Friday, April 24, 2015

Requiescat in Pace - Crônicas da Cidade dos Mortos

Prelúdio




Depois de um longo e cansativo processo, que incluiu diversas entrevistas, teste psicotécnico e exame médico, recebi a confirmação de que havia sido admitido no novo emprego. A entrevistadora deu-me a notícia de um jeito que me fez pensar que eu havia ganhado na loteria. Sem saber ainda como deveria me sentir, correspondi ao seu sorriso de boas-vindas.
- Bem-vindo à nossa "família". - Ela disse, ainda sorrindo daquele jeito estranho.
Depois dessa introdução, a mulher deu-me um manual de procedimentos da empresa e informações gerais sobre o trabalho que eu iria realizar. Havia sido admitido numa empresa de serviços terceirizados de vigilância e poderia ser mandado a prestar serviço em qualquer local da cidade. Aquilo não me agradou, mas precisava do emprego e abanei o rabo como um cachorro obediente. Depois respirei fundo e perguntei onde seria o meu local de trabalho.
- O Senhor vai trabalhar como vigia noturno no Cemitério Municipal, não é interessante?
- Muito. - Respondi, quase gaguejando. Não que eu tivesse qualquer problema com cemitérios, mas aquilo era tão inesperado que conseguiu me surpreender.
- Algum problema quanto à isso? - Ela perguntou, ao mesmo tempo em que erguia uma das sobrancelhas por sobre o aro dos óculos
- Não, de forma alguma. Até penso que isso me convém. Lidar com os mortos deve ser mais fácil do que lidar com os vivos.
- Infelizmente não são os mortos que incomodam naquele cemitério. Tem havido queixas de violação de sepulturas. Essa é a razão pela qual fomos contratados. O senhor deve se manter atento e chamar a polícia, se houver alguma tentativa de invasão.
Aquela última informação não me agradava, evidentemente. Entre enfrentar invasores do mundo dos vivos e assombrações, eu ainda preferia a companhia dos mortos. Todavia, saí do escritório da empresa disposto a evitar que eles fossem incomodados pelos ladrões de túmulos.
 Não que me importasse muito com isso, mas tinha um emprego a zelar, e empregos andavam escassos atualmente. Vigia noturno de um cemitério não era exatamente o que eu esperava, depois de anos escrevendo meu primeiro romance e descobrir que as editoras não ligavam a mínima para minha urgência em ser publicado. Ninguém se importava com minhas necessidades básicas, a não ser eu mesmo e minha ex-mulher. Assim, acabei arrumando um emprego que me permitisse continuar escrevendo. O salário até que não era ruim, mas vamos combinar que o cargo de vigia noturno em um cemitério não faria nenhuma mulher suspirar por mim.
Apesar de alguns senões que a nova carreira suscitava, eu cheguei pontualmente para o primeiro dia de trabalho. Fui recebido pelo administrador do cemitério, um velhinho falante e bem-humorado. Ele parecia um fauno saltitando por entre os túmulos, com uma agilidade surpreendente para a idade que aparentava. Devia ter lá seus noventa anos, eu acho. Um olhar mais demorado talvez concluísse que ele já tinha pelo menos um século de existência.
- Você acredita em fantasma? – Ele perguntou, ao perceber meu olhar sobre si. Embaraçado, eu desviei os olhos antes de responder.
- Eu ainda não tenho motivos para acreditar, nem negar a existência deles. – Respondi do modo mais preciso que pude. Aquela pergunta parecia ter um propósito específico e achei melhor não me arriscar em polêmicas desnecessárias.
- Você ficou em cima do muro. – Ele disse, com uma expressão zombeteira. – Mas não importa. Haverá o dia em que você terá seus motivos para acreditar em muitas coisas estranhas.
Ele esperava que eu retrucasse, mas permaneci calado. Aquele assunto não era confortável para mim por algum motivo que eu ainda não sabia. Todavia, não tinha a menor intenção de especular sobre isso
- Bom, isso é tudo que tenho para lhe dizer por hoje. Fique atento aos invasores, mas não queira bancar o herói. Chame a polícia se precisar, ou espere alguma ajuda.
- Ajuda?
- Sim. Se eles gostarem de você, talvez o ajudem em sua tarefa.
- Eles quem? – Perguntei, fazendo um esforço para permanecer sério.
- Seus novos amigos, é claro. Eles certamente estarão por perto em algum momento. Vão adorar conhece-lo.
Depois de mais algumas recomendações, o velho fauno deixou-me só, finalmente entregue às minhas obrigações. O anoitecer chegou rápido e os poucos visitantes logo foram embora. Era o momento de fechar os portões da necrópole e preparar-me para a primeira noite insone. Não sei se foi pelas palavras dele ao se despedir, ou minha fértil imaginação de costume, fui tomado por uma forte inquietação assim que fiquei sozinho a contemplar os corredores formados pelas fileiras de túmulos.
Eu não era supersticioso, nem nutria qualquer apreensão por entes ou aparições sobrenaturais.  Não que fosse dotado de muita coragem, não se tratava disso. Apenas não conseguia acreditar em vida pós-morte, fantasmas atormentados ou coisas assim, tão convicto que eu era do mundo material. Por isso mesmo não conseguia explicar a mim mesmo a sensação estranha de não estar completamente só naquele lugar.
A chuva fina que caiu logo a seguir aumentou ainda mais aquele sentimento de desolação que insistia em imiscuir-se em minha mente cética. Isso me tornava orgulhosamente ciente dos parâmetros de lógica que eu costumava usar para analisar tudo que me chamava a atenção. O mundo que eu vivia, parecia ser tudo que existia, e assim me bastava. Todavia, essas convicções estavam para serem testadas e, inconscientemente, eu já temia o que estava por vir.
As primeiras horas se arrastaram lentamente e me proporcionaram a chance de recuperar-me daquela inquietação. A lógica aos poucos se sobrepunha ao instinto atávico dos meus supersticiosos ancestrais das cavernas. Após a primeira ronda, fui para o pequeno escritório, que era anexo à capela do cemitério. Estava disposto a aproveitar a noite insone para continuar um dos meus inúmeros projetos literários.
Algum tempo depois, não sei precisar quanto, ouvi o som de passos furtivos. Parecia que minha primeira noite seria movimentada. Aborrecido com aquele interrupção, desliguei a chave geral da luz. Pensava em dar um bom susto no invasor de túmulos alheios.
Assim que a escuridão envolveu o cemitério, o ruído cessou. Tão silenciosamente quanto eu podia, deslizei para fora do escritório. Felizmente eu tinha deixado a porta aberta e meu movimento não produziu nenhum som que pudesse ser ouvido após alguns metros. Então, oculto atrás de uma lápide, eu a vi. Era uma garota e estava sentada tranquilamente sobre uma lápide. Apesar da penumbra eu conseguia perceber que ela vestia-se de preto e parecia uma figura trágica e triste. Lá estava eu a fantasiar como de hábito. Era um romântico incurável, mas tinha um trabalho a fazer.
Antes que eu tomasse qualquer iniciativa, surgiram outras pessoas. Usavam roupas pretas iguais à ela e alguns tinham os cabelos espetados, provavelmente modelados com algum tipo de gel fixador. Era um grupinho de góticos. Uma dessas tribos urbanas, que cultivavam hábitos estranhos como fazer piquenique em cemitérios.
Ainda fascinado pela moça, eu demorei a me decidir sobre o que fazer. Eles eram apenas uns garotos estranhos e não pareciam perigosos, mas como prudência e caldo de galinha não fazem mal, permaneci oculto enquanto resolvia que atitude tomar. Essa hesitação veio à calhar, pois nada iria me preparar melhor para o que viria a seguir.
Um dos garotos tirou um narguilé de uma bolsa. Logo depois um odor adocicado se espalhou pelo cemitério, enquanto o som de um atabaque encheu o ar. Eles tinham vindo bem preparados para aquela festinha esdrúxula e, pelos indícios, havia mais ainda por vir.
A garota levantou-se e ficou de pé em cima da lápide. Ao som de um cântico entoado pelos demais, ela iniciou os movimentos de uma dança tribal. Seu corpo girava e se contorcia em movimentos cada vez mais frenéticos. Os demais pareciam ter caído em um transe profundo. Devo dizer que me faltava muito pouco para juntar-me à eles naquele frenesi. Felizmente permaneci no controle de minhas faculdades mentais e pude acompanhar de um ponto de vista privilegiado os extraordinários acontecimentos daquela noite.
Embora um ou outro logo estivesse tão drogado que não poderia perceber plenamente o que acontecia, alguns lograram permanecer com alguma lucidez e puderam testemunhar as consequências de provocar-se coisas que estavam além da compreensão de simples mortais. Estes, logo se arrependeriam por ter invadido o cemitério naquela noite. E antes que me perguntem: não! Eu não tive nada a ver com o que aconteceu. Apenas presenciei os fatos que agora narro. Essas lembranças estão gravadas em minha memória de forma indelével, como brasas sobre madeira.
O ritmo das batidas no atabaque acelerou-se e, depois, o instrumento silenciou. A garota que dançava sobre o túmulo ficou imóvel, com uma expressão vazia no olhar. Os demais olhavam para ela e soltavam gritos e risadinhas insanas. Foi nesse momento que aconteceu o mais estranho dos acontecimentos que já presenciei na vida. Ela começou a flutuar na posição horizontal. Seria uma cena digna de um bom filme de terror, permitam-me dizer, não fosse a correria perpetrada pelos “valentes” companheiros dela, em uma fuga desesperada por entre a lápides sepulcrais.
Não fosse pelos gritos de pavor que ela emitiu quando saiu daquele suposto transe, creio que ainda estaria flutuando sobre aquela lápide até hoje. Subitamente ela caiu e estatelou-se sobre a tampa do túmulo. Apesar do forte impacto, acredito que não tenha se machucado seriamente, pois levantou de imediato e disparou ela também, para sumir na escuridão.
Quanto à mim, fiquei ainda um bom tempo aturdido, sem compreender plenamente o significado daquele acontecimento bizarro, exceto pela convicção shakespeariana de que havia algo mais entre o céu e a terra, afinal de contas. Logo eu teria outras razões para rever meus conceitos.



No plantão seguinte, o tempo havia mudado completamente. A noite apresentava um céu estrelado, com a lua crescente no horizonte a contemplar a escuridão. Devo dizer que minhas expectativas, baseadas nos acontecimentos insólitos da primeira noite, frustrou-se completamente naquela primeira semana. Nada aconteceu na segunda noite ou nas seguintes. Nada de invasores góticos ou ladrões de túmulos. Tampouco houve qualquer manifestação sobrenatural que eu pudesse ter notado, exceto pela sensação quase permanente de que eu não estava só. Todavia, eu creditava isso ao meu contumaz excesso de imaginação, que não precisava de muito estímulo para se fazer presente.
De outro lado, consegui aproveitar bastante aquelas noites insones. Dei sequência a um romance que dormitava já há algum tempo num arquivo quase esquecido do meu notebook. Se conseguisse manter esse ritmo, em breve teria meu segundo romance disponibilizado nos sites que hospedavam literatura para leitura on line. A perspectiva não era muito estimulante do ponto de vista financeiro. Provavelmente eu ainda continuaria naquele trabalho de vigia noturno por muito tempo, para garantir o pagamento das contas no fim do mês. É claro que o fato de ter um grupo de leitores seguindo minhas publicações contava bastante para a vontade de continuar escrevendo, apesar da quase ausência de retorno financeiro. Digo quase, porque descobri que tinha uma pequena quantia a receber do Google, por conta de um blog que mantinha na internet.
Na segunda semana eu já havia praticamente esquecido dos acontecimentos da primeira noite. Contudo, tenho a impressão, hoje, que meu espírito estava sendo deliberadamente desarmado para o que veria a seguir.
Aconteceu numa noite fria. Estávamos no princípio do inverno e havia dias em que o vento parecia querer congelar até os espectros errantes que pairavam na minha imaginação. Era o meu segundo plantão com o tempo naquelas condições, e nada indicava que fosse mudar nos dias que se seguiriam.
Naquela noite, minha atenção foi despertada por uma silhueta projetada na parede de um túmulo. De onde eu estava podia ver alguém calmamente sentado sobre uma lápide. Na verdade, tudo o que eu via era um vulto. Não dava para distinguir claramente quem ou o que eu estava vendo, devido às sombras projetadas pela copa das árvores agitadas pelo vento.
Decidi me aproximar e dar uma lição no invasor. Estranhamente, eu já considerava o cemitério meu território particular e me preparava para dar uma lição em quem ousava perturbar a paz do meu lugar. Sorrateiro, ladeei silenciosamente o túmulo onde o vulto estava sentado, de modo que minha aproximação não fosse notada.
Assim, cheguei bem perto do invasor, mas não consegui vê-lo sem denunciar minha presença. Então, respirando fundo, emiti um gemido digno de qualquer alma penada, e capaz de arrepiar os cabelos do mais corajoso dos homens. A criatura, digamos assim, nem se mexeu. Desconcertado com o pouco caso, eu já me preparava para soltar uma gargalhada insana, quando ela se voltou para mim. Era a garota gótica do meu primeiro dia de trabalho. Naquele momento, quem quase se assustou fui eu. Devo dizer que isso se deu mais pelo inesperado da situação do que por qualquer significado sobrenatural que poderia haver. Na verdade, se ela fosse algum fantasma, não teria me chocado tanto.
- Oh! É você? – Ela perguntou com um meio sorriso triste.
Eu me aproximei ainda tentando me recompor da surpresa ante a presença dela ali, no meio da noite, sentada sobre uma tumba.
- O que você está fazendo aqui? – Perguntei do modo mais gentil possível.
- Não sei. Venho sempre aqui, mas não sei o motivo. Quando me dou conta já me vejo contemplando essas lápides, como se os mortos que aqui estão enterrados desejassem minha companhia. – Ela explicou com uma voz deliciosamente rouca.
Ela pareceu ter percebido o efeito que causava em mim, apesar daquele piercing no nariz. Levantou-se, ergueu os braços e se espreguiçou como uma gata. Era uma visão encantadoramente forte, apesar do aspecto franzino do seu corpo delgado.
- E você? O que faz aqui? Não parece do tipo que gosta de cemitério. – Ela perguntou e comentou uma ironia ferina.
- Eu trabalho aqui. – Respondi de modo casual. Não ia deixar aquela magrela me encostar na parede. – Que tipo de gente gosta de cemitério?
- Tipos como eu, acho. A melancolia presente na morte me faz bem, sei lá. O trágico me atrai e, as vezes, desejo o abraço da morte. Deve imaginar que sou uma louca, não?
- Não.
- Não? – Ela repetiu a negativa como uma pergunta. Havia uma curiosidade estampada em seu olhar felino.
- Tem dias que eu me sinto assim. – Respondi. Vi ali uma oportunidade para impressioná-la. Mesmo correndo o risco de fazer papel ridículo, recitei um velho poema que eu havia escrito numa época distante, quando eu era jovem e ainda tinha a pretensão de me aproximar de Poe.

“Hoje olhei o mundo
e não me senti feliz
Havia um gosto amargo
nas lembranças de minha história

Velhas dores voltaram
de antigas perdas quase esquecidas
Espectros errantes daquilo que fui
apertam meu peito e me fazem lembrar

Buscam a vingança, eu sei
Ainda hoje se riem de meus fracassos
e de minhas patéticas tentativas de esquecer.

Hoje eu não queria existir
Amanhã, talvez, venha a me condenar
frívolo e vazio.

Como é ridícula a pena de mim mesmo
O fundo, porém, me atrai
Mais do que nunca,
hoje eu não queria existir”.

Naquele momento eu ainda não sabia se a tinha agradado, mas ela teve a gentileza de ouvir-me em silêncio.
- Gostei. – Disse com simplicidade. – Você escreveu isso há muito tempo. Hoje não escreveria isso, não é?
- Não sei.
- Não escreveria, não. Você não é mais assim. Já aprendeu a lidar com seus erros e suas vergonhas. Tornou-se cínico e perdeu a empatia, pois já não se importa com os erros que cometeu e já não se constrange com o olhar alheio. Não sente a dor e a tristeza que flutuam no ar.
- Dor e tristeza flutuando no ar? Fala sério! – Desdenhei, num esforço para sentir-me superior. Na verdade, eu estava abalado. Ela falava de coisas, de sentimentos que eu tinha e nunca havia expressado, a não ser em patéticas tentativas poéticas na minha juventude.
- Você não sente mais. – Ela retrucou, dando de ombros. – Você não percebe mais os fragmentos das almas dilacerados pela existência opressiva. Não houve mais o brado exultante, quando elas se libertam, erguidas pelo abraço do anjo da morte.
- Eu percebo, sim. – Disse eu, quase num grito. – Eu ainda ouço o gemido das almas e, vezes sem conta, e já quis juntar-me à elas.
- Sério? Você não leva jeito de suicida. – Disse ela com desdém, enquanto rodeava o túmulo para se aproximar de mim.
A garota parecia querer provocar minha ira, mas era inútil. Ela tinha razão quanto ao meu cinismo, mas não de todo. Eu ainda a achava tragicamente bela, mas não a deixaria perceber meus devaneios românticos. Assim, resolvi tomar a iniciativa naquela conversa sem sentido.
- Afinal de contas, quem é você? O que faz aqui?
Ela riu. Um riso cristalino e triste. Por um momento pensei que estivesse tentando zombar de mim novamente, mas ela respondeu às perguntas com surpreendente seriedade.
- Eu sou Berenice. Eu já disse que não sei por que venho aqui. Não lembro nem mesmo como venho parar neste lugar. Acho que me deixo atrair por essas lápides e pela atmosfera daqui.
- E aqueles seus amigos?
- Aqueles idiotas não são meus amigos. Nunca os tinha visto antes.
Ela encarou meu olhar sem pestanejar. Parecia dizer a verdade, mas algo não se encaixava no que dizia, a menos que a dança que fizera naquela noite tivesse sido apenas um acontecimento fortuito. Contudo, em minha lembrança, eu tinha a certeza de que ela fazia parte daquele bando de malucos.
-Então por que dançava para eles?
A pergunta provocou-lhe apenas um cômico arquear das graciosas sobrancelhas.
- Eu dançava? Ficou maluco?
- Talvez eu tenha ficado realmente maluco. – Disse-lhe, dando de ombros. Era minha vez de mostrar-me sarcástico. – Mas você seguia o som do atabaque tocado por um deles com muita entrega. Parecia possuída por alguma força estranha, eu diria.
- Não lembro disso.
- Não?
- Já disse que não. – Respondeu com uma ponta de irritação. – Mas lembro que me aproximei daquele grupinho patético. Estava curiosa com o que eles pretendiam ali. Depois disso lembro apenas que cai de algum lugar, me assustei e fugi.
Ela parecia realmente não lembrar de nada, ou então eu já estava num adiantado processo de senilidade e ainda não tinha me dado conta disso. De qualquer modo deveria haver alguma explicação para lembranças tão diferentes sobre o mesmo acontecimento. Sempre há, não é mesmo?
Temendo que ela se aborrecesse e fosse embora, mudei de assunto com a sutileza que me era peculiar.
- Você não tem medo de vir aqui à noite?
Ela considerou minha pergunta por um momento, antes de cair na gargalhada. Contagiado, eu ri também. Tinha realmente feito uma pergunta idiota, mas ela pareceu entender que a pergunta, em si, não tinha nenhuma importância. Era apenas uma tentativa meio atrapalhada de continuarmos a conversa, sem o assunto que a perturbava.
- Você quer saber se tenho medo dos mortos daqui, ou dos vivos? Tanto faz, não é? Geralmente eu tenho medo do que não conheço. Por isso, da morte já não tenho medo. É uma velha conhecida em minha vida.
Ela riu do paradoxo que inadvertidamente construíra.
- Tenho medo dos vivos. – Ela continuou. – Os vivos podem ser cruéis quando não se importam, não é? Na maioria das vezes é assim mesmo, os vivos são movidos por motivos mesquinhos. Enquanto que a morte, essa sim, só quer nos abraçar e acalentar para que esqueçamos a dor.
- A dor?
- Sim, como no seu poema. Acho que hoje eu também não queria existir, mas a morte nem sempre resolve isso.
Demorei um pouco a perceber que ela estava se referindo à existência pós-morte. Se de fato houvesse, morrer não daria o descanso pretendido. A existência apenas mudaria de plano, com a sufocante perspectiva da eternidade. Felizmente, eu não tinha essa crença. Também não via a morte de um ponto de vista tão sedutor. Na maioria das vezes eu gostava da vida, embora realmente quisesse me esquecer em alguns momentos, como disse no poema.

Aquela conversa teria ido longe, creio. Havia mais espaço para novas digressões sobre a morte, mas isso não me interessava. Discussões filosóficas costumavam ser cansativas para mim e, via de regra, tudo se esgotava rapidamente na superficialidade das coisas. Os longos anos de minha vida haviam me tornado um cínico, como ela logo percebeu, mas nada podia fazer para me livrar da sensação de que conversas como aquela logo se esvaziavam em patéticas tentativas dos interlocutores em se sobreporem uns aos outros, como se a verdade das coisas pudesse emergir das palavras proferidas por aqueles que detinham mais habilidade verbal. Assim, aquele assunto também parecia esgotado entre nós. Nesse ponto, temi que ela se cansasse de minha companhia e fosse embora. Felizmente isso não aconteceu.
- Venha. – Ela disse, depois de um torturante silêncio.
- Para onde?
- Vamos passear. Você é novo por aqui, não é? Vou lhe mostrar os meus recantos preferidos.
Dito isso, pegou minha mão e puxou-me suavemente para junto de si. O seu toque pegou-me desprevenido e acho que estremeci.
- Está com frio? – Ela perguntou. Tive a impressão que havia um leve pitada de ironia naquela pergunta. Ela sabia de seus encantos.
- Um pouco. – Respondi de modo pretensamente neutro. Onde vamos?
- Vamos para a parte mais antiga. Lá tem túmulos em arquitetura neoclássica.
Eu pensei estar imaginando coisas, mas aquilo parecia um passeio romântico, por mais insólito que fosse. A caminhada, em si, não levou mais que alguns minutos. A parte mais antiga ficava no início da colina onde o cemitério havia sido originalmente construído. Isso tinha acontecido em meados do século XVIII, segundo soube, ao pesquisar sua história quando descobri onde ia trabalhar. A data era coerente com o surgimento do movimento neoclássico. A garota sabia do que estava falando.
Paramos diante de uma cripta imponente, com um pórtico guarnecido com quatro colunas jônicas, que lembravam os antigos templos dedicados à Atena. De onde estávamos eu não consegui ler a identificação, mas tudo indicava que aquele túmulo deveria pertencer a alguma família ilustre da cidade.
- Este é o meu preferido. – Ela disse. – Parece um bom lugar para deixar os restos mortais, não acha?
Eu não era partidário de tamanha ostentação, mas me abstive de dar uma opinião realmente sincera sobre essa questão. Contudo, não poderia negar que aquele túmulo era uma bela obra. Seguia um estilo arquitetônico bem definido e tinha um acabamento refinado.
- É uma bela obra. – Respondi simplesmente.
Ela sorriu. Parecia feliz em partilhar seus “tesouros” comigo. Aquilo me comoveu e eu quase me senti encorajado a dar vazão aos meus devaneios românticos. Todavia, alguma coisa ainda me travava. Talvez a juventude dela. Berenice aparentava ter a metade da minha idade e poderia ser minha filha. Como explicar isso ao coração? Há muito eu não sentia o que estava sentindo e havia desaprendido a lidar com essas questões. Tudo poderia se tornar tão embaraçoso e ridículo, que eu agradeci mentalmente quando um barulhos nos interrompeu.
- O que foi isso? – Perguntei, exageradamente alerta.
- Parece ter vindo da Capela.
Ela tinha ficado compreensivelmente tensa.  De modo que eu sugeri que me esperasse ali, enquanto eu verificava o que acontecia na capela. Eu sabia que a funerária havia trazido um morto naquela noite. O defunto aguardava a chegada de parentes distantes para o enterro na manhã seguinte. Não deveria haver ninguém lá.
- Não! Eu vou com você. Eu frequento esse cemitério há mais tempo, e há coisas que você ainda não compreende. – Disse ela com um fio de voz.
Aquela afirmação me surpreendeu e, devo dizer, não me deixou nem um pouco mais tranquilo. O que ela poderia saber do que parecia ser uma ação de invasores de túmulos? Se é que era isso mesmo que estava acontecendo. Algo em suas palavras, ou no tom de voz, provocava meus instintos mais primitivos. Isso não era bom, eu sabia.
- Está bem. – Concordei. – Mas vamos apenas confirmar o que está acontecendo e chamar a polícia.
- Tá bem. – Respondeu ela sem muita convicção.
Eu teria feito mais perguntas, mas a situação não era muito propícia para isso e requeria ação imediata. Então, nos dirigimos à capela do cemitério sem mais delongas. Eu estava preste a conhecer pessoalmente um dos aspectos mais torpes da natureza humana.
Com efeito, o que acontecia não era uma ação de ladrões de túmulo. A velha intuição já me dizia isso, mas o que víamos pela porta entreaberta conseguiu me surpreender.
Debruçado sobre o caixão, o coveiro estava tão absorto no que fazia, que não percebeu nossa presença. Com movimentos frenéticos, quase febris, ele tentava despir o cadáver de uma jovem mulher. Eu fiz menção de tentar impedi-lo, mas Berenice me conteve e fez sinal de que tinha algo em mente.
Ela fechou os olhos e soltou um gemido. Era um lamento quase inaudível, mas que de repente pareceu preencher toda a capela. O coveiro estacou e finalmente percebeu que não estava só. Ele olhou ao derredor, mas não conseguiu nos ver.
O sujeito asqueroso andou ao redor do caixão, enquanto olhava para todos os lados. Parecia considerar os riscos de continuar o que estava fazendo. Então, quase sem pensar, soltei o mais tenebroso grito que podia emitir. Na verdade, eu não sabia que podia fazer aquilo, mas o importante é que havia dado certo. O coveiro disparou pela porta da capela como um coelho assustado.
Levamos ainda algum tempo para nos recompor do susto. Acho que eu teria até mesmo achado engraçado, não fosse a visão do cadáver que quase havia sido violado. Ela já estava seminua, mas o pior havia sido evitado, creio eu. Apesar disso, ficou-me a sensação de pesar pelo ultraje daquela tentativa hedionda.
Depois que saímos da capela, algumas questões me ocorreram. Berenice pareceu saber o que estava acontecendo. Eu a interpelei assim que a senti mais calma. Todavia, ela não parecia muito confortável em dar-me explicações sobre o ocorrido. Então achei melhor não insistir, acreditando que haveria uma ocasião, no futuro, em que ela pudesse sentir-se mais confortável para falar daquilo.
Depois que saímos da capela, ela se despediu de mim. Por trás das árvores, o brilho pálido da alvorada indicava que a noite também se despedia.

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