Saturday, August 02, 2014

A Mulher Aranha

Depois do jantar era sempre a mesma coisa. O garoto via o pai esconder-se atrás de um jornal e se fingia compenetrado na leitura. Pouco importava se já tivesse lido o mesmo jornal de manhã, desde que não se sentisse obrigado a prestar atenção na conversa de sua mãe.
A “conversa”, na verdade limitava-se à um monólogo, quando ela se punha a desfiar um longo e enfadonho relato das coisas corriqueiras e banais do seu dia, em meio a alguns resmungos de aquiescência do marido.
Ele não saberia dizer se os pais eram felizes. Provavelmente eram, já que pareciam não pensar muito nisso. Suas vidas pareciam acompanhar a trajetória de um ponteiro de relógio, que volta ao mesmo ponto a cada ciclo. A Rotina estava impregnada no destino de ambos, como uma âncora num pequeno mundo, familiar e seguro.
Sua mãe parecia não se importar se alguém estava ouvindo o que falava. Parecia falar apenas para si mesma, como se