Monday, December 12, 2011

A Costela de Adão


Todo dia era a mesma coisa. Ele já não agüentava mais contemplar aquela paisagem, com animais sempre tão gentis e árvores generosas cujos frutos, sempre doces e suculentos, lhe satisfaziam a necessidade. Nada lhe faltava, mas um vazio lhe corroia a alma por saber existir, ao contrário dos outros animais do Éden. E por ter consciência dessa existência, ele se perguntava vezes sem conta a razão cósmica de saber que existia. Não poderia existir apenas? Não poderia ser como uma daquelas bestas graciosas e sem alma, sem a tola obsessão de procurar respostas para questões que lhe assaltavam o espírito a todo o momento? Não! Por alguma razão que lhe escapava, ao contrário daquelas criaturas, ele sabia existir. E por saber que existia, percebia que estava só, pois nada lhe era semelhante.
Assim, por razões que não compreendia, ele acordava todas as manhãs chutando pedras e se lamentando. Tão grande era o seu tédio, que suas crises existenciais conseguiram chamar a atenção do guardião daquele paraíso. Incomodado com o que lhe parecia ser uma subversão da Ordem Divina, o anjo Gabriel resolveu que era hora de interceder e colocar ordem nas confusões mentais do homem.
- Adão, Adão... Vives há tão pouco tempo e já questionas a vontade do Criador? Tu falas na solidão de seres uma criatura única, como se a tua presunção pudesse ser a única expressão da verdade. Tu pensas demais, meu caro.
- Pensar não é minha prerrogativa? – Respondeu Adão, indignado. – Não fui criado à imagem e semelhança do Criador?
- Bem... Mais ou menos. Como cópia, tu não és lá grande coisa. – Disse Gabriel, com desdém. – Caso contrário já teria percebido que a tua consciência é uma dádiva, e não uma maldição. Estás no Éden, contudo perdes tempo procurando razões e explicações para os mistérios que permeiam a vontade Divina e ignoras a grande obra que te rodeia. Estás sendo tolo, meu caro Adão.
Adão ponderou sobre a justiça daquela admoestação, mas só por um instante. Talvez por ironia do Criador, a teimosia também fazia parte de sua complexa natureza.
- Não! Não acredito que o Criador tenha-me dotado de consciência para renegar minhas inquietações e ignorar a solidão que me sufoca, pois a razão a mim instiga. Apenas eu, por vontade Divina, sei que existir não é o bastante.
Gabriel abanou a cabeça. Sabia que o homem ainda ia lhe dar muito trabalho. Com um longo suspiro muniu-se de toda a paciência celestial de que era capaz e prosseguiu:
- Como está enganado, Adão. Existir é tudo! – Falou, quase berrando. – Do contrário, temos apenas o nada. Tu não deves tentar compreender os desígnios da vontade Divina ou correrás o risco de perder a fé, e com ela, a razão de existir. Justo aquilo que tanto procuras.
- De que me vale existir? – Perguntou o homem, obstinado. – A existência sem propósito me cansa. Prefiro voltar ao barro amorfo. Ao menos não terei essa pavorosa consciência da solidão.
Gabriel ia retrucar, mas percebeu que alimentar aquela discussão seria uma frivolidade inútil, e ele tinha mais o que pensar. O Criador ouvira as lamentações de Adão, algo que, em si, já não era muito comum. Todavia, o que mais lhe surpreendia era o fato de que o homem parecia ter uma relevância ainda maior nos desígnios Divinos. De  tal modo que lhe seriam concedidos certos privilégios antes inimagináveis para uma criatura do Éden.
- Para de lamentar-te, homem. Falas tanto dessa solidão, que o Criador resolveu atender-te. Terás a companhia que desejas.
- O que dizes? Terei a companhia de um ser semelhante a mim?
- Sim. Embora eu não consiga compreender, não me cabe questionar a vontade Divina. Algo que tu também devias aprender.
Como era de hábito, Adão ouviu apenas a parte que lhe interessava e ignorou completamente a observação de Gabriel. Sem poder conter-se, pois tamanha era sua alegria, pôs-se a dançar e saltitar como jamais havia feito diante dos olhos impassíveis do guardião do Éden.
- Sim, talvez tu tenhas motivos para regozijo, Adão. Mas acautela-te, porém. Em verdade, não se trata de uma dádiva, pois tudo já estava previsto nos desígnios do criador.
- Pois que seja. Agora sei que tenho uma razão para existir.
Gabriel levantou uma das sobrancelhas, num gesto que lhe era peculiar e antecedia uma frase carregada de ironia.
- Talvez tu tenhas em breve motivo para sentir a falta dessa solidão que agora tanto deplora.
Adão, apesar da ingenuidade inerente ao pouco tempo de sua existência, percebeu que aquela dádiva não vinha de graça.
- Por que dizes isso?
- Não importa. Agora tudo o que precisas fazer é aguardar o dia de amanhã.
- Simples assim?
- Assim é a vontade do Criador. A propósito... Se amanhã tu sentires falta de uma costela, não te preocupes com isso, pois dela não precisarás mais. – Disse Gabriel, dando por encerrada aquela conversa.
Adão ficou novamente com a pulga atrás da orelha, mas nada disse. Se aquilo era tudo, perder uma costela não era tão ruim assim, diante da perspectiva de acabar com a solidão de sua existência.
Depois daquela conversa, o dia passou lento e arrastado. No final da tarde, Adão já não cabia em si de tanta ansiedade e receava não conseguir dormir até o dia seguinte. Todavia, quando a noite chegou, ele se aconchegou uma macieira, e não tardou a fechar os olhos, caindo num sono tão profundo como nunca antes havia acontecido.
Continua...