Thursday, July 02, 2015

Requiescat in Pace - Crônicas da Cidade dos Mortos Cap. 2

A noite em que surpreendemos Pé Redondo, na prática de seus deploráveis hábitos de necrófilo, foi também a última vez que vi Berenice. Desde então, eu vago entre os túmulos a procurar seu vulto, mas em vão. Ultimamente tenho pensado se ela não seria também um dos espectros que, dizem, habitam aquela necrópole. Seja como for, senti-me traído e abandonado quando me veio a impressão de que não voltaria mais a vê-la. Todavia, ela nunca me sai do pensamento, por mais que me esforce para esquecê-la. Às vezes quase encontro o conforto do esquecimento, mas um fragmento de memória, a lembrança do seu olhar melancólico, logo irrompe na escuridão onde tento soterrá-la. Assim, se reinicia o ciclo de pesar que tortura minha alma desde que ela se foi.

Para minha consternação, no entanto, vejo o coveiro frequentemente. Quase todas as vezes em que ergo os olhos, encontro ele a me fitar. Há nesse olhar um brilho mal disfarçado de ódio, atirado m minha direção, como uma adaga faminta de morte e destruição. Eu julgava que ele não nos tinha visto naquela noite, mas aparentemente estava errado. Ele nos vira e tudo indicava que eu havia sido classificado como inimigo por aquele sujeito execrável. Algumas vezes o via perambulando pelo cemitério durante a noite e cheguei a pensar em chamar a polícia. Entretanto nunca mais o surpreendi em suas práticas abomináveis. Creio que isso se devia mais à falta de oportunidade do que uma desejável mudança de hábitos. Ultimamente, a morte tem contemplado mais idosos e vítimas de doenças contagiosas, os quais, por razões óbvias, não parecem exercer nenhum atrativo para ele.
Depois de um tempo, o coveiro também sumiu de minhas vistas. Devo confessar que fiquei feliz com isso. Ele era um sujeito sinistro, daqueles que era melhor evitar encontrar em alguma viela escura, como aconteceu certa noite no cemitério. Numa de minhas rondas, ele surgiu de repente, por detrás de um grande jazigo. Parecia estar ali de tocaia e, na ocasião, julguei ver o brilho fugaz de uma faca sendo erguida. Felizmente foi só a impressão de uma mente assustada e nada aconteceu. Depois disso, nunca mais o vi.
As noites no cemitério tornaram-se tranquilas, sem nenhuma ocorrência que pudesse perturbar a mim ou aos mortos que ali repousavam. Desde a invasão daquele grupo de góticos, ou da última incursão de Pé Redondo, ninguém mais apareceu.
Depois de me acostumar com as noites insones, passei a apreciar aqueles momentos de solidão e aproveitei para escrever. As ideias me ocorriam a todo momento e o texto fluía com rapidez. Creio que nunca escrevi com tanta facilidade. Normalmente, salvo rompantes de inspiração, minhas criações literárias só se concretizam no papel depois de muito esforço. É como tentar tirar leite de pedra.
Destarte, aproveitei aquele período para produzir o romance acalentado a tanto anos. Afinal, não saberia dizer por quanto tempo iria manter aquela produtividade. Algumas vezes escrevia a noite toda, quase sem parar, exceto pelas rondas, que faziam parte do meu ofício de vigia noturno. Em outras ocasiões as sessões de escrita eram entremeadas por caminhadas entre os túmulos, que iam bem além das rondas. Eram caminhadas solitárias, mas em algumas ocasiões, eu tinha a nítida sensação de que tinha companhia. Certa noite pensei ter visto Berenice. Na verdade, vi ou pensei ter visto um vulto. Imaginar que a tinha visto era quase natural, tamanho o desejo de reencontrá-la.
Com o passar dos dias, Berenice passou a ser uma lembrança cada vez mais distante, mas a visão de vultos começaram a se tornar demasiado frequentes, a ponto de já não ser possível achar que eram apenas ilusão de ótica, um jogo de luz e sombras provocado pelo movimento das copas das árvores agitadas pela brisa noturna.
Em certa ocasião, pensei ter ouvido vozes. Eram sussurros que se sobrepunham ao gemido do vento. Parecia que os espectros daquele lugar finalmente decidiram se aproximar, ou então eu estava definitivamente perdendo o juízo. Bravamente, decidi não me deixar afetar pelas inquietações que me acometiam e busquei me concentrar no livro que estava escrevendo. Era um novo projeto literário, inspirado nas noites passadas naquela necrópole.
Depois de algumas páginas, li o que estava escrito em voz alta. “Era uma noite de chuva e relâmpagos, uma noite tão sombria, que quase se poderia ouvir o corvo de Poe a recitar algum fatídico presságio, que se repetia e se perdia ao longe, a ecoar pelas catacumbas. Nessa noite, tomado de persistente melancolia pus-me a sussurrar o nome de Berenice à ventania. Vezes sem conta repeti seu nome em vão e nenhuma resposta me vinha, nada que pudesse aliviar minha tormentosa solidão. Tudo o que ouvia, ou imaginava ter ouvido, era o riso irônico e enlouquecido das almas perdidas. Naquele momento, eu já tinha quase certeza de que não estava só.
- Absolutamente medíocre. – Disse-me uma voz cavernosa. – Embora lembre Byron vagamente.
- Pois a mim parece mais uma patética imitação de Poe. – Disse outro. A referência à Edgar Allan Poe não evitou que eu me virasse para todos os cantos. Estava realmente assustado.
 – É tão patético que alivia sua consciência ao fazer-lhe uma referência explícita. – Continuou a mesma voz, implacável.
Por mais que me esforçasse, não conseguia ver de onde vinham as vozes. Elas silenciaram por um momento, deixando-me a pensar se não tinha imaginado coisas, mas logo em seguida, explodiram numa gargalhada tão insana quanto uníssona.
- Q-quem são vocês? – Gaguejei.  – Onde estão?
Novamente ouvi as gargalhadas zombeteiras. Eu ainda não havia me decidido se ficava assustado ou me ofendia com os comentários descorteses sobre meu texto. O que eu tinha escrito era apenas um esboço, mas falava de uma paixão recém-descoberta e aquilo era uma invasão de privacidade.
- Deixem-no em paz! – Ordenou uma voz feminina.
Por um segundo senti meu coração trespassado pela esperança, mas não era a voz de Berenice. Tinha um tom mais suave, embora vibrasse de modo firme e autoritário.
- Eu gosto do texto dele. É tão romântico... – Disse ainda a voz feminina. – Acho que ele serve.
- Lembra alguma coisa de H. P. Lovecraft, acho. – Disse uma voz de homem que soava efeminada. – Embora esse texto me pareça um tanto rebuscado. Pode-se notar aqui e ali fragmentos que não combinam entre si, como uma colcha de retalhos mal acabada.
- Que maldade, Aluisio. – Retrucou a voz feminina. – Eu vejo uma alma torturada pela lembrança da mulher amada. Você não entende nada disso.
- Entendo de paixões, queridinha.
- Você teve bons momentos em sua poesia, mas isso não o torna um crítico literário, meu caro.
- Vamos votar. – Disse o fantasma da voz cavernosa. Ele parecia comandar aquele grupo de espectros delirantes.
- Vamos votar. – Apoiou um coro de vozes.
Eu não consegui ver ninguém, mas ouvi um burburinho parecido com uma reunião de sindicato, ou centro acadêmico de alguma faculdade. Era companheiro para cá, companheiro para lá, e muitos apartes e questões de ordem.
Quanto à mim, continuei ali, embasbacado e semiparalisado, sem ver ninguém, até que a dona da voz feminina se tornou visível. Não foi assim de repente, é claro. A materialização daquilo que parecia ser um espírito pareceu demandar algum esforço para ela. A imagem tremulou e custou a se firmar, mas conseguiu. Ela surgiu diante de mim com um sorriso terno. Entretanto, a imagem que vi causou-me um longo arrepio na espinha. Era a morta que quase havia sido violada por Pé Redondo, o coveiro.
- Você! – Exclamei.
- Sim, meu herói! Finalmente nos encontramos, depois de sua brava intervenção.
Eu não soube o que dizer. Parecia ter sido transposto para dentro de um desses romances cor de rosa que as mocinhas costumavam ler, num passado não muito distante.  Ela era bonita. Tinha na face pálida os traços delicados de uma boneca de porcelana, que realçava a boca em carmim. Ela vestia a mesmas roupa com que tinha sido enterrada, um vestidinho de algodão azul claro, estampado com bolinhas pretas e com detalhes em renda. Seu cabelo louro, caprichosamente arrumado, descia em ondas suaves sobre o ombro. Ela rodopiou com graça e se aproximou de mim de uma forma extremamente afetuosa. Por um momento, tive a impressão que iria beijar-me.
- Que tocante! – Disse novamente a Voz Cavernosa, em tom irônico.
- Pura pieguice, mas tocante. – Corroborou a voz efeminada.
Ouvi diversas risadinhas, antes que se tornassem visíveis. Além da moça, havia mais cinco fantasmas olhando para mim. O mais alto, que parecia liderar o grupo era o mais sombrio e demonstrava ser pouco amigável. Vestia-se de fraque e cartola e tinha um olhar duro e sinistro.  Definitivamente não gostei do sujeito. Ao lado dele, um pouco atrás, aparecia um gorducho que parecia o dono da voz efeminada. Parecia ainda mais pedante e não gostei dele também.
Atrás deles tornaram-se visíveis mais três espectros, os quais deviam vir de épocas distintas, a julgar por suas vestimentas. Um deles, parecia ter saído de um filme ambientado no período imperial. Naquele momento não me atentei para o fato daquele fantasma aparentar vir de uma época situada antes da construção do cemitério, mas havia uma explicação plausível para isso. Todavia, para não me dispersar em minha narrativa, reservo-me a liberdade de voltar ao assunto mais adiante.
Dos outros dois, um falecera recentemente. Quando em vida, tinha sido um homem muito rico e político de destaque na cidade. Distraído que sou, nem tinha percebido que o sujeito havia morrido. De qualquer modo, nunca simpatizei muito com esse tipo de gente. O último fantasma manteve-se distante e desconfiado, mas pude perceber que tinha marcas de tortura no corpo magro e maltrapilho.
- Ele não parece grande coisa, mas serve. – Disse o líder do grupo.
Os outros assentiram e a moça sorriu.
- Parabéns. – Disse ela.
Diante de minha expressão interrogativa, ela explicou:
- Você foi eleito o cronista da nossa pequena comunidade. Vai escrever nossas histórias. Gostou da ideia?
Era uma proposta estranha, considerando as circunstâncias e o fato de eu não haver me candidatado a nada. Depois que a aceitei, descobri que havia mais almas penadas a vagar naquela necrópole. Nem todos tinham sido enterrados ali, como já havia deduzido. Havia fantasmas de outras épocas e lugares. O ponto em comum é que todos tinham algo inacabado em suas vidas mortais anteriores. Todos tinham alguma pendência que os impedia de seguir em frente, pelo que consegui entender. Só não tinha eu ainda compreendido o que pretendiam com o relato de suas desventuras para mim. Ou seja, no que isso poderia ajudá-los. Quanto à mim, por todos os deuses e demônios, aquela era uma oportunidade única. Era a chance de escrever uma obra que me tornaria imortal, se me permitem a presunção.
Assim, a partir daquele primeiro encontro com aqueles seis espectros, passei as noites insones em longas e intrigantes tertúlias, das quais anotei escrupulosamente tudo que me era relatado. Algumas vezes fazia pequenas alterações aqui e ali, para manter alguma coerência estilística, mas tive o cuidado de manter criteriosamente o contexto e o sentido dos relatos que ouvi.
No começo, aquelas assembleias fantasmagóricas não eram muito organizadas, com todos os espectros querendo falar ao mesmo tempo. Teria sido bem difícil encontrar um modo de torná-las produtivas, não fosse a Voz Cavernosa. Logo percebi haver um certo temor de todos por seu temperamento irascível e isso me convinha. Contudo, tive a impressão que havia algo mais em sua atitude arrogante que o fazia se sobrepor aos demais. Não foi preciso muito esforço para perceber indícios de velada ameaça em seu tom de voz, que sutilmente indicava os limites de cada um.
Foi por sua iniciativa que foi dada a palavra à Voz Feminina. Atitude essa, na qual percebi haver alguma conotação de possessiva afetividade, algo que nunca imaginei existir na existência além-túmulo, cuja possibilidade, aliás, nunca levei a sério. Todavia, dessa noite em diante, vi-me forçado a rever meus conceitos.
Então, estabelecida à ordem, a Voz Feminina iniciou seu relato, o qual transcrevo a seguir, na forma de crônica.
Seu nome era Estela e morreu tragicamente, estuprada e morta pelo padrasto. Numa voz infantil e hesitante, ela relatou os anos de assédio que havia sofrido, quando sua mãe não estava presente.
Não havia tristeza no relato de Estela, como se poderia esperar. Na verdade, ao relembrar ali as circunstâncias de sua morte, ela parecia apreciar aquele momento e caprichava nos gestos e pausas dramáticas. Em alguns momentos, seus trejeitos lembravam a Lolita de Nabokov, totalmente entretida em seduzir a plateia.
- Ele era bom para mim. – Disse com a voz quase sumindo. – Dava-me muitos presentes. Roupas, sapatos e algumas joias. Depois pedia para eu me arrumar e desfilar para ele. Às vezes dava-me tapinhas nas nádegas e beijava-me o rosto.
- Você gostava disso? – Perguntei de repente, a interrompendo.
Ela não respondeu. Olhou para a Voz Cavernosa e hesitou. Parecia estar com medo. Acompanhei a direção do seu olhar e dei de cara com a expressão mais malévola que já vi na vida. Aquilo me assustou.
- Chega por hoje. – Disse a Voz Cavernosa, com uma ira mal contida.
Quase imediatamente os espectros desapareceram, exceto Estela. Ela ficou por um momento a me olhar e depois saiu andando pela porta, como se ainda estivesse viva. Olhei ao meu redor, esperando que o Voz Cavernosa também tivesse ido, mas ele ainda estava ali.
- Foi uma boa pergunta, Bobão. – Disse ele.
Apesar do tom de voz neutro, eu sabia que havia pisado em terreno perigoso e jurei silenciosamente que tomaria mais cuidado, doravante. Contudo, apesar dessa resolução, o problema ainda persistia. O Voz Cavernosa ainda não tinha se ido como os outros. Ele andou de um lado para o outro com as mãos no bolso do colete, como se estivesse a pensar que destino cruel me daria. De repente estacou e se virou para mim.
- Diga-me, bobão, qual foi a razão de sua pergunta?
Antes que eu pensasse numa resposta adequada, ele emendou outra pergunta ainda mais capciosa.
- Por acaso se imaginou no lugar do padrasto dela?
- Não! – Respondi com veemência. – A pergunta foi feita para provocá-la, apenas.
- É mesmo? Com que propósito?
- Para que se revelasse. Para escrever sobre ela, sua história, tenho que conhecer sua natureza, não é verdade? – Respondi com argumentos lógicos, mas já não estava perfeitamente seguro de minha sinceridade. Estela parecia o tipo de garota que sabia provocar todos os pequenos demônios da perversão que habitam o inconsciente masculino.
O Voz Cavernosa pareceu concordar com minha argumentação, ou talvez com a verdade oculta. Ele dava a impressão de enxergar através de mim e isso começou a me incomodar. Não era bom sentir-se nu diante de um estranho, principalmente se ele fosse um fantasma cheio de manhas e disposto a virá-lo pelo avesso.
- Faz sentido. – Disse ele por fim. – Mas vou ficar de olho em você, bobão.
Dito isso ele evanesceu quase completamente e atravessou a parede. Eu fiquei só com meus pensamentos. Devo dizer, à essa altura, que eram pensamentos bem sombrios. Aquilo que eu pensava ser uma oportunidade fantástica, poderia conter aspectos perigosos e essa perspectiva não me animava nem pouco.
Não sei quanto tempo fiquei refletindo sobre os últimos acontecimentos. Eu costumava ficar cismando por horas quando algo me incomodava. Geralmente isso acontecia com coisas relacionadas com alguma situação constrangedora, como ter minha integridade de caráter colocada sob suspeita daquela forma tendenciosa. Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que fui habilmente manipulado para duvidar de mim mesmo. O Voz Cavernosa havia me vencido num jogo que eu havia iniciado, e a consciência disso não me fez muito feliz.
- Nossa! Que pensamentos sombrios devem passar por essa cabeça.
Era Berenice, que me olhava através da janela entreaberta. Não fosse a alegria imensa por vê-la novamente, teria ficado furioso por aquela aparição no meio da noite. Em algum momento eu teria que falar com ela sobre aquilo.
- Então, Sentiu saudades? – Ela perguntou, enquanto entrava pela janela.
- Sinceramente não sei. – Respondi inseguro. Naquele momento a autoconfiança que ela demonstrava me irritava profundamente.
- Verdade? – De repente a petulância desapareceu e eu consegui ver a garota que havia me encantado.
- Não. Mas você tem que parar de sumir e reaparecer desse jeito.
- Desculpe. De repente fiquei com medo e fugi daqui.
- Medo? É difícil de acreditar que uma garota que anda sozinha num cemitério, no meio da noite, tenha medo de alguma coisa.
Ela baixou os olhos. Parecia consternada, mas naquele momento era difícil saber se isso era verdadeiro.
- Aquele homem horrível me deixou com medo.
Ela se referia ao coveiro, mas naquela noite Berenice não parecia tão assustada. Na verdade, eu fiquei mais assustado do que ela. Principalmente nos dias seguintes, quando tive a certeza de que o sujeito havia nos visto.
- Eu vi seus olhos. – Ela disse. – Eu já tinha visto aquele olhar antes, mas ainda não consigo lembrar direito.
- Os olhos de um assassino.
- Mais que isso. – Ela retrucou enigmática.
- Do que você está falando?
Ela me lançou um olhar desamparado. Contive a muito custo o desejo de envolvê-la em meus braços.
- Eu não sei. – Respondeu. – Já vi aquele sujeito antes, mas não consigo lembrar. Por favor acredite em mim.
- Está bem. Vamos mudar de assunto?
Ela sorriu e se aninhou em meus braços. Eu ouvi seu longo suspiro, mas contive o meu. Ao sentir o perfume do seu cabelo, minha boca deslizou pelo seu rosto e procurou a sua. Era difícil acreditar que aquilo estava acontecendo.

No comments: