Monday, February 21, 2011

O Julgamento de Sócrates

Este sketch foi escrito por solicitação de uma turma de formandos de uma faculdade de direito. A intenção era representá-lo como parte da cerimônia de formatura. Infelizmente, por circunstâncias de tempo e recursos, a idéia foi abandonada. O texto, porém, ainda existe e aguarda uma oportunidade de sair da gaveta.

O Julgamento de Sócrates
Gilmar C. Milezzi
Personagens:
Sócrates
Meletus, o acusador
Arauto
Epistatês (Presidente do conselho e da assembléia)
Dikasta 1 (membro do corpo de jurados)
Dikasta 2
Dikasta 3
Discípulo
Carrasco



Cenário: Colunas gregas (projetadas ou pintadas em pano de fundo) e púlpitos para o epistatês e conselheiros. Banco para o acusado.

O arauto bate o cajado no chão e dá início a sessão.

Arauto:
Digníssimo Epistatês e membros desta Dikasteria: Meletus, o poeta vem a vossa presença apresentar, libelo contra Sócrates, filho de Sofrônico, escultor, e de Fenáreta, parteira, o qual acusa – juntamente com Anito e Licon – de desrespeito aos deuses, violar as leis e a tradição e corromper a juventude ateniense. Como sabeis vós, é deste Conselho a prerrogativa de deliberar sobre a natureza dessa acusação, bem como a justa punição, se culpado for assim considerado o acusado.

Que entrem acusador e acusado, e que os desígnios divinos favoreçam aquele que estiver com a verdade.

Meletus e Sócrates entram simultaneamente, um de cada lado do palco.

Epistatês:
Meletus, cidadão de Atenas, que razões tu apresentas para trazer Sócrates diante desta Dikasteria?

Meletus
Digníssimos conselheiros, é público e notório que este cidadão, valendo-se de sua ascendência sobre os jovens de Atenas, há muito os incita a questionar nossos costumes e nossas tradições, a duvidar de nossos deuses em favor daquilo que ele próprio acredita como sendo a verdade e a essência das coisas. Este homem, cidadãos, a quem muitos atribuem uma sabedoria divina é, na verdade, um blasfemador, cujo único propósito é semear a discórdia e a desordem, pondo em risco os pilares onde se assentam a glória e a prosperidade de Atenas. Este homem, dito o sábio dos sábios, é um traidor! E para tal delito, não peço menos que a pena de morte.

Epistatês
Que dizes tu, filho de Sofrônico? Dize-nos algo que possa refutar tais considerações, como prescreve a Lei.

Dikasta 1
Sim, responde-nos, ó sábio dos sábios, mas cuidado com tuas palavras. Já viste onde elas podem levar-te.

Sócrates
Ora, cidadãos... Como pode um único homem se arvorar em sábio, contrariando o pensamento de muitos? Como ele pode contrariar todo o peso de nossas tradições, a forma como educamos e preparamos nossos jovens para o exercício da cidadania e a continuação de nosso modo de vida? Como pode esse suposto sábio contrariar a vontade dos deuses? Eu nada sei, na verdade. Imputam a mim uma sabedoria que não possuo, apenas por que minhas perguntas não encontram respostas satisfatórias vindas de vós.

Meletus
Eu vos digo veneráveis membros deste Conselho, esse homem é um perigo para a Atenas. Oculto nesse jogo de perguntas, seu pensamento instiga a indisciplina e a desordem nas jovens mentes atenienses. Seus questionamentos fazem nossos jovens duvidarem de tudo que já existe, na frívola busca daquilo que considera como sendo a verdade.

Sócrates
Que sabes tu da verdade, ó poeta? Aquela baseada em sofismas? Tua verdade se traduz em falácias proferidas como argumentos de uma retórica destinada a sufocar as vozes discordantes. Tua verdade atende aos teus interesses e os daqueles que te são iguais e nada mais.

Meletus
Ouçam cidadãos, o instrumento do mal, subversor da juventude, que não acredita nos deuses e inventa as próprias divindades.

Dikasta 2
Afirmas então, Sócrates, que nossas tradições, crenças religiosas e costumes não são adequados ao desenvolvimento intelectual dos cidadãos gregos?

Sócrates
Digo-vos apenas que aquilo que dizem os sofistas nada acrescenta ao espírito da juventude, pois sua retórica faz o erro e a mentira valerem tanto quanto a verdade. Ao valer-se de falsos argumentos atribuem a si mesmos a qualidade de portadores da vontade dos deuses, quando o que dizem favorece apenas aquilo que a eles interessa.

Dikasta 3
Como então, ó sábio, dizes que vivemos num mundo de mentiras? E é isso que ensinamos aos nossos jovens?

Sócrates
Ora, o que é ensinado a juventude grega? Os sofistas apresentam-se como mestres da oratória, e afirmam ser possível ensinar tal arte aos jovens para que se tornem bons cidadãos. No que consiste tal arte? A arte da persuasão, eu vos digo. Assim, os jovens aprendem a defender uma opinião, e depois a contradizê-la com outros argumentos, se assim lhes for oportuno. Não lhes é ensinado o compromisso com a verdade, mas apenas a ambição de ganhar uma discussão a qualquer custo. Longe de desenvolver as jovens mentes gregas, essa prática apenas corrompe e afronta seu espírito, sob os auspícios daquilo que supostamente dizem os deuses.

Meletus
Percebem os sentidos de suas palavras deste homem, cidadãos? O sábio renega até o que os oráculos dizem da vontade dos deuses.

Sócrates
Ora! A vontade dos deuses! Como posso ser culpado de desrespeitar os desígnios divinos, se a eles me reporto em tudo o que faço? Estou persuadido de que não há para vós maior bem na cidade que esta minha obediência aos deuses. Na verdade, não é outra coisa o que faço nestas minhas andanças a não ser persuadir a vós, jovens e velhos, de que não deveis cuidar só do corpo, nem exclusivamente das riquezas, e nem de qualquer outra coisa antes e mais fortemente que da alma, de modo que ela se aperfeiçoe sempre, pois não é do acúmulo de riquezas que nasce a virtude, mas do aperfeiçoamento da alma é que nasce tudo o que mais importa ao homem e ao Estado.

Meletus
Ouviram cidadãos? O sábio reprova até aqueles que buscam a prosperidade. Talvez devêssemos renegar tudo o que construímos e toda a história de Atenas para alcançarmos seus ideais virtuosos. Talvez até, devêssemos renunciar a própria natureza do homem para satisfazê-lo.

Sócrates
A natureza do homem? Tocas num ponto muito interessante, ó poeta. Talvez possa nos dizer o que é o homem?

Meletus
Vós que sabeis tudo, não o sabes?

Sócrates
Eu nada sei. Por isso vos perguntei. Acaso julga que é o homem aquilo que vedes? Por isso vós dais tanto valor às coisas.

Epistatês
Falais por enigma, filho de Sofrônico, acaso zombais desta assembléia?

Arauto
Cuidado, sábio! Por que insistes em trilhar esse caminho temerário?

Sócrates
Julgam que zombo de vós quando apenas quero partilhar daquilo que penso. Uma coisa é o instrumento que se usa e a outra é o sujeito que usa o instrumento. Ora, o homem usa o seu corpo como instrumento, o que significa que a essência humana utiliza o instrumento, que é o corpo, não sendo, pois, o próprio corpo. Assim, à pergunta "o que é o homem?", não seria lógico responder que é o seu corpo, mas sim que é "aquilo que se serve do corpo", que é a psyché, a alma, a essência humana?

Dikasta 1
Falais do homem como semelhante aos deuses.

Dikasta 2
Blasfêmia!

Dikasta 3
Não há limites para vossa arrogância?

Arauto
Pobre Sócrates! Estais aqui para defender-vos das acusações, mas insistes em vossas idéias absurdas. Isso será a vossa ruína, não sabeis?

Epistatês
Foste acusado de traidor, de corromperdes a juventude, zombardes dos deuses e de nossas tradições. Estais aqui para defender-vos dessas acusações. Pois, se defendais, ou sofre as conseqüências de vossos atos.

Sócrates
Cidadãos de Atenas, como eu posso defender-me se não reconheço tais acusações? Reconhecê-las Seria trair meu espírito e renegar minhas convicções. Aqueles que me acusam servem-se daquilo que deploro: o jogo de palavras vazias, sem nenhum sentido de verdade. Combatem minhas idéias, mas não o fazem com argumentos próprios. Usam de artimanhas e subterfúgios vis para calar minha voz, pois é o que realmente temem. Eles não querem a verdade porque ela não lhes serve. Não querem que se mude o modo de pensar porque algo lhes pode ser subtraído.
Reconhecer tais acusações, ilustres membros desta dikasteria, implicaria em deixar de pensar, em desistir de minha humanidade e insultar os deuses. Ora! Acusam-me os ímpios de blasfêmia, mas não hesitam em se insurgir contra a vontade divina, que a mim concedeu o desejo de buscar a verdade do ser e das coisas que estão além do que percebem.

Meletus
O sábio confunde como sua a vontade divina, e se enreda em sua própria teia. Nada do que diz demonstra sua inocência. O que dizem cidadãos de Atenas? Devemos continuar a tolerar esse blasfemador, inventor de seus próprios deuses?

Epistatês
Que este conselho delibere e declare o justo veredicto.

Dikasta 1
Culpado!
Dikasta 2
Culpado!
Dikasta 3
Culpado!

Todos em coro
Culpado

Arauto
Que fizeste sábio? Cavas-te a própria ruína! Tua sabedoria de nada valeu para salvar-te. Agora vão calar tua voz, pobre homem tolo.

Epistatês
Que os membros desta dikasteria deliberem agora sobre a pena a ser imputada ao acusado.

Sócrates
Se for para aplacar vossos espíritos, pagarei de bom grado a multa que me for infligida.

Arauto
Cala-te Sócrates! Já não conseguiste a tua ruína? Por que insiste em provocar a cólera daqueles que te condenam?

Dikasta 1
Ainda zombais desta Dikasteria? Que a morte cale vossa língua ferina.
Dikasta 2
Morte!
Dikasta 3
Morte!

Epistatês
Sócrates, filho de Sofrônico, escultor, e de Fenáreta, parteira. Foste considerado por esta dikasteria. Culpado das acusações formuladas por Meletus, Ânito e Licon. A pena deliberada para teu delito é a morte, a ser cumprida pela ingestão da cicuta, como determina a Lei, a ser cumprida após o retorno da nau que se encontra em Delos, em viagem votiva.

Escurece o palco.

Ilumina-se o palco. Sócrates está só com um discípulo.

Discípulo
Mestre, a nau com vosso fatídico destino se aproxima. É hora de sair-vos daqui, pois tudo já foi arranjado e o tempo urge.

Sócrates
Uma fuga, dizei-me vós? Não! Não fugirei ao que me aguarda.

Discípulo
Mas mestre...

Sócrates
Não vou dar a razão àqueles que me condenaram. Seria como corromper minha alma e atentar contra minha própria dignidade.

Discípulo
De que servirá tua morte, mestre? De que valerá a tua voz para sempre silenciada? Vinde comigo, mestre.

Sócrates
Justamente por essas questões não fugirei ao destino que me foi imposto, pois seria renegar minhas idéias. Elas permanecerão na mente dos homens como um farol na escuridão, e hão de levantar novas questões, cuja resposta os levará descobrir que, ainda assim, nada sabem, pois tolo será o homem que pensar que sua busca terminou.

Discípulo
E a tua vida, mestre? Tua vida nada vale?

Sócrates
Minha vida pertence aos deuses. É apenas uma das muitas vidas que tive e de outras que advirão. Que ela sirva aos homens que continuarão o árduo caminho de conhecer a si mesmo, a despeito do que dizem os insensatos.

A silhueta de uma nau grega é projetada ao fundo.

Discípulo
A nau de teu destino se aproxima. Imploro que reconsideres, mestre. Como ficarão aqueles que seguem teu pensamento?

Sócrates
Meus pensamentos apenas mostram o início de uma longa jornada. É de vós, agora, a prerrogativa de segui-la. Entrementes, meu espírito permanecerá entre vós, relembrando-vos eternamente das questões que não foram respondidas. Será meu legado e vossa maldição. Cuideis para que vossas indagações cheguem às gerações futuras, pois muito há para ser respondido ao homem, de si próprio.

Discípulo
Ouço os passos do carrasco, mestre. Teu destino está selado.

Entra o carrasco trazendo o veneno

Carrasco
É chegada a hora, sábio, de encontrardes com os deuses que tanto desdenhais.

Sócrates
Meu desdém é somente para os homens que se apropriam das palavras divinas. Os deuses estão acima dessas questões mesquinhas.

Carrasco
Seja como for, cumpra o teu destino.

Sócrates pega a terrina com a cicuta e a bebe serenamente.

Carrasco
Está feito.

Sócrates agoniza enquanto o palco escurece. O arauto entra em cena e bate o cajado

Arauto
Assim se cumpre o trágico destino do sábio. Cala-se sua voz para que suas convicções se mantenham na mente dos homens, como um espírito errante, eternamente a formular questões para serem respondidas em busca da verdade.



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