Thursday, August 20, 2015

Requiescat in Pace:Crônicas da Cidade dos Mortos. Capítulo 3

As horas passam rápido quando se deseja que o tempo pare, não é mesmo? A presença de Berenice provocava esse sentimento em mim. Podíamos ficar horas conversando sobre os mais variados assuntos. Com ela, a prosa era sempre interessante e não era raro que uma mesma questão me fosse apresentada de um ângulo diferente, inusitado.
Minha jovem interlocutora tinha uma forma de ver o mundo que nunca teria me ocorrido. Isso, por si só, já era bastante estimulante, mas Berenice também sabia ouvir com uma rara sensibilidade. Em minhas assertivas, podia perceber sua atenção plena, calcada num interesse genuíno por minhas palavras. Isso me envaidecia, é claro. Tanto era verdade, que tinha que me esforçar por manter meu maltratado ego sob controle.
Felizmente, a partir dessa noite, nossas conversas tinham sempre um interlúdio de carinho e beijos furtivos, trocados nas sombras entre os túmulos. Nada me dava mais
prazer do que senti-la suspirar ao grudar seu corpo ao meu, com uma sofreguidão que só a solidão prolongada poderia explicar. Apesar disso, durante muito tempo não fomos além dessas carícias. Parecia haver um temor recíproco de que a magia acabasse e voltássemos a ser pessoas comuns, com seus medos e desejos mesquinhos.
 Talvez por essa mesma razão, evitássemos falar de nossas vidas fora do cemitério, como se tudo existisse apenas durante a noite, quando estávamos juntos. Ao amanhecer, a magia se desfazia e deixávamos de existir. Em alguns momentos, eu realmente tive a nítida sensação de que existíamos somente ali, entre as lápides sepulcrais. Era como um sonho recorrente. Todavia, isso não me incomodaria, se assim fosse. Breves momentos com Berenice valiam mais que uma vida inteira de solidão e vazio, pois era assim que eu sentia que era a minha existência, antes de tê-la conhecido.
Apesar de nossos temores, eu ansiava pela ocasião em que completaríamos fisicamente a união que já existia em nossas almas. Nunca falávamos sobre isso, mas sabíamos daquilo que cada um pensava. Havia um destino a cumprir e isso aconteceria em algum momento.
Um dia Berenice chegou de um jeito diferente. Não ficou me esperando, como sempre fazia, sentada sobre a tampa de sua lápide preferida. Ela foi direto ao meu escritório, como fez da primeira vez que nos beijamos. Havia um brilho especial em seu olhar. Naquele instante eu soube que nosso momento havia chegado.
Eu estava sentado e escrevia furiosamente. Há dias que a inspiração me vinha sem cessar e meu romance avançava de um jeito que nunca tinha acontecido. Eu sempre tive dificuldade para me concentrar e manter o foco no trabalho, mas ultimamente eu me sentia como se tivesse ligado alguma espécie de piloto automático em minha mente. Tudo fluía com rapidez e minhas ideias nunca foram tão claras. Nesse estado de espírito, provavelmente teria me irritado ao ser interrompido. Mas não com ela. Berenice tinha minha alma em suas mãos.
Quando a porta se abriu e ela entrou, foi como a luz rompendo a escuridão. Berenice veio até mim e sentou-se em meu colo, sem nada dizer. Não precisava. Ficou assim um longo tempo, enquanto eu me contorcia para continuar digitando. Não queria perder a última ideia que tive, mas suas mãos contiveram as minhas. Eu senti suas unhas me arranhando por um momento, antes que ela se virasse e me beijasse vorazmente.
Eu aspirei seu perfume e beijei-lhe suavemente o pescoço. Senti sua pele se arrepiar. Ela soltou um gemido e deixou-se envolver por minhas carícias.  Há muito que eu não causava esse efeito numa mulher e me permiti suspirar de satisfação. Rompida a trava inicial, fiquei mais ousado. Segurei-lhe pela cintura e a levantei. Ela era surpreendentemente leve e foi fácil colocá-la sentada sobre a escrivaninha, virada para mim.
Ela usava um vestido florido simples, totalmente fechado com botões na frente. Dizer que o vestido era simples talvez não fosse uma descrição muito precisa, pois o efeito nela era espetacular. Aparentemente, Berenice estava deixando para trás as roupas escuras que costumava usar e, eu esperava, indicava que se afastava dos pensamentos sombrios e depressivos que pareciam nortear seu espírito, quando a conheci.
Era também minha esperança que eu tivesse algo a ver com essa mudança. Isso era, naturalmente, uma manifestação do meu romantismo incurável, que não hesitaria em travestir-me de cavaleiro andante para socorrer minha Dulcinéia das garras dos demônios da escuridão. Eu já a amava de maneira profunda e desesperada. Não podia nem pensar na possibilidade de não ser correspondido, embora não conseguisse imaginar o porquê de seu interesse em mim. Parecíamos a antítese um do outro. Talvez seja justamente por isso, afinal de contas.
- Você me quer? – Ela perguntou, com um sorriso de gato olhando para o canário.
Eu não respondi de imediato. De repente me senti desconfortável, ao me perceber vulnerável. Ela dava as cartas, e algum canto do meu cérebro machista não se agradou daquela situação. Ela inclinou-se para trás e arqueou o corpo. O movimento esticou o tecido do vestido e pude perceber seus mamilos entumecidos. Ela também me queria, mas insistia em demarcar o território, como se qualquer coisa que pudesse acontecer entre nós acabasse por ser uma concessão sua.
- Você me quer? – Ela perguntou de novo, fitando-me com seus olhos de gata.
Berenice parecia perceber o que se passava em minha mente e se divertia com isso, mas mesmo assim, ou talvez por isso, resolvi pagar para ver.
- Sim. – Disse-lhe, acariciando seus joelhos. – Desde o primeiro dia em que a vi.
Ela roronou baixinho e abriu as pernas levemente, fazendo o vestido subir alguns centímetros.
- Então venha me tomar.
Ainda não, eu pensei. Ela gostava de provocar e ficar no comando, mas era minha vez de dar as cartas. Olhando-a nos olhos, eu desabotoei o primeiro botão e beijei suas coxas e aspirei novamente seu perfume. Era de flores do campo, mas eu não tinha identificado antes. Nesse momento, eu já estava confortável e no comando da situação. Todavia, essa constatação fez-me sentir ridículo, ao pensar que estava mais preocupado em subjugá-la do que em desfrutar do seu amor. Apesar disso, persisti no jogo de sedução que ela havia começado e desabotoei o segundo botão.
O segundo botão aberto expôs sua calcinha e eu a beijei mais em cima, quase tocando seu púbis. Sua respiração ficou entrecortada e ela me encorajou a continuar, pressionando minha nuca. Eu ignorei deliberadamente o que ela desejava e acariciei seu ventre, depois de desabotoar todo o vestido.
Os seio pequenos e delicados se revelaram para mim. Contendo minha ansiedade, eu os beijei alternadamente.
- Amo você. – Ela disse, com a voz rouca.
- Também amo você. – Disse, entre um seio e outro. Nessa altura já não tínhamos mais controle de nada, e isso pouco importava.
O que aconteceu depois foi uma mistura de ternura e sofreguidão que durou quase a noite toda. Foi o início de uma cumplicidade que eu jamais havia experimentado, em que todos os medos sumiram, todas as dores foram esquecidas e eu me senti pleno pela primeira vez na vida. Então eu soube que o que sentíamos ia muito além do prazer físico. Estávamos unidos de um modo que nossas almas se rejubilavam e se renovavam uma na outra sem cessar, incansáveis e prontas para a eternidade.
Tal era a magia que fluía entre nós, que eu teria pensado que tudo fora um sonho, se o que aconteceu naquela noite não tivesse se repetido nas noites seguintes. Assim se passavam as noites, pelo menos quando os fantasmas daquele cemitério não apareciam. Hoje, escrevendo estas linhas, me dei conta que Berenice nunca aparecia no escritório quando eles se manifestavam. Quando muito, sentia sua presença em algum lugar. Provavelmente sentada em alguma lápide a contemplar minha janela, ou a escuridão.
Nessas ocasiões, ela me dizia sempre que minha ausência a fazia olhar para o abismo. Isso me preocupava, pois era difícil perceber se estava apenas me provocando, ou cortejando o anjo negro, uma figura que eu às vezes confundia com Voz Cavernosa, pois nunca soube exatamente como classificar aquele espectro sombrio entre os fantasmas que conheci. Então lhe atribuía o papel de ceifador, num campo de almas.
Certa noite, enquanto eu escrevia, Estela apareceu sozinha. O grupo de fantasmas que sempre a acompanhava não se manifestou.
- Boa noite! – Ela saudou de um jeito cômico, pretensamente assustador. Definitivamente, Estela não levava jeito para assombração.
- Boa noite. – Respondi de um modo neutro, tentando ocultar meu desagrado. Estava esperando Berenice e sua presença iria mantê-la afastada.
- Então, vamos começar?
- Começar?
- Sim, vamos começar minha história hoje, escrevinhador, esqueceu?
Era verdade. Empossado na função de cronista dos fantasmas daquele lugar, eu havia combinado em começar a registrar seus relatos. Estela seria a primeira, depois que eu tivesse me organizado para a tarefa. As noites se passaram comigo envolto nos encantos de Berenice e eu acabei esquecendo. Bom, esquecer talvez não fosse a definição mais adequada. Na verdade, eu apenas deixei convenientemente de pensar neles. Minha doce amante das madrugadas provocava esses rompantes de irresponsabilidade em mim.
- Esquecer? Não, não! Como poderia? Esse é o projeto mais fascinante que eu poderia ter. – Disse-lhe. Nesse caso, eu não estava mentindo.
- Então, vamos começar? – Ela perguntou, com um sorriso infantil.
Devo dizer que Estela sabia ser sedutora. Se não fosse um fantasma, seria duro resistir-lhe os encantos. Eu a convidei a sentar-se à minha frente e ela o fez num movimento estudado de graça e sensualidade. Depois de um momento, ela me fitou demoradamente. Parecia estar me estudando.
- Você me acha bonita?
Antes que eu respondesse, Berenice apareceu. Seu olhar era enganadoramente sereno, mas eu sabia que ela estava furiosa. Sem me dar conta, eu percebi de repente que estava encrencado.

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