Tuesday, October 05, 2021

Poemas & Blues

     


A conversa estava se estendendo mais que o habitual. Isso era um indício seguro de que algo incomum estava acontecendo. Sua mulher não costumava demorar-se em conversas telefônicas. Geralmente era lacônica e preferia usar frases curtas e objetivas, um hábito desenvolvido no banco onde trabalhava. Eficiência era uma busca permanente em sua trajetória profissional. Uma obsessão que havia se traduzido em sucessivas promoções na sua carreira, além de um afastamento progressivo entre eles. Ao contrário dela, ele optou por abandonar uma promissora carreira na advocacia, para dedicar-se a um vago projeto literário.A demora naquela conversa telefônica indicava algum elemento fora da zona de previsibilidade em que Luciana costumava gerir sua vida. Situações atípicas a irritavam, a menos que se referissem aos sobressaltos do mercado financeiro. Esse era um jogo que ela adorava.Desta feita, entretanto, o seu tom de voz ligeiramente acima do normal denotava uma irritação controlada. Isso significava problemas. E se Luciana tinha problemas, ele teria mais problemas além do habitual na relação fria que mantinham. Assim apurou os ouvidos e preparou-se para uma possível tempestade.


— Mamãe, eu não tenho condições para acomodar uma adolescente aqui em casa... Não dá. Ouça mãe! Você não está me ouvindo, como sempre. Eu...
A conversa estava ficando interessante. A mãe de Ana era a única pessoa que ele conhecia capaz de sobrepor-se à prepotência natural de sua mulher. De que adolescente estavam falando?
— A Tia Clarissa terá que arrumar outra solução. Eu nem conheço direito a Letícia. Há anos que não a vejo.
Ele se lembrava de Letícia. Era uma menina magricela e tímida, filha da tia de sua mulher, que morava no interior. Tinha conhecido a menina por ocasião do seu casamento com Luciana. A cerimônia havia reunido parentes distantes, que há muito não se viam. Foi uma bela festa, que prenunciava anos de tranquila felicidade. Não foram tantos anos assim, mas no começo era bom. Enfim, tudo acaba um dia, costumava pensar desde quando se deu conta de que algo entre eles havia desandado. Apesar disso, continuaram juntos,. por algum motivo que ele ainda não havia desvendado.
Letícia tinha cinco ou seis anos na ocasião. Lembrava do seu olhar meigo e sonhador, e do modo como devorava os livros que ele lhe presenteava, por ocasião do natal na casa da sogra. No começo ele lia para ela. Gostava disso e imaginava o momento que pudesse contar histórias para o próprio filho.  Entretanto, Luciana logo se mostrou pouco inclinada à maternidade. Em consequência, ele logo esqueceu de suas pretensões paternais. Talvez por isso continuasse a dar atenção à pequena Letícia. Depois, a menina aprendeu a ler e passou a se trancar no quarto com os livros que ganhava dele, o que lhe enchia de satisfação ao ver o gosto pela leitura se desenvolver na mente da garotinha.
Apesar da resistência de Luciana ao pedido de sua mãe, ficou combinado de que Letícia viria morar com eles por algum tempo, em razão da necessidade de continuar seus estudos. Assim, alguns dias depois, quando ele já havia esquecido o assunto daquela conversa, a prima de Luciana chegou no início da noite.
Ele estava tão absorvido no texto que escrevia, que não notou a campainha da porta tocando.
— Você poderia pelo menos abrir a porta. — Disse Luciana atravessando a sala com passos pesados, mal dissimulando a irritação.
O ruído da chave girando na fechadura pôs fim à sua concentração. Resignado, ele ergueu os olhos para a sala através da porta entreaberta. Havia lembrado que eles estavam esperando a chegada de Letícia. Estava curioso para saber em que a presença dela iria alterar a rotina da Casa.
— Você chegou, finalmente. — Ouviu Luciana dizer, saudando a recém-chegada.
Seu tom de voz era frio, mas isso não pareceu afetar a garota. Ela sorriu e entrou com a desenvoltura insolente de uma adolescente atrevida.
— Como vai, Luciana?
Sua voz era suave e sem afetação. Ele gostou daquela primeira impressão auditiva. A garota seria um páreo duro para sua mulher. Isso lhe prenunciava dias muito interessantes por vir, além de tirar de cima de si o peso de aguentar sozinho o mau humor habitual da mulher.
— Eu estou bem. E você? Espero que tenha feito uma boa viagem.
— A viagem foi chata e cansativa, mas tudo bem.
— Ótimo. Infelizmente não tenho tempo para conversar com você agora. Já estava de saída para um compromisso, mas o Miguel está em casa e lhe fará companhia até eu voltar. Você se lembra do meu marido, não lembra?
— O “tio” Miguel? Claro! Ainda tenho os livros que ele me deu.
Ao ouvir seu nome ele se levantou e saiu relutante do seu pequeno escritório. Não queria interromper seu trabalho, mas aquela era uma ocasião especial.
— Oi Letícia. Estávamos esperando você. —  Disse ele amistoso, procurando disfarçar a surpresa ao ver a linda garota que ela havia se tornado.
— “Tio” Miguel! Que bom ver você, finalmente.
Ela largou a bolsa de viagem e o abraçou de um modo tão carinhoso e desprendido, que o deixou embaraçado. Ele não era seu tio de verdade, mas ela se acostumara a tratá-lo assim, quando criança. Desde então, muitos anos haviam se passado e a garota que estava ali, em nada lembrava a menina magricela e desajeitada que conhecera. De minissaia jeans e camiseta regata que mal continham os seios exuberantes, ela parecia ter saltado direto das páginas de Nabokov, para invadir sua enfadonha existência. “Uau!” Exclamou o diabinho escondido em sua mente suja.
— Bem, vejo que vocês ainda se lembram um do outro. — Observou Luciana, com uma ponta de ironia. — Então essa é a minha deixa. Mais tarde conversamos, está bem? Agora tenho que correr.
— Claro. Tá tudo bem. — Respondeu Letícia.
— Até mais tarde. — Disse Luciana, fechando a porta atrás de si.
— Ela parece estressada, ou é minha impressão?
— Hoje ela está num bom dia. — Ele respondeu, enquanto pegava sua bagagem. — Venha, vou lhe mostrar o seu quarto.
— Não queria incomodar.
— Não é incômodo nenhum, Além do mais, vai ser bom ter... Outra pessoa aqui. — Ele falou, quase engasgando no fim da frase. “Diabos!”
— Que bom! Estou muito feliz por estar aqui.
Seu entusiasmo juvenil o encantava, mas preferiu não demonstrar isso abertamente. Instintivamente sentiu que lidar com Letícia sob o mesmo teto seria como caminhar em terreno desconhecido. O diabinho dava cambalhotas lá no fundo de sua mente.
— Bem, este é o seu quarto. — Disse ele, abrindo uma porta.
Ela entrou e sentou-se na cama.
— Gostou?
— É lindo. — Respondeu, balançando-se sobre o colchão. O movimento fez-lhe os seios oscilarem levemente.
Ai, ai. Gemeu Miguel, desviando o olhar.
— Não é uma suíte, mas o banheiro fica ao lado.
— Ah! Que bom. Estou louca para tomar um banho.
Imagine ela só de meia soquete”. Disse-lhe o diabinho, em sua mente.
— Fique à vontade. Depois que você tiver tomado banho e arrumado suas coisas eu farei algo para comermos. Está com fome?
— Estou faminta.
A resposta dela parecia carregada de volúpia. Essa percepção o fez achar que sua imaginação estava começando a exagerar. Precisava conter o seu diabinho, antes que acabasse por ceder à tentação que já se imiscuía em sua mente.
Uma hora depois, ela entrou em seu escritório. Desta feita a camiseta regata foi substituída por outra alguns números acima. No lugar da minissaia, ela usava uma bermuda comprida. A roupa escondia sua silhueta e ele pensou, tristonho, que era melhor assim. Todavia, no fundo de sua mente, o diabinho lamentava ter sido privado daquela doce tentação anterior.
— Você trabalha em casa? — Ela perguntou olhando a confusão de livros e anotações por sobre a mesa.
— Sim. — Ele respondeu lacônico. A pergunta dela o fez pensar que sua mulher dificilmente classificaria aquilo como trabalho. Ele mesmo tinha dificuldade em considerar-se um escritor. Quando muito, costumava declarar-se como redator freelancer.
— O que você está fazendo? — Perguntou ela novamente, ignorando a relutância dele em falar sobre seu trabalho.
— No momento estou pesquisando informações para um livro. — Ele respondeu, enquanto ajustava o volume do blues que tocava em seu computador.
Ela arregalou os olhos ao lembrar-se.
— É mesmo! Um dia mamãe me disse que você era escritor. Você tem algum livro publicado? — Ela perguntou olhando ao redor.
— Só um — Respondeu ele pegando um livro da pequena estante que mantinha no escritório. — Este aqui.
Ela pegou o livro e olhou a capa.
— Poemas e Blues. Do que se trata?
— É um romance. Fala do relacionamento entre um homem adulto e uma adolescente. Não é uma leitura muito adequada para você.
Ela não fez caso de sua observação e folheou o livro.
— Como em Lolita?
A menção ao livro de Nabokov o surpreendeu. Achava que só adultos consumiam aquele tipo de literatura.
— Mais ou menos. Não é tão trágico e melancólico. O que escrevo está longe de ser uma obra prima, mas acho que é uma leitura divertida.
Ela arregalou os olhos numa expressão cômica e maliciosa.
— Hum... Tem sacanagem?
— Acho que sim.
— Vou ler. — Disse Letícia, sem pedir sua permissão.
Ele deu de ombros. Já havia advertido sobre o conteúdo do livro, mas não pretendia se tornar um chato para ela.
— Está bem, mas não conte nada à Luciana. Eu ficaria em apuros se ela descobrisse.
Letícia riu. Estava agradecida por ele não tentar tratá-la como criança.
— Bom... Agora que já exercitei meu lado corruptor de menores, vou alimentá-la. Vamos para a cozinha.
Meia hora depois ele se surpreendia ao vê-la atacar uma pizza enorme com grande desenvoltura.
— O que você quer beber? — Perguntou abrindo a geladeira. – Tem suco de laranja e Coca.
— Não tem vinho?
— Tem meia garrafa de Cabernet. — Respondeu Miguel, achando que ela recusaria. Vinho seco não era o preferido de Luciana e ele costumava beber sozinho. Também não deveria agradar ao paladar de uma adolescente.
— Ótimo! É o meu preferido.
Aquela garota não cansava de lhe surpreender. Pegou duas taças e estendeu uma para ela. Letícia levantou a sua e propôs um brinde.
- À que vamos brindar? Ele perguntou.
- A nós. Que essa noite sempre se repita. – Disse ela erguendo sua taça. Tinha uma voz aveludada e um olhar cheio de promessas.
Estaria ele imaginando coisas? “Vai fundo pamonha” Disse-lhe o diabinho.
— A nós.
Ela esvaziou a taça de uma vez. Uma gota de vinho deslizou pelos lábios carnudos e uma língua rosada a recolheu antes que caísse.
— Tem mais?
Ele lhe serviu outra taça, enquanto ela dava cabo da pizza em seu prato.
— Você estava mesmo com fome. — Disse Miguel, ainda tentando refazer-se da perturbação que sentia.
— Você é que quase não comeu.
— Tenho que me cuidar. Na minha idade, a gente só cresce para os lados.
— Que nada. Você ainda é um gatão, do jeito que eu lembrava.
Ele riu surpreendido com aquela revelação.
— Você pensava em mim?
— Muitas vezes. Você era o meu príncipe encantado, sabia? Depois não apareceu mais e partiu meu coração.
— Desculpe. — Respondeu Miguel constrangido.
Ela riu. Ergueu os braços num longo bocejo, como uma gata feliz. Os seios se ergueram com o movimento e marcaram sua silhueta. Aflito, Miguel sentiu que Letícia percebeu seu olhar, mas isso não pareceu incomodá-la. Ela baixou os braços lentamente, deixando evidentes os mamilos intumescidos sob a malha da camiseta. “Que delícia! Você não vai fazer nada, seu bundão?” Provocou o diabinho.
— Acho que você está com sono. — Ele conseguiu dizer.
— Foi um dia duro. Doze horas sacolejando naquele ônibus. Ela respondeu, contendo outro bocejo com a mão.
Ele recusou a ajuda dela para arrumar a cozinha. Letícia agradeceu a gentileza e levantou-se depois de outro bocejo.
— Nossa, acho que estou mesmo cansada.
— Vá dormir. Você se sentirá outra amanhã.
— Vou sim. Boa noite.
Ela saiu da cozinha, enquanto ele lutava com o diabinho que queria fixar os olhos no belo traseiro dela. Era inútil resistir, Letícia tinha um andar felino e transparecia sensualidade em cada movimento que fazia. Ele suspirou, mas conseguiu desviar o olhar. Não era bom, já na sua idade, ficar imaginando sacanagens com uma garota que era pouco mais que uma menina. O problema era aquele diabinho insistente

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