Friday, December 02, 2016

Lilith - Noite adentro Capítulo I



Gosto do cheiro da noite. Há nuances sutis trazidas pelo sereno e pela leve brisa noturna, que eu não poderia perceber durante o dia, com meu sentido de olfato saturado com os odores que os homens produzem em suas atividades insanas. Felizmente eu tenho hábitos noturnos. Agora mesmo, eu inspiro o ar frio e percebo que há uma assinatura diferente entre os cheiros que veem até mim. Alguém se aproxima e estimula meus outros sentidos. Percebo que é um homem. Ele está levemente bêbado e caminha só, de forma hesitante, mas não por causa do álcool em sua corrente sanguínea. Parece apenas aturdido por algum infortúnio. Apesar da bebida ingerida pelo caminhante solitário, gosto do cheiro dele!  Quase lamento o que estou preste a fazer, mas sei que é apenas resquícios da consciência daquela que outrora fui. Logo volto me concentrar e deixo minhas presas se projetarem. É hora de fazer jus à minha natureza sanguinária, algo que ganhei em uma noite sem luar. Acreditem, eu já fui humana. Hoje, porém, faço dos humanos minhas presas favoritas. Há nisso uma espécie de justiça poética, se me permitem o escorregão melodramático.
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Sem nada perceber, o homem caminha em minha direção. Será um ataque rápido e indolor, eu penso. Às vezes gosto de ser misericordiosa, mas não sempre. Também há momentos em que a crueldade predomina em mim. Aí gosto de brincar com a presa, fazê-la exalar os odores do medo. Quando faço isso? Não sei bem, mas acho que tem a ver com os níveis de testosterona que percebo nos homens. Quando isso acontece fico quase louca. Tento prolongar o meu prazer e os caço por um longo tempo, até que se ajoelhem de pavor e implorem por suas vidas, como eu fiz um dia. Não, na verdade não fiz isso. Estava inconsciente, quando me deixaram para morrer naquele buraco. Eu teria implorado, se tivesse tido a chance, mas até isso me negaram. Por que lembro disso agora? Realmente não sei. Talvez busque sempre justificar a mim mesma o que sou, toda vez que estou preste a matar, como agora.
O incauto se aproxima e já está perto o suficiente para eu perceber suas feições. Tem uma cara ingênua, quase bonachona. O cheiro de álcool indica que havia sido uma noitada e tanto, apesar da primeira impressão que tive. É bom que tenha sido assim, pois não vejo melhor maneira de alguém se despedir deste mundo. O fato daquele pobre diabo nada saber do que está por acontecer é irrelevante. Em um minuto deixará de existir e já não lembrarei mais dele. Essa é a minha natureza.
Ele passa por mim sem perceber minha presença. Caminha murmurando coisas desconexas, mas consigo entender algumas palavras. Entre elas um nome de mulher: Cecília. Este vem acompanhado de um suspiro triste. Eu percebo que a noite não tinha sido realmente muito boa para ele, afinal de contas.
Ergo-me no ar e passo por cima de sua cabeça. Poderia atacá-lo nessa posição, mas nada faço. Estou faminta, mas por alguma razão que desconheço, eu me contenho e pouso mais adiante. Então espero por ele.
O homem finalmente me vê. Estupidamente, ele caminha em minha direção. Isso sempre acontece. Ainda sou atraente, apesar dos séculos que carrego em minha existência mundana. Confiante, eu espero ele chegar mais perto. Sou uma predadora de emboscada e não gosto de correr atrás de minhas presas. Isso sempre representa um gasto desnecessário de tempo e energia.
- Olá. – Ele cumprimenta. – Está perdida?
- Acho que sim. – Eu respondo, enquanto o observo atentamente. – Sai do hotel para comprar cigarros e não consigo voltar.
Eu ponho um cigarro na boca e ele se apressa em acender. Tem um olhar bondoso, mas isso não vai livrá-lo. Bondade é algo do qual conheço apenas o conceito, mas nunca acreditei realmente nisso.
- Esta parte da cidade é muito perigosa para uma mulher desacompanhada. – Ele disse com uma voz surpreendentemente clara. Pelo odor que exalava, eu percebi que o efeito do álcool havia baixado a níveis toleráveis para sua coordenação motora.
- Eu sei. Já estava com medo, mas felizmente o senhor apareceu.
O Homem sorriu. Era um sorriso triste, mas não me importei. Há muito que não me importo com ninguém.  Ele tem os dentes um pouco tortos, mas é bonito. Em outra época, talvez me interessasse por humano de uma forma... Não gastronômica, digamos assim.
- Eu me chamo Lucas. – Disse.
- Lilith. – Respondi à pergunta feita com o olhar.
Depois que nos apresentamos, continuamos a conversar como se fôssemos velhos amigos. Ele gostou do meu nome e o repete, como se o estivesse saboreando na ponta da língua.
- Lilith... Não é um nome comum, é?
- Acho que não. – Respondi. – Sei apenas que era o nome da primeira mulher de Adão.
- Puxa! Eu nem sabia que Adão tinha sido casado com outra, antes de Eva.
- Minha mãe o escolheu porque é um nome forte. Pertenceu a uma mulher com espírito independente, que muitos acreditam ter sido um... Demônio.
- Puxa! Dever ser uma boa história. – Ele diz, olhando-me nos olhos, como se quisesse saber meus segredos. - Em que hotel você está? Perto daqui só tem o Luxor, eu acho.
- É esse mesmo! Estava tentando lembrar o nome, obrigada.
- Que ótimo! O hotel fica na direção para onde vou. Posso acompanhá-la até a porta, se quiser.
Eu devolvo o seu sorriso, enquanto tento esboçar uma expressão agradecida. A parte do hotel era verdadeira. Eu realmente estava hospedada no Luxor, mas não gosto que a presa seja tão prestativa comigo. Isso sempre complica as coisas.
- Que bom! O senhor é muito gentil, obrigada.
Confiante, ele me dá o braço e seguimos pela rua escura. O lugar é realmente deserto e não faltará oportunidade para dar o bote e estraçalhar sua jugular. Eu tinha tempo e resolvi me divertir um pouco. Isso foi um erro. Alguém já havia me dito, há muito tempo, para nunca brincar com a comida.
Enquanto caminhávamos, meu galante cavalheiro começou a falar de si. Aparentemente, minha companhia inspirava-lhe alguma confiança. Havia algo de fraternal na forma como se conduzia. Ele não estava interessado em mim do modo como os homens costumam se interessar. Parecia um irmão mais velho conduzindo a irmã para casa depois do primeiro baile. Fiquei imaginando o que ele diria, se soubesse que tenho muitas vezes a sua idade. Essa pieguice toda já estava se tornando embaraçosa e poderia ser ruim para minha reputação, se eu tivesse uma.
- Hoje é uma noite ruim para mim. – Ele fala, de pois de um tempo caminhando em silêncio.
- É mesmo? O que aconteceu com você? – Eu pergunto, mal contendo o enfado dentro de mim.
- Nesta noite, a mulher que amo me deixou por outro. Puxa! Parece que meu coração vai explodir de tristeza.
Mais essa agora! Com tantos homens solitários perdidos na noite, eu tinha que encontrar um pateta que levou um fora. Definitivamente, isso quase me fazia perder o apetite, mas se ele começar a chorar, eu o mato assim mesmo!
- Que bom para você. – Eu digo, já aborrecida.
- Acha isso bom?
- Sim. Se ela se interessou por outro, você tem novas possibilidades a explorar. Afinal, o que ela tem de tão especial?
- Tudo. – Ele falou com um suspiro.
Eu deveria ter ficado calada e, talvez, a conversa tivesse acabado ali. Deveria, mas cometo o segundo erro da noite.
- Pode ser mais específico?
- Tudo nela me encanta! Seu sorriso meigo, seu olhar carinhoso para mim, sua boca linda. Ela é simplesmente perfeita! Eu acho que sonhei com ela a vida toda, mas infelizmente a perdi.
- Ela deve ser um fenômeno. – Retruquei, mal contendo o desdém.
Eu não tinha lembranças afetivas do tempo que era mortal. Não creio que tenha sido amada desse modo algum dia. O primeiro homem que me tomou, o fez à força e eu o matei alguns dias depois disso. Dali por diante, passei a tomar a iniciativa. Quase invejo a mulher amada por esse pateta, mas estava ficando enjoada. Cogitava livrar-me dele, quando fomos abordados pelos assaltantes. De repente a noite ficou muito animada. Eram três sujeitos mal-encarados e armados de facas. Um gordo de estatura mediana, um nanico magricela com um jeito efeminado e um homem alto e corpulento, que tinha uma expressão cruel estampada na face. O tipo de expressão que eu conhecia bem.
A noite tinha tudo para continuar aborrecida, mas eis que de repente eu estava diante de Moe, Larry e Curly.
- Ora! O que temos aqui? Um casal de pombinhos numa noite escura. – Disse o gordo, que parecia o líder.
- Deixem a gente em paz! – Grita meu destemido defensor, colocando-se entre mim e os três patetas.
Quase tenho pena dele, quando o homem corpulento se adianta e o acerta com um soco no queixo. Foi apenas um golpe, mas ele cai desacordado.  Isso foi o melhor que poderia ter lhe acontecido. Assim não veria sua dama ocasional virar um monstro de dentes e garras afiadas. Há momentos em que adoro ser o que sou. Este é um deles, mas ainda fico quieta e finjo estar com medo. Gosto do anticlímax.
- Eu quero a mulher. – Diz o homem corpulento, que tem cara de Larry e está cheio de testosterona. Já falei que adoro isso? Outra coisa que gosto de fazer é dar nomes aos sujeitos que vou matar. Sei que esse é um péssimo ato, pois torna a coisa toda muito pessoal, mas não consigo evitar. Falando nisso, ainda não pensei num nome para o Dom Quixote adormecido. Acho que pode ser esse mesmo. Combina com ele
- Eu também quero ela. – Diz o magricela. Em minha mente eu o nomeei como Curly, apesar de não ser nada parecido com um dos três patetas. Parece mais o Stan Laurel, mas esse fazia parte de uma dupla e não um trio.
- Para quê? Você nem gosta de mulher. – Retrucou o corpulento Larry com sarcasmo.
- Só quero o vestido dela.
Acho que vou matar o magricela primeiro. Ele não vai pôr as mãos sujas no meu Versace.
- Primeiro os negócios. – Retrucou o Gordo Moe com impaciência. – Depois vocês podem se divertir.
Dito isso, ele revista meu infortunado e desacordado acompanhante, até encontrar sua carteira.
- Não tem muito aqui. – Diz Moe, depois que conta o dinheiro. – Peguem a bolsa dela!
O magricela se adianta e tenta puxar minha bolsa. Não é uma Prada, mas eu gosto dela e a puxo para mim, Curly vem junto com a bolsa.
O que é isso? – Exclama ele, surpreso com o safanão que levou. – Sua vaca!
Quanta gentileza! Foi a última coisa que disse, antes que eu arrancasse seu coração e o exibisse para os outros, pulsando em minha mão. Curly ainda consegue vê-lo, antes de entrar em choque e cair fulminado.
- Mas que merda é essa? Pergunta Moe, com os olhos arregalados.
Os dois homens avançam para mim ao mesmo tempo, ambos exibindo suas facas. Quanta Valentia! Alcanço Moe primeiro. Foi fácil me esquivar de sua estocada. Para mim, os humanos se movem como se estivessem em câmara lenta. Eu adoro isso! Dá tempo de decidir o jeito mais eficiente de matar, ou simplesmente brincar com a presa. Foi fácil levantar o gordo sobre minha cabeça. Ele finalmente cai em si e percebe sua situação precária. Se debate e guincha feito um porco, até que eu esmigalho seu crânio de encontro a um poste. O corpulento Larry demonstra ser um sujeito esperto, afinal. Ao ver o que eu fiz com Moe, ele recua e tenta se virar para sair correndo. Infelizmente para ele, já é tarde.
- Então você me quer? – Perguntei, enquanto avançava. – Você me quer?
- Que espécie de monstro você é?
- Um monstro muito pior que você. – Respondo.
Apavorado, ele se vira finalmente e tenta correr. Este é o momento em que a testosterona acaba. Então, o grande macho deixa suas pretensões dominantes de lado e exala o medo por todos os poros. Isso realmente é uma delícia.
- Deixe-me em paz! – Ele ainda grita, quando alcanço seu pescoço e o forço a se virar.
- Olhe para mim. – Eu digo com a voz rouca.
- Meu Deus! – Ele grita apavorado, diante do meu aspecto, hum... Vampiresco!
Isso sempre acontece quando me transformo e deixo minha aparência humana. Imagino que tudo possa ser apavorante para minhas vítimas, mas que posso fazer? Ser bonita e glamorosa o tempo todo cansa.
- Não! Por favor... – Ele guincha, já quase sem voz.
Eu aproximo sua garganta de mim e vejo sua jugular pulsando. Isso é o bastante e já não me contenho mais. É hora do jantar!
Eu afundo meus dentes em seu pescoço e sinto o sangue jorrar em minha boca. Ele se debate, mas está bem preso em minhas garras e não há como escapar. Então sorvo até a última gota de sua essência vital. Junto com ela vem sua alma e suas memórias. Só então eu percebo que o sujeito tem uma extensa folha corrida de abusos, agressões e assassinatos. Sem muito esforço, chego à conclusão de que prestei um grande favor ao mundo, ao acabar com ele. Não que isso me importe muito, mas as vezes gosto de pensar que sou uma espécie de justiceira, ao preferir a ralé da espécie humana como principal opção do cardápio. Contudo, na maioria das vezes não tenho tempo para ser tão seletiva e altruísta. Quando a fome vem noite adentro, o instinto fala mais alto e eu caço. Simples assim.
Logo que tudo acaba e eu olho para o cenário.  Meu destemido defensor ainda permanece desacordado. Perto dele jaz o efeminado Curly, com uma expressão de incredulidade abobalhada estampada na face. Moe ficou próximo do poste, onde esmigalhei seu crânio. Somente Larry esboçou uma tentativa de fuga, por isso ficou distante dos seus companheiros. Resultado da patacoada: três mortos, um desacordado e eu ensanguentada. O sangue não é meu, claro.
O Versace ficou arruinado no confronto com o corpulento Larry. Ele se debatia demais e rasgou o meu lindo vestido. Isso, definitivamente, é o tipo de coisa que costuma deixar qualquer garota de mau humor. Como se não bastasse, preciso limpar o local e me livrar das evidências, ou minha atual identidade mortal ficará arruinada. Isso pode significar também que o Luxor já não será um local seguro para me abrigar durante o dia. Terei que dar adeus ao closet imenso que tem na minha suíte, tão protegido da luz do dia e praticamente à prova de som.
Infelizmente eu preciso começar a limpeza pelo meu Dom Quixote. Não poderia deixá-lo vivo, pois o risco era alto demais. Durante séculos, nenhum mortal soube de minha existência. Isso estava por trás do meu relativo sucesso em sobreviver e gostaria que continuasse assim.
Eu me aproximo de Lucas e minha sombra se projeta sobre seu rosto de forma sinistra, como num filme de Murnau. Nosferatu é um dos meus favoritos e gosto de imitar o conde Orlok, quando me transformo no monstro. Contudo, eu hesito no último instante ao ouvir um murmúrio.
- Lilith? Você está bem? – Ele pergunta, ainda de olhos fechados.
Eu me afasto tentando evitar que ele me veja daquela forma. Esse cuidado não tinha relação com minha necessidade de manter minha natureza oculta. Era o receio de ver a verdade refletida em seus olhos. Por que ele tinha que se preocupar comigo? Isso tornas as coisas mais difíceis para mim. Ainda confusa com minha própria reação, eu recolho minhas presas enquanto penso numa outra forma de preservar o anonimato de minha existência, sem precisar trucidá-lo.
Eu ainda era o monstro, mas parte de mim não queria fazer aquilo. Depois de tanto tempo semeando a morte, eu acho que estou amolecendo, sei lá. Coisa da idade, suponho. O fato é que eu não tinha nem mesmo o pretexto da necessidade de alimentar-me, e não gosto de matar sem justificativa. Ao drenar a vida do corpulento Larry, eu ficarei saciada por muitas noites, antes de sair novamente para a caçada noturna. Era estranho pensar assim. Conflitos de consciência nunca existiram para mim. Desde que minha própria vida havia sido drenada, eu aceitei outro tipo de existência, sem nenhuma hesitação. Afinal, não queria sair do mundo dos vivos sem acertar algumas contas, que estavam pendentes entre mim e o homem que se tornou o meu opressor. Ele foi o responsável por minha morte e, também, pela transformação no que sou hoje. Mas não quero lembra disso agora. Preciso pensar nos detalhes da situação presente, para não cometer mais erros.
Felizmente eu havia me registrado no hotel com outro nome. Uma identidade civil, digamos assim. Eu me apresentei a Lucas com meu verdadeiro nome. Era o nome de uma mulher que morrera há mais de 200 anos. Talvez esse tenha sido o maior erro que eu havia cometido nesta noite. Nem mesmo sei por que fiz isso, mas estava feito. De qualquer modo, esse detalhe poderia ocultar minha existência e salvar a sua vida. Mesmo que ele me procurasse no hotel, não me acharia. Aos olhos dele eu seria mais uma vítima da violência urbana
Faltava apenas armar a cena para representar uma briga entre os Três Patetas. Alguns detalhes eram difíceis de disfarçar aos olhos de algum policial, ou um legista mais criterioso. Felizmente esse tipo de servidor público não é comum, tão embrutecidos eles estão pela violência no cotidiano de suas vidas. É mais fácil encontrar policiais numa padaria devorando rosquinhas, do que fazendo diligências em locais de risco. Não há nada de novo nisso, acreditem em mim. Eu conheci policiais de muitas épocas e lugares.
Com uma última olhada na cena que armei, eu me despeço mentalmente de Lucas e imagino se ele um dia se daria conta do quão perto da morte esteve. Se for esperto o suficiente, não vai me procurar, nem saber do meu destino. Se tiver sorte, ele jamais me verá de novo.
Infelizmente, eu não tardaria em descobrir que ele não era tão esperto e nem tinha tanta sorte. Estava escrito que nos encontraríamos de novo, mas eu não apostaria um tostão na sua sobrevivência.
Depois de tudo aquilo, o Luxor já não servia para me abrigar da luz do dia. Certamente seria o primeiro lugar que Lucas iria pensar em me procurar. Provavelmente perguntaria por Lilith, mas não havia nenhuma hóspede com esse nome no hotel. Isso me daria alguma vantagem. Pelo menos o tempo suficiente para sumir em busca de outro lugar, antes que o dia amanhecesse.



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