito. Realmente não conseguia acreditar que havia matado alguém. Violência, qualquer que fosse, não era algo comum em sua vida. Pelo menos não até aquele momento. Sua natureza, recém-descoberta, descortinava caminhos com possibilidades aterradoras para sua porção humana. Ceder à besta ou sufocá-la em seu íntimo era o dilema que se apresentava, embora isso não fosse ainda uma questão clara em sua mente.
O grande lobo cinzento jazia imóvel diante de si. Ela deixou escapar um uivo de lamento pela brevidade daquele encontro e se perguntou se haveriam outros como ele na floresta. Momentos depois, sumiu na mata.

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