Monday, June 20, 2016

Poemas & Blues


A conversa estava se estendendo mais que o habitual. Isso era um indício seguro de que algo incomum estava acontecendo. Sua mulher não costumava demorar-se em conversas telefônicas. Geralmente era lacônica e preferia usar frases curtas e objetivas, um hábito desenvolvido no banco onde trabalhava. Eficiência era uma busca permanente em sua trajetória profissional. Uma obsessão que havia se traduzido em sucessivas promoções na sua carreira, além de um afastamento progressivo entre eles. Ao contrário dela, ele optou por abandonar uma promissora carreira na advocacia, para dedicar-se a um vago projeto literário.
A demora naquela conversa telefônica indicava algum elemento fora da zona de previsibilidade em que Luciana costumava gerir sua vida. Situações atípicas a irritavam, a menos que se referissem aos sobressaltos do mercado financeiro. Esse era um jogo que ela adorava.
Desta feita, entretanto, o seu tom de voz ligeiramente acima do normal denotava uma irritação controlada. Isso significava problemas. E se Luciana tinha problemas, ele teria mais problemas além do habitual na relação fria que mantinham. Assim apurou os ouvidos e preparou-se para uma possível tempestade.

- Mamãe, eu não tenho condições para acomodar uma adolescente aqui em casa... Não dá. Ouça mãe! Você não está me ouvindo, como sempre. Eu...
A conversa estava ficando interessante. A mãe de Ana era a única pessoa que ele conhecia capaz de sobrepor-se à prepotência natural de sua mulher. De que adolescente estavam falando?
- A Tia Clarissa terá que arrumar outra solução. Eu nem conheço direito a Letícia. Há anos que não a vejo.
Ele se lembrava de Letícia. Era uma menina magricela e tímida, filha da tia de Luciana que morava no interior. Tinha conhecido a menina por ocasião do seu casamento. A cerimônia havia reunido parentes distantes, que há muito não se viam. Foi uma bela festa, que prenunciava anos de tranquila felicidade. Não foram tantos anos assim, mas no começo era bom. Enfim, tudo acaba um dia, costumava pensar desde quando se deu conta de que seu casamento havia desandado. Apesar disso, continuaram juntos por algum motivo que ele ainda não havia desvendado.
Letícia tinha cinco ou seis anos na ocasião. Lembrava do seu olhar meigo e sonhador, e do modo como devorava os livros que ele lhe presenteava no natal na casa da sogra. No começo ele lia para ela. Gostava disso e imaginava o momento que pudesse contar histórias para o próprio filho.  Entretanto, Luciana logo se mostrou pouco inclinada à maternidade. Em consequência, aos poucos, ele se esqueceu de suas pretensões paternais. Talvez por isso continuasse a dar atenção à pequena Letícia. Depois, a menina aprendeu a ler e passou a se trancar no quarto com os livros que ganhava dele, o que lhe enchia de satisfação ao ver o gosto pela leitura se desenvolver na mente da garotinha.
Apesar da resistência de Luciana, ficou combinado de que Letícia viria morar com eles por algum tempo, em razão da necessidade de continuar seus estudos. Assim, alguns dias depois, quando ele já havia esquecido o assunto daquela conversa, a prima de Luciana chegou no início da noite.
Ele estava tão absorvido no texto que escrevia que não notou a campainha da porta tocando.
- Você poderia pelo menos abrir a porta. – Disse Luciana atravessando a sala com passos pesados, mal dissimulando a irritação.
O ruído da chave girando na fechadura pôs fim à sua concentração. Resignado, ele ergueu os olhos para a sala através da porta entreaberta. Havia lembrado que eles estavam esperando a chegada de Letícia. Estava curioso para saber em que a presença dela iria alterar a rotina da Casa.
- Você chegou, finalmente. – Ouviu Luciana dizer, saudando a recém-chegada.
Seu tom de voz era frio, mas isso não pareceu afetar a garota. Ela sorriu e entrou com a desenvoltura insolente de uma adolescente atrevida.
- Como vai Luciana?
Sua voz era suave e sem afetação. Ele gostou daquela primeira impressão auditiva. A garota seria um páreo duro para sua mulher. Isso lhe prenunciava dias muito interessantes por vir, além de tirar de cima de si o peso de aguentar sozinho o mau humor habitual de Luciana.
- Eu estou bem. E você? Espero que tenha feito uma boa viagem.
- A viagem foi chata e cansativa, mas tudo bem.
- Ótimo. Infelizmente não tenho tempo para conversar com você agora. Já estava de saída para uma reunião de negócios, mas o Miguel está em casa e lhe fará companhia até eu voltar. Você se lembra do meu marido, não lembra?
- O “tio” Miguel? Claro! Ainda tenho os livros que ele me deu.
Ao ouvir seu nome ele levantou-se e saiu relutante do seu pequeno escritório. Não queria interromper seu trabalho. Era tão difícil encontrar a motivação para escrever. Quando conseguia, costumava trabalhar até quase desmaiar de cansaço. Embora a chegada de Letícia lhe proporcionasse expectativas interessantes, fazer-lhe companhia nessa noite não estava em seus planos. Também não se sentia a pessoa mais indicada para isso, nem fora consultado antes por Luciana. O que não era nenhuma surpresa.
- Oi Letícia. Estávamos esperando você. - Disse ele amistoso, procurando disfarçar a surpresa ao ver a linda garota que ela havia se tornado.
- “Tio” Miguel. Que bom ver você, finalmente.
Ela largou a bolsa de viagem e o abraçou de um modo tão carinhoso e desprendido, que o deixou embaraçado. Ele não era seu tio de verdade, mas ela se acostumara a tratá-lo assim quando criança. Desde então, muitos anos haviam se passado e a garota que estava ali em nada lembrava a menina magricela e desajeitada que conhecera. De minissaia jeans e camiseta regata que mal continham os seios exuberantes, ela parecia ter saltado direto das páginas de Nabokov para invadir sua enfadonha existência. “Uau!” Exclamou o diabinho escondido em sua mente suja.
- Bem, vejo que vocês ainda se lembram um do outro. – Observou Luciana, com uma ponta de ironia. – Então essa é a minha deixa. Mais tarde conversamos, está bem? Agora tenho que correr.
- Claro. Tá tudo bem. – Respondeu Letícia.
- Até mais tarde. – Disse Luciana, fechando a porta atrás de si.
- Ela parece estressada, ou é minha impressão?
- Hoje ela está num bom dia. – Respondeu ele pegando sua bolsa. – Venha, vou lhe mostrar o seu quarto.
- Não queria incomodar.
- Não é incômodo nenhum, Além do mais, vai ser bom ter... Outra pessoa aqui. – Ele falou, quase engasgando no fim da frase. “Diabos!
- Que bom! Estou muito feliz por estar aqui.
Seu entusiasmo juvenil o encantava, mas preferiu não demonstrar isso abertamente. Instintivamente sentiu que lidar com Letícia sob o mesmo teto seria como caminhar em terreno desconhecido. O diabinho dava cambalhotas lá no fundo de sua mente.
- Bem, este é o seu quarto. – Disse ele, abrindo uma porta.
Ela entrou e sentou-se na cama.
- Gostou?
- É lindo. – Respondeu, balançando-se sobre o colchão. O movimento fez-lhe os seios oscilarem levemente.
Ai, ai”. Gemeu Miguel, desviando o olhar.
- Não é uma suíte, mas o banheiro fica ao lado.
- Ah! Que bom. Estou louca para tomar um banho.
Imagine ela só de meia soquete”. Disse-lhe o diabinho em sua mente.
- Fique à vontade. Depois que você tiver tomado banho e arrumado suas coisas eu farei algo para comermos. Está com fome?
- Estou faminta.
A resposta dela parecia carregada de volúpia. Pelo menos o bastante para ele achar que sua imaginação de escritor estava começando a exagerar.
Uma hora depois, ela entrou em seu escritório. Desta feita a camiseta regata foi substituída por outra alguns números acima. No lugar da minissaia, ela usava uma bermuda comprida. A roupa escondia sua silhueta e ele pensou tristonho que era melhor assim. Todavia, no fundo de sua mente, o diabinho lamentava ter sido privado daquela doce tentação anterior.
- Você trabalha em casa? – Ela perguntou olhando a confusão de livros e anotações por sobre a mesa.
- Sim. – Ele respondeu lacônico. A pergunta dela o fez pensar que sua mulher dificilmente classificaria aquilo como trabalho. Ele mesmo tinha dificuldade em considerar-se um escritor. Quando muito costumava declarar-se como redator free-lancer.
- O que você está fazendo? – Perguntou ela novamente, ignorando sua relutância em falar sobre seu trabalho.
- No momento estou pesquisando informações para um livro.
Ela arregalou os olhos ao lembrar-se.
- É mesmo! Um dia mamãe me disse que você era escritor. Você tem algum livro publicado? – Ela perguntou olhando ao redor.
- Só um – Respondeu ele pegando um livro da pequena estante que mantinha no escritório. – Este aqui.
Ela pegou o livro e olhou a capa.
- Poemas e Blues. Do que se trata?
- É um romance. Fala do relacionamento entre um homem adulto e uma adolescente. Não é uma leitura muito adequada para você.
Ela não fez caso de sua observação e folheou o livro.
- Como em Lolita?
A menção ao livro de Nabokov o surpreendeu. Achava que só adultos consumiam aquele tipo de literatura.
- Mais ou menos. Não é tão trágico e melancólico. O que escrevo está longe de ser uma obra prima, mas acho que é uma leitura divertida.
Ela arregalou os olhos numa expressão cômica e maliciosa.
- Hum... Tem sacanagem?
- Acho que sim.
- Vou ler. – Disse Letícia, sem pedir sua permissão.
Ele deu de ombros. Já a havia advertido sobre o conteúdo do livro, mas não pretendia se tornar um chato.
- Está bem, mas não conte nada à Luciana. Eu ficaria em apuros se ela descobrisse.
Letícia riu. Estava agradecida por ele não tentar tratá-la como criança.
- Bom... Agora que já exercitei meu lado corruptor de menores, vou alimentá-la. Vamos para a cozinha.
Meia hora depois ele se surpreendia ao vê-la atacar uma pizza enorme com grande desenvoltura.
- O que você quer beber? – Perguntou abrindo a geladeira. – Tem suco de laranja e Coca.
- Não tem vinho?
- Tem meia garrafa de tinto seco. – Respondeu Miguel, achando que ela recusaria. Vinho seco não era o preferido de Luciana e ele costumava beber sozinho. Também não deveria agradar ao paladar de uma adolescente.
- Ótimo! É o meu preferido.
Aquela garota não cansava de lhe surpreender. Pegou duas taças e estendeu uma para ela. Letícia levantou a sua e propôs um brinde.
- À que vamos brindar? Ele perguntou.
- A nós. Que essa noite sempre se repita. – Disse ela erguendo sua taça. Tinha uma voz aveludada e um olhar cheio de promessas.
Estaria ele imaginando coisas? “Vai fundo pamonha” Disse-lhe o diabinho.
- A nós.
Ela esvaziou a taça de uma vez. Uma gota de vinho deslizou pelos lábios carnudos e uma língua rosada a recolheu antes que caísse.
- Tem mais?
Ele lhe serviu outra taça, enquanto ela dava cabo da pizza em seu prato.
- Você estava mesmo com fome. – Disse Miguel, ainda tentando refazer-se da perturbação que sentia.
- Você é que quase não comeu.
- Tenho que me cuidar. Na minha idade, a gente só cresce pros lados.
- Que nada. Você ainda é um gatão, do jeito que eu lembrava.
Ele riu surpreendido com aquela revelação.
- Você pensava em mim?
- Muitas vezes. Você era o meu príncipe encantado, sabia? Depois não apareceu mais e partiu meu coração.
- Desculpe. – Respondeu Miguel constrangido.
Ela riu. Ergueu os braços num longo bocejo, como uma gata feliz. Os seios se ergueram com o movimento e marcaram sua silhueta. Aflito, Miguel sentiu que Letícia percebeu seu olhar, mas isso não pareceu incomodá-la. Ela baixou os braços lentamente, deixando evidentes os mamilos intumescidos sob a malha da camiseta. “Que delícia! Você não vai fazer nada, seu bundão?” Provocou o diabinho.
- Acho que você está com sono. – Ele conseguiu dizer.
- Foi um dia duro. Doze horas sacolejando naquele ônibus. Ela respondeu, contendo outro bocejo com a mão.
Ele recusou a ajuda dela para arrumar a cozinha. Letícia agradeceu a gentileza e levantou-se depois de outro bocejo.
- Nossa, acho que estou mesmo cansada.
- Vá dormir. Você se sentirá outra amanhã.
- Vou sim. Boa noite.
Ela saiu da cozinha, enquanto ele lutava com o diabinho que queria fixar os olhos no belo traseiro dela. Era inútil resistir, Letícia tinha um andar felino e transparecia sensualidade em cada movimento que fazia. Ele suspirou, mas conseguiu desviar o olhar. Não era bom, já na sua idade, ficar imaginando sacanagens com uma garota que era pouco mais que uma menina. O problema era aquele diabinho insistente.

Apesar daqueles pensamentos mal contidos, ele se esforçou para manter a compostura. Nos dias seguintes concentrou toda a sua energia na conclusão do seu mais novo romance, uma obra na qual depositava toda a sua esperança de ser reconhecido pelo público. Em razão desse esforço, tornou-se quase um recluso em seu pequeno estúdio, enquanto que Luciana passava cada vez mais tempo fora de casa. Em algum momento, ele se deu conta que ela poderia estar lhe traindo. Para sua própria consternação, percebeu que pouco se importava com essa possibilidade. Estava mais do que na hora de tomar alguma decisão sobre isso, mas seu espírito procrastinador logo se impôs e ele esqueceu o assunto. Não estava num bom momento para administrar conflitos, ele pensava sempre, sem se dar conta de que não haveria nunca um bom momento para isso. Contudo, a ideia de acabar com seu casamento estava cada vez mais recorrente em sua mente. Não por acaso, esse pensamento lhe ocorria quando via Letícia nos momentos em que não podia evitar encontrar-se com ela. A casa era grande, mas a possibilidade de não vê-la em algum momento era quase nula. O diabinho estava sempre à espreita, esperando uma oportunidade. O que não demorou para acontecer.
Numa manhã de domingo, quando ele relia o que havia acabado de escrever, Letícia entrou em seu estúdio. Ela trazia o livro que ele já tinha publicado.
- Adorei esse poema. – Disse, encostando-se na escrivaninha, de frente para ele.
O impacto daquela visão não poderia ser maior. Ela vestia uma comportada bermuda de jeans, mas compensava essa discrição com uma camiseta regata tão folgada, que seus belos seios pareciam prestes a pular para fora. O diabinho exultava.
- Posso ler? – Ela perguntou, sem se importar se ele estava ocupado ou não.
- Está bem.
Com um tom suave, ela pôs-se a recitar o poema dele. Em sua voz, as nuances dos sentimentos que quis expressar se tornaram ainda mais fortes.

Como passam rápido Os minutos dessa vida
Num momento te vejo criança,
no outro te vejo diferente a deixar pequenos sonhos para trás.
Há um momento atrás te via transparente.
O sorriso cristalino a despertar em todas as manhãs.
Agora te vejo ainda a sorrir
Mas teus sonhos viraram segredos
Que a mim não cabe descobrir.
Vejo o futuro a te sorrir
E já me é sentida a saudade
Do tempo em que ouvias minhas histórias
E pouco precisavas para ser feliz.
De vez em quando olhe para trás, porém.
Meu coração ainda te acompanha
Cada vez mais de longe, é certo.
Mas ainda com o mesmo carinho
De quando te via descobrir
Os pequenos e os grandes segredos da vida.

- Gostaria de escrever assim. – Ela disse com um suspiro.
- Por que não tenta? Você consegue.
- Acho que não. – Ela respondeu fechando o livro. – Eu já tentei, mas os resultados foram grotescos.
- Tem que tentar mais. Dificilmente algo fica bom na primeira tentativa.
- Eu sei que não tenho talento.
- O seu talento pode estar apenas esperando uma chance para aflorar. Eu posso ajudar, se você quiser.
- Sério? – Ela perguntou com um grande sorriso. Entusiasmada, Letícia sentou-se no seu colo e o abraçou bem apertado.
- Amo você! – Disse ela, com a voz rouca.
Ai! Ai! Sussurrou o diabinho
- Também amo você. – Ele disse, com os seios dela a lhe espetar suas frágeis convicções morais. – Mas talvez seja melhor você levantar.
- Chato! – Ela retrucou desfazendo o abraço. O movimento fez cair uma alça da camiseta e lhe expôs um dos seios.
Aquilo era demais para um pobre mortal, ele pensou, antes de acariciá-la. Ela gemeu baixinho, mas o som de passos a fez levantar-se num pulo e pegar o livro. Os jovens costumam desenvolver um apurado instinto de dissimulação, mas Letícia parecia ter elevado isso à categoria de arte. Um segundo depois, nada poderia denunciar o que se passou.
Logo depois Luciana surgiu. Se desconfiou de algo, nada deixou transparecer, mas permaneceu no estúdio o tempo suficiente para dissipar o clima que havia entre eles. O momento passou, pensou Miguel com tristeza.
Dias depois, numa manhã de um dia qualquer, ele pôs o ponto final em seu romance, depois de uma madrugada totalmente insone. O livro estava terminado, finalmente. Tentou dar a notícia à Luciana, mas ela o expulsou do quarto, irritada por ter sido acordada antes da hora. Isso não o afetou, todavia. Estava feliz consigo mesmo, e isso era tudo que precisava. Tudo, não. Naquele momento, um bom café cairia bem, pensou, enquanto se dirigia para a cozinha.
No meio do caminho sentiu o cheiro de café recém-coado. Quando abriu a porta, deu de cara com Letícia. Apoiada na parede próxima da janela, ela tomava uma xícara de café com uma expressão tão compenetrada, que não percebeu sua presença de imediato. Quando o viu, ela o recepcionou com o mais doce sorriso que ele já tinha visto na vida.
- Bom dia. – Ele disse todo atrapalhado, ao ver que ela usava apenas uma camiseta vários número acima do seu manequim. O diabinho acordou e o fez conjecturar se ela estava usando calcinha.
- Bom dia. – respondeu Letícia, enquanto colocava sua xícara na mesa. – Quer um café? Acabei de fazer.
- Sim, sem açúcar, por favor. – Ele disse, num esforço sobre-humano para não gaguejar.
Ela sorriu mais uma vez, sem fazer caso do seu jeito atrapalhado, mas o clima esquisito já havia se instalado. Sem saber o que dizer, ele se concentrou em saborear o café.
- Bom. Muito bom. – Disse, feliz por encontrar um assunto. – Seu café é uma delícia.
Patético” Disse o diabinho em sua mente, mas ela sorriu de novo, descontraída. Era isso que importava.
- Você está bem? – Perguntou Letícia, de súbito.
- Sim, por que?
- Eu ouvi Luciana. Aliás, a vizinhança toda deve ter escutado.
Ele ficou em silêncio. Antes era fácil lidar com aquilo, mas quando percebeu que outra pessoa presenciou a mesquinhez presente em sua vida, tudo se tornou ainda mais sórdido. De repente sentiu uma necessidade imensa de viver a vida de alguns de seus personagens. No mundo que recriava dentro de si, era tudo tão mais interessante.
- Desculpe. – Pediu Letícia. – Às vezes falo demais.
- Não se desculpe. Você me fez perceber que estou adiando uma decisão que já devia ter tomado há muito tempo.
Ela se aproximou e tocou-lhe o braço, num gesto de carinho. Ele afagou seu rosto de forma quase paternal, mas o diabinho se soltou e queria mais. Miguel a abraçou e sentiu os seios dela em seu peito. Constrangido, ele se afastou.
“Covarde!” Cutucou o diabinho, mas ele se manteve firme em seus princípios. Se Letícia percebeu o dilema moral em sua cabeça, não pareceu se importar muito. Na verdade, Miguel teve a impressão de que ela estava se divertindo. Talvez o diabinho tivesse razão, mas o momento já havia passado e ele se sentiu um tolo por não ter se soltado, como faziam seus personagens. Nas histórias que criava tudo era tão simples, até mesmo... O amor.
O som daqueles passos se aproximando já era conhecido e quebrou o que restava de encanto que ainda havia. Talvez tenha sido melhor assim. Esse foi seu último pensamento, antes que Luciana irrompesse pela porta, apressada.
- Bom dia. – Ela disse, de modo automático.
Luciana serviu-se de uma xícara de café, e somente depois do primeiro gole, se voltou para eles. Olhou-os por um momento, e voltou sua atenção para a xícara.
- Você está precisando de roupas? – Perguntou para Letícia, com um certo desdém. Posso lhe dar algumas.
- Não precisa não. Tenho o que preciso, obrigado.
- Não parece.
- Talvez não para você. – Respondeu Letícia petulante, sem se importar com a opinião de Luciana.
Diante de Miguel desfilavam alguns arquétipos e ele se sentiu tentado em observar, mas considerou o risco daquela cena se degenerar e interrompeu a troca de farpas.
- Você não está atrasada? Disse para Luciana, num tom incisivo.
Ela se voltou para ele surpreendida. Não esperava uma atitude que há muito não existia e o fitou belicosa, mas recuou.
- Vou trabalhar. Alguém tem que fazer isso nessa casa. – Disse, saindo irritada.
Alguns segundos se passaram e eles ouviram a porta da sala bater.
- Acho que você tem um problema. – Disse Letícia.
- Tenho sim, mas vou resolver.
- Bravo! – Ela retrucou batendo palmas
- Só lamento que a solução disso me afaste de você. – Ele falou com uma ousadia que não era usual. – Já tinha me acostumado com sua presença aqui. Acho que vou sentir sua falta.
Ela parou de repente. Em sua expressão havia algumas perguntas que não foram feitas. Ao invés disso Miguel escutou outra possibilidade.
- Talvez não.
Ele a olhou, não se atrevendo a assimilar o provável significado do que ela dizia. Antes, a contemplou como se quisesse fixar aquele momento na memória, de uma forma que cada detalhe de sua graciosa e atrevida presença se mantivesse para sempre em sua mente. Letícia sustentou seu olhar com uma segurança tranquila.
- Quero dizer, eu apenas imagino o que você pretende fazer, mas espero que seja isso mesmo que estou imaginando. Às vezes, tudo que nos resta é dizer adeus e seguir em frente. – Ela disse com uma surpreendente maturidade.
- Sim, acredito que sim. Há muito tenho pensado sobre isso. Minha vida com Luciana acabou.
Ela sorriu e serviu café novamente. Desta vez para ambos. Se nesse gesto havia algo implícito, Miguel preferiu não especular. O receio de estar imaginando coisas beirava o pânico, mesmo com o diabinho à espreita.
- Faça o que tiver que fazer. Não há nada que possa me afastar de você. – Ela falou de um modo casual, enquanto recolhia as xícaras e as colocava na pia.
- Acho que isso é inevitável. Luciana é a irmã de sua mãe. Sem ela, sua família certamente não vai querer que você continue aqui.
- A decisão é minha.
- Mas você ainda é menor de idade, não é?
- Sim, por mais alguns meses. De qualquer modo, quem decide isso sou eu, e não pretendo morar com ela.
- Isso eu posso compreender.
Ela deu uma risada. Era um riso como há muito ele não escutava. Naquele momento, se atreveu a sonhar que também era um menino.
Depois que lavou as xícaras, ela enxugou as mãos e se virou e ergueu os braços numa espreguiçada felina. O gesto ergueu a camisola improvisada e exibiu suas pernas longas e torneadas. Miguel teve tempo de perceber os pelinhos louros brilhando à luz da janela, antes que ela abaixasse os braços. Foi um gesto natural, sem constrangimento. Letícia não parecia se dar conta do efeito que causava, e isso também era um tormento para ele. Ela o atraía como um ímã, mas o receio de ser rejeitado, ou ser tomado por um pervertido o paralisava.
- Tenho que sair. – Ele disse, no seu jeito atrapalhado. – Tenho alguns compromissos.
- Vai mesmo? – Ela retrucou, fazendo beicinho. – Eu esperava que você ficasse em casa comigo.
Ó céus! Ele pensou, enquanto tentava conter o diabinho em sua mente.
- Por que?
Ela pegou o livro dele, que estava sobre um balcão, aproximou-se e encostou nele. De repente tudo pareceu tão natural, que o beijo sufocou todos os seus medos.
- O que você queria com o livro?
- Deixa pra lá. – Falou Letícia, com um sorriso malicioso. – Acho que podemos conversar sobre o livro depois.
Infelizmente, algumas vezes as circunstâncias conspiram contra. Eles ouviram a porta da sala abrir e Luciana entrou como um furacão ensandecido e seguiu direto para a cozinha.
- Esqueci meu celular. – Ela disse, olhando ao redor.
- Eu não entendi por que ele hesita em assumir o que sente por ela. – Falou Letícia, com o livro aberto.
Por um momento Miguel não entendeu a deixa, mas conseguiu responder.
- Ele é de uma geração mais conservadora. – Respondeu Miguel, colaborando com a dissimulação. – Nesse caso, é a culpa que restringe suas ações.
- O seu celular deve estar no quarto. Você não veio para cá com ele. – Comentou Letícia, fechando o livro. Ela estava contrariada e não se importou em demonstrar.
Luciana pareceu entender rapidamente a situação. Em seu olhar havia um brilho de fúria, mas ela se conteve e saiu da cozinha. Momentos depois, a porta da frente bateu com violência e, depois, tudo ficou em silêncio.
- Parece que seu problema já foi resolvido. – Disse Letícia.
- Parece que sim. – Ele respondeu, depois de sentar-se numa cadeira. – E agora?
A pergunta era apenas retórica, talvez para disfarçar o seu nervosismo
Ela se aproximou e sentou-se no seu colo virada para ele e enlaçou seu pescoço.
- Agora? Então... Agora você já pode me comer.
O diabinho dava cambalhotas.
- Posso?
- Pode. Mas sem culpas, está bem?
Ele não respondeu. O tempo parou e ele se esqueceu dos seus medos e de todas as suas dores.

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