Thursday, October 06, 2016

Dor de Cotovelo


Lembranças da primeira vez
O que se faz quando o amor acaba? É estranho e patético pensar nisso agora, porque não estaria fazendo essa pergunta a mim mesmo, se não tivesse levado um pé na bunda. Na verdade fui eu mesmo que detonei a relação, mas só fiz isso porque sabia que não havia outro jeito e temia que a coisa desandasse para algo pior. Covardia? Um pouco, talvez. Sofrer de amor não era algo que me atraísse, apesar de flertar com a depressão e me envolver nela de forma cada vez mais frequente. Meu editor costuma dizer que escrevo melhor quando estou depressivo. Deve ser verdade, já que ele fica feliz quando eu não estou.
Agora eu estou aqui, no lugar onde acontecimentos dessa natureza costumam nos levar; a mesa do bar. Olho para o copo com uma certa repulsa. Eu gosto de um bom vinho, costumo apreciar até mesmo um conhaque, em algumas ocasiões. Todavia, nunca fui um bebedor inveterado. Nunca gostei da sensação de ficar bêbado, embora nela tenha me refugiado algumas vezes. Que atire a primeira pedra quem nunca tomou um porre e meteu o pé na jaca, mas acho que estou me dispersando. Voltemos ao motivo principal desta escrita: o fim do amor!
Para começar, acho que devo dizer que minha relação com as mulheres sempre foi complicada. Eu sempre tive uma predileção especial por amores impossíveis, a começar pela minha professora de inglês da quinta série. Esse foi um amor não correspondido, infelizmente. O fato de ela ter, na época, mais que o dobro da minha idade foi um mero detalhe. O que me magoou de fato foi saber que já era casada. Muito bem casada, na verdade. Eu não tinha a menor chance.
 Minha segunda paixão foi mais próxima de minhas possibilidades. Também era mais velha que eu, mas não muito. Ela tinha lá seus 13 anos, e era irmã do meu melhor amigo. Bem, isso de melhor amigo também era exagero, mas o fato do sujeito ter um monte de irmãs bonitas o tornava candidato a ser o melhor amigo de todo mundo. Não lembro do nome dele, só do apelido: Iquinho. Isso me leva a pensar que ele talvez se chamasse Henrique, mas não posso afirmar com certeza. De qualquer modo, esse detalhe não é importante para compreender o que vou contar.
A irmã de Iquinho, a qual me refiro agora, era Jandira. Digo era, porque nunca mais a vi, desde a época em que se passaram os fatos que estou a relembrar. Minha memória afetiva tem uma característica especial: ela alcança períodos remotos da minha vida e resgata lembranças que a maioria esquece. Isso tanto pode ser bom, como muito ruim para as pessoas envolvidas. Por isso, tomei a liberdade de trocar os nomes e mudar algumas referências.
Como já disse, meu melhor amigo na época tinha muitas irmãs. Eram todas bonitas, mas Jandira era especial, e ela sabia disso. Quero dizer, ela sabia que era bonita. E por saber disso, caprichava ainda mais nos trejeitos de sedução. Ainda lembro bem de seu olhar felino e cheio daquela malícia ainda ingênua, mas que já prometiam o céu e o inferno para mim. Jandira percebia o efeito que me causava, é claro. Até se divertia com meu jeito atrapalhado, mas na maioria das vezes era gentil e atenciosa com meu pobre coração. Pena que eu não era o único que comia na sua mãozinha delicada e graciosa.
Eu era o menor dos moleques que frequentavam a casa de Iquinho. Íamos lá todos os dias depois da aula. Quando não estávamos lá, imaginávamos pretextos para voltar. Todos sabiam o motivo disso, mas por um acordo tácito nunca falávamos a respeito. Quando chegávamos, as meninas já estavam encarapitadas em cima do muro, no lado que dava para um terreno baldio. O arsenal de brincadeiras era imenso, e duravam até o anoitecer, quando devíamos voltar para casa. Essa era uma lei não escrita de nossos pais, mas devia ser obedecida sem discussão.
A maioria das brincadeiras eram ingênuas e próprias da infância, mas algumas nem tanto e já prenunciavam a confusão de hormônios que estava por vir, armada na excitação do pecado e da culpa por transgredirmos as fronteiras do que era proibido. Algo que, a partir de certo momento, se tornaria cada vez mais frequente.
Um dia cheguei na casa do Iquinho e dei de cara com uma fila de garotos, que ia até o quarto de banho deles. Antes de continuar, preciso explicar que o tal “quarto de banho” ficava conjugado com a privada e a área de serviço, do lado externo da casa. Era uma construção tosca, feita em madeira bruta e cheia de frestas.
A fila era para ver as irmãs de Iquinho tomando banho. Ele estava cobrando ingresso pelo privilégio de alguns segundos com o olho grudado numa fresta que oferecia uma vista privilegiada. Mais que depressa entrei na fila, já emocionado com a possibilidade de ver uma garota pelada ao vivo. Eu ainda era virgem nessa área, por assim dizer. Nem mesmo irmã eu tinha.
Quando chegou minha vez, era Jandira que tomava banho. Justo ela! Coisas do destino, sei lá... O fato é que eu estava vendo minha pequena deusa nuinha em pelo. Na época, as garotas não se depilavam como hoje, não. Nada de bigodinho de Hitler na área de lazer. Elas se apresentavam ao natural, mais para Fidel de Castro do que para o líder nazista, e Jandira era pródiga nesse quesito. Aliás, tudo nela era de uma generosidade ímpar, desde aquela boca carnuda cheia de promessas, aos belos seios que desafiavam a lei da gravidade. Ora, vejam só... Depois de trinta anos ainda lembro dos detalhes!
Quis o destino que a primeira garota nua que eu viria na vida fosse Jandira. Fiquei apaixonado, é claro.  À visão daquele monumento, daquele meio sorriso cheio de malícia deixou-me quase sem fôlego. Teria sido uma ilusão, ou ela sabia que era eu que estava ali? Nunca soube com certeza, mas ela tinha consciência de que estava sendo observada, isso tinha. Ninguém, nem mesmo uma mulher demoraria tanto num banho de bacia.
Eu ficaria ali, grudado naquela fresta o dia todo, mas tinha mais gente na fila. Logo o empurra-empurra degenerou em pancadaria e atraiu a atenção da mãe de Iquinho, que distribuiu vassouradas para todo lado e acabou com a festa. Depois disso, fomos proibidos de voltar lá e o grupo se dispersou.
Logo desses acontecimentos, as aulas acabaram e fui passar as férias na casa dos meus avós, em outra cidade. Quando voltei, soube que a família de Jandira havia mudado de endereço e isso encheu o meu coração com um terrível sentimento de perda. Achei que nunca mais fosse vê-la, mas estava enganado.
Algum tempo depois, quando voltei da escola encontrei Jandira em minha casa. Estava fazendo o almoço e me recebeu com o sorriso mais luminoso que eu já tinha visto. Depois eu soube que minha mãe a contratou para ajudá-la nos afazeres domésticos durante sua gravidez. Eu nem sabia que minha mãe estava grávida, mas não me surpreendi. Isso já havia acontecido antes e se tornaria um estado recorrente na vida dela.
De tanto ver Jandira em minha casa, foi quase natural que nossa amizade se tornasse mais cúmplice. Eu nunca tinha tido coragem de me declarar para ela, mas as brincadeiras se tornaram paulatinamente mais safadas e frequentes.
Certo dia, eu estava deitado em minha cama lendo o último gibi do Batman, enquanto Jandira dava conta da louça do almoço. Eu podia ouvir o ruído dos seus afazeres na pia da cozinha, mas logo esqueci dela, entretido com a história. Depois, quando os barulhos cessaram, ela entrou no meu quarto e sentou-se na cama ao meu lado, com uma revista de fotonovelas nas mãos. Logo recostou-se no meu travesseiro para se acomodar melhor. Com o movimento a saia subiu alguns centímetros. Aparentemente ela não se deu conta, mas isso foi o suficiente para atiçar meus diabinhos da sacanagem.
Logo a mão boba estava passeando por suas coxas. Como Jandira não esboçou nenhuma resistência, a tal da mão boba se tornou mais atrevida e começou a explorar mares nunca dantes navegados, com perdão de Camões. Infelizmente, para alcançar o tesouro guardado sob sua calcinha, eu tive que me contorcer e ficar numa posição desconfortável. Mas tudo bem. Como já dizia meu falecido pai: “tudo pela arte”.
Quando Jandira sentiu minha mão deslizar sobre sua púbis, entreabriu as pernas numa aceitação tácita do que estava por vir. Essa reação acabou com qualquer resquício de insegurança que eu pudesse ter arranquei-lhe um gemido, logo abafado pela revista colocada entre os dentes. Ainda fiquei algum tempo ali, deslizando meus dedos molhados e explorando cada detalhe de sua anatomia.  Alguns minutos depois eu senti um desconforto no cotovelo e fiz menção de retirar a mão, mas ela segurou meu braço.
- Continua. – Disse baixinho. – Só mais um pouquinho.
Que eu me lembre, Jandira atingiu o orgasmo pelo menos mais duas vezes. Em cada uma delas eu quis retirar a mão, mas ela impediu. Isso me acarretou uma lesão no cotovelo que me acompanha até hoje. Esse foi o resultado de minha primeira transa, mas não me arrependo. Faria tudo de novo. Jandira mereceu cada gemido de prazer que eu lhe proporcionei. Pena que ela foi embora logo depois disso, por conta de uma discussão com sua empregadora. Eu nunca mais a vi, desde então.
Esse foi o desfecho de minha paixão por Jandira. Ela sumiu no mundo e agora estou aqui, a filosofar sobre o fim do amor. Não que lamente o término desse último relacionamento. Nada disso. Não carrego muitas lembranças da última mulher que passou em minha vida. Pelo menos não como as lembranças que tenho de Jandira.  Ela foi única, ou pelo menos é dessa forma que meu coração de menino ainda lembra dela.
Há muito tempo não pensava nela e não esperava o que aconteceu quando olhei para porta e vi uma mulher entrar. A mulher que entrou no bar estava sozinha, mas não foi isso que me chamou a atenção. Acredite ou não, caro leitor, mas ela tinha o jeito de olhar de Jandira.
Quando nossos olhos se cruzaram eu tive a certeza de que não estava sonhando. Era mesmo Jandira. Pode acontecer uma coisa dessa? Tanto pode, que ela sorriu quando me reconheceu e veio em minha direção. Seu andar cadenciado ainda era o mesmo, como seu sorriso, que o tempo também não conseguiu mudar.
- Oi! Lembra de mim?
- Jandira! – Respondi, correspondendo ao seu sorriso. Convidei-a a para sentar-se e chamei o garçom. Eu gosto de minha própria companhia. Sou um egocêntrico contumaz, mas ter a lembrança dela materializada na minha frente era muito melhor.
- Você lembra de mim, que bom! – Disse ela sentando-se. – Não costumo sair sozinha, mas não aguentava ficar mais um minuto sozinha.
Eu olhei para ela, sem saber se devia perguntar sobre o que havia acontecido, mas ela resolveu isso de forma franca e graciosa.
- Fim de caso. Não tenho nada para lamentar, mas não gosto da solidão.
O garçom trouxe nossas bebidas e eu propus um brinde ao nosso reencontro.
- Um brinde especial ao destino, com suas coincidências inacreditáveis. – Eu disse, querendo ser misterioso.
- Coincidências inacreditáveis?
- Sim. Acredite ou não, eu estava pensando em você quando entrou pela porta.
- Jura? Puxa! Eu também pensava em você, quando entrei.
Aquilo era demais para o meu coração de menino. Atarantado, olhei para o copo tentando disfarçar meu embaraço.  O líquido âmbar ainda oscilava quando eu traguei o seu conteúdo todo de uma só vez. Esse gesto impensado encheu meu estômago de borboletas. Borboletas, não! Mariposas! E das grandes, segundo eu conseguia sentir no meu maltratado estômago. Mal tive tempo de pedir licença e correr para o banheiro e colocar os bofes para fora.
Jandira apareceu logo depois e se enfiou no banheiro dos homens, sem nenhum constrangimento.
- Você está bem?
- Sim. Foi apenas um mal-estar causado por um estômago vazio e uma velha úlcera. – Respondi, conduzindo-a para fora dali, antes que fôssemos expulsos do bar.
- Você devia comer alguma coisa.
Seguindo sua sugestão, encontrei no cardápio do bar algumas opções de sopa que vieram a calhar. Eu estava envergonhado daquele vexame, mas ela pareceu não se importar.
- Então, você também estava pensando em mim? – Perguntei.
Ela sorriu antes de responder.
- Sim. Não parece incrível? Quanto tempo faz que não nos vemos?
- Você não gostaria de fazer essa conta, acredite.
Ela riu de novo. Riu com aquela boca carnuda e cheia de promessas libidinosas que nunca se cumpriram.
- Tem razão. O importante que você também estava lembrando de mim.
- Como poderia esquecer? Você foi responsável por minha primeira dor de cotovelo.
Ela me olhou com uma expressão de pesar engraçada, mas não muito sincera.
- Coitadinho. Eu maltratei você?
- Só meu cotovelo. – Respondi, curioso para saber se ela lembraria.
As lembranças daquele dia estavam nítidas em minha memória, mas talvez Jandira não lembrasse de nada. Mas ela lembrou. Não que tenha lembrado de repente. Acho que isso ocorreu aos poucos, e culminou com uma sonora gargalhada.
- Menino! Agora lembro.  – Disse, e riu de novo. – Puxa! Eu era muito má, não era?
- Um pouco, talvez. Mas as lembranças que tenho de você são as melhores que tenho comigo.
Ela pegou minha mão e sorriu novamente. Os cantos da boca carnuda tremeram ligeiramente.
- O que posso fazer para me redimir?
Foi impossível disfarçar a expressão que me ocorreu e ela gargalhou com vontade. Sempre é bom fazer uma mulher rir.
- Vamos, seu sacana. – Ela disse, antes de levantar-se.
- Para onde?
- Meu apartamento. Vamos continuar o que começamos anos atrás, mas desta vez não vamos maltratar seu cotovelo, não se preocupe.
Eu chamei o garçom para fechar a conta. Enquanto esperava, senti minha velha lesão no cotovelo direito dar sinal, mas nada disse. Desta vez o braço esquerdo teria que fazer sua parte no sacrifício.
Com isso, encontrei a resposta para a pergunta que fiz no começo desta conversa. O amor nunca acaba. Apenas muda de um objeto de desejo para outro. O que temos que fazer é lamber as feridas e esperar. Algo inacreditável pode acontecer.

1 comment:

Eduardo Jauch said...

Muito bom Gilmar. Gostei muitíssimo do conto. Mas a minha parte favorita é aquela em que a mãe da Jandira saí distribuindo vassouradas. Dei imã boa gargalhada ;)
Abraços!