Friday, December 30, 2016

Amor


Wednesday, December 28, 2016

Sob o Olhar das Estrelas - Capítulo 11



Alheia aos acontecimentos da noite anterior, Dona Aurora dá os últimos retoques no vestido de casamento de Letícia. Apesar de Daniel não ser o genro dos seus sonhos, ela deseja que sua filha esteja linda no dia da cerimônia. Essa alegria ninguém iria lhe tirar, pensava, quando o interfone tocou. Ela não esperava ninguém, mas levantou-se resmungando para atender.
- Boa noite. – Disse Prudêncio, quando ela abriu a porta.
- Boa noite, Prudêncio. Como vai você?
- Eu estou ótimo. Espero não estar incomodando a Senhora, há essa hora.
-Imagina! Entre, você é de casa. Depois, hoje em dia, a gente deve dar graças a Deus quando, quem bate à porta, não é cobrador, assaltante, ou membro de uma dessas igrejas que surgem todo dia.
- É verdade. Bem... Eu vim trazer o presente de casamento dos noivinhos. Eles já chegaram?

Saturday, December 17, 2016

Lilith - Noite adentro Capítulo II

Capítulo 2

Eu morri no início do século XIX. Mais exatamente no dia 21 de abril de 1808. Os acontecimentos que culminaram em meu triste infortúnio foram erigidos alguns dias antes, quando fui levada por meu pai à fazenda de Bartolomeu Bueno Ferraz, o homem mais poderoso do Arraial de São Vicente. Eu era o pagamento de uma antiga dívida, contraída a juros exorbitantes.
Com vinte e seis anos, eu era velha demais para o mercado do matrimônio. Na verdade, o destino desejado pelas mulheres de minha época não fazia parte de minhas ambições pessoais. Desde cedo, aprendi a afastar os pretendentes que se apresentavam, para o desgosto de meu pai, que veria com bons olhos qualquer um que o livrasse do ônus do meu sustento.
Por influência de minha mãe, desde cedo eu me apliquei nos estudos de filosofia e literatura. Enquanto era interna em um colégio católico em Lisboa, li todos os clássico que pude encontrar na biblioteca. Logo passei dos princípios da filosofia aristotélica para os poemas de Byron, Shelley e a literatura corrosiva de Jane Austen, com a qual eu tive o prazer de conviver durante uma curta temporada em Londres. Algum tempo depois, fui forçada a voltar para o Brasil, por conta de dificuldades financeiras de minha família, mas a convivência com a escritora inglesa deixou-me o habito de registrar os acontecimentos de minha vida em um diário. Naquele tempo, eu tinha um vago projeto de seguir seus passos na literatura.

Thursday, December 15, 2016

Sob o Olhar das Estrelas - Capítulo 10

Sentado à frente da TV, Daniel aguarda a chegada de Letícia. Ele troca de canais aleatoriamente, sem prestar atenção ao que está sendo veiculado, até que a manchete de um noticiário lhe chama a atenção.
“Navio petroleiro bate num iceberg no Alaska e provoca o maior desastre ecológico já visto na região do Ártico”. Diz o locutor
- Isso não é bom. – Murmura ele para si mesmo. – Não devia ter acontecido agora.
Irritado, Daniel desliga a TV, Justamente quando Letícia abre a porta.

Monday, December 12, 2016

Sob o Olhar das Estrelas Cap. 9

Enquanto Daniel e Paulo Botelho almoçavam no restaurante do hotel, Letícia aproveitou o horário de almoço para ler. Sentada num banco da praça que era próxima do escritório onde trabalha, ela tentou concentrar-se na leitura, mas o ruído de crianças brincando num parquinho infantil chamo sua atenção. Ela os fitou com uma expressão sonhadora e, ao mesmo tempo, triste. Já não sentia certeza nos laços que a uniam a Daniel. Os sonhos construídos juntos ao longo dos anos já não pareciam fazer sentido. Havia uma sombra se projetando sobre eles, ela sabia. Talvez, no fundo do coração, ela sempre soubesse que o amor deles havia sido assentado sobre bases muito frágeis. Algo que estava além do que conseguia compreender.
Houve um tempo, talvez alguns momentos, em que julgou conhecer Daniel como a palma de sua mão, tão adoravelmente transparente ele lhe parecia. Havia no seu olhar um brilho quase infantil que a enternecia. Quando o conheceu, ele parecia tão solitário em seu jeito desajeitado de se relacionar com o mundo, que ela sentiu que precisava protegê-lo das pessoas, mas essa sensação durou pouco e foi logo substituída por outra: a de estar, por sua vez, confortavelmente amparada por alguém que a amava e se mostrava mais forte que o mundo que ela conhecia, com todas as suas contradições.

Friday, December 09, 2016

Sob o olhar das Estrelas Cap. 8

Parte 8

Daniel nada diz. Letícia percebe que a notícia o deixou chocado e fica magoada com sua reação, mas tenta controlar-se e olha para ele em tensa expectativa.
-Tem certeza? Isto é, o bebê estava nos nossos planos, é claro. Mas nós sempre nos prevenimos até decidirmos, e você nunca falou nada sobre gravidez.
- Sim. – Ela respondeu insegura. – Exceto aquela noite na praia, lembra? Foi tudo tão repentino, que nós não lembramos de nenhuma prevenção... Você não gostou da notícia, não é?
De repente, ele se deu conta de que sua reação não era adequada e a abraçou.
- Não, não. Apenas me pegou de surpresa. Mas o nosso filho será muito bem-vindo. É que eu... Bem. Deixa pra lá.
- Fala. Agora você tá me deixando aflita.
- Não, não. Apenas me pegou de surpresa. Mas o nosso filho será muito bem-vindo. É que eu... Bem. Deixa pra lá.

Friday, December 02, 2016

Lilith - Noite adentro Capítulo I



Gosto do cheiro da noite. Há nuances sutis trazidas pelo sereno e pela leve brisa noturna, que eu não poderia perceber durante o dia, com meu sentido de olfato saturado com os odores que os homens produzem em suas atividades insanas. Felizmente eu tenho hábitos noturnos. Agora mesmo, eu inspiro o ar frio e percebo que há uma assinatura diferente entre os cheiros que veem até mim. Alguém se aproxima e estimula meus outros sentidos. Percebo que é um homem. Ele está levemente bêbado e caminha só, de forma hesitante, mas não por causa do álcool em sua corrente sanguínea. Parece apenas aturdido por algum infortúnio. Apesar da bebida ingerida pelo caminhante solitário, gosto do cheiro dele!  Quase lamento o que estou preste a fazer, mas sei que é apenas resquícios da consciência daquela que outrora fui. Logo volto me concentrar e deixo minhas presas se projetarem. É hora de fazer jus à minha natureza sanguinária, algo que ganhei em uma noite sem luar. Acreditem, eu já fui humana. Hoje, porém, faço dos humanos minhas presas favoritas. Há nisso uma espécie de justiça poética, se me permitem o escorregão melodramático.
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