Thursday, February 25, 2016

Sob o olhar das Estrelas - Capítulo 1


A noite, sem nuvens no céu escuro, oferecia uma oportunidade excepcional para ele. As estrelas estavam lá, repousando como brilhantes no veludo escuro da Via Lactea. Talvez algo interessante acontecesse, e tivesse a sorte de ter sua luneta apontada na direção certa. Mas ele não estava sozinho, e a garota que o acompanhava tinha outras ideias sobre o que fazer numa noite apenas pela luz das estrelas.
- Pô! Daniel. Até quando vai querer ficar aí, olhando para cima?
Ele olhou para ela e sorriu ao contemplar seu belo rosto com expressão indignada. Às vezes não entendia porque Letícia lhe tinha tanto afeto, mas dava graças a Deus todos os dias por isso. Sem ela, a terrível solidão que consumia sua alma seria insuportável.
- Só mais um pouco, tá?
- Nós já estamos aqui há três horas. Você não se cansa disso?


- Pensei que você também gostasse.
- Uma vez ou outra até que é divertido. Mas você só pensa nisso. Afinal de contas, por que você tem tanto interesse em disco voador?
Ela estava realmente aborrecida, e isso o fez perceber o quanto sua mania podia ser irritante. Mesmo assim insistiu mais um pouco. Tinha o pressentimento que aquela noite seria especial e algo aconteceria. Essa era a esperança que se renovava todos os dias, depois de anos perscrutando o céu. Nem mesmo ele saberia dizer a razão do seu interesse por naves alienígenas e seres extraterrestres. Talvez fosse apenas um sonho de menino teimando em permanecer na mente do adulto que ele havia se tornado, ou talvez porque ainda não fosse o adulto que julgava ser. Ele tinha consciência do Peter Pan que havia em seu coração, e que teimava em virar as costas para o mundo dos adultos.
- Eu tenho esse interesse por discos voadores desde criança. Não sei lhe dizer exatamente a razão disso, mas algo me aconteceu quando eu era criança.
As imagens surgiram em sua mente, tão nítidas quanto seriam se tudo tivesse acontecido há alguns minutos.
- Eu tinha uns quatro ou cinco anos. Fiquei perdido no mato que existia atrás do orfanato onde eu morava. Era final de tarde, e eu não conseguia achar a trilha que me levaria de volta. Quando a noite chegou, eu fiquei apavorado e comecei a chorar. Então surgiram algumas bolas de luzes, não sei de onde. Eram coloridas e pulsavam suavemente, como se quisessem me acalmar. Aí, ouvi vozes em minha cabeça. Elas falavam que me levariam para casa. As vozes foram conversando comigo o tempo todo. Diziam que eram visitantes de outro mundo, e um dia voltariam para levar-me para um passeio pelas estrelas. Eu nunca esqueci disso, mas as vezes acho que tudo foi apenas um sonho.
- Deve ter sido. Que coisa mais arrepiante! Agora, podemos ir embora?
- Só mais pouquinho.
- E eu pesando que a gente ia namorar...
- Mas a gente tá namorando, não tá?
A garota olhou para ele, sem saber se deveria zangar-se ou rir. Na dúvida, achou que era melhor não abrir mão de suas convicções. Sabia que a relação que eles tinham correria um sério risco, se continuasse a ceder ao que considerava um reflexo tardio de impulsos juvenis do namorado.
- De que jeito? Com você grudado nessa coisa, olhando pro céu?
- Espere só mais um pouquinho.
- De jeito nenhum! Se você não quer ir embora, eu vou sozinha. Cansei desta besteira!
Mesmo em dúvida se estava fazendo a coisa certa, Letícia não cedeu e levantou-se, disposta a ir embora. Aquilo teria que acontecer um dia, ela pensou. Melhor que fosse naquele momento, quando ainda tinha um pouco de coragem.
Sem alternativa, Daniel fecha o tripé da luneta e sai correndo atrás dela.
- Ei! Espere aí. – Grita inutilmente. – Pô! Que saco!
- Vá pro inferno! – Grita Letícia em resposta.
Então ele percebeu que ela estava falando sério e correu para alcançá-la.
- Tá bom! Tá bom! Desculpa, vai.
Daniel não percebeu, mas Letícia suspirou aliviada por ele ter cedido. Mesmo assim, ela não aliviou a pressão.
- Só depois que você guardar toda essa tranqueira.
Sem ter como discutir, ele cede e guarda a luneta e seus apetrechos no porta-malas do carro.
- Pronto! Não vamos mais brigar, tá bem?
- Tá!
- Então entra no carro.
Já dentro do carro, eles olham para a linha do horizonte, bem onde o mar encontra o céu estrelado. Daniel pega a mão de Letícia e jura silenciosamente que jamais vai decepcioná-la outra vez. Seus olhares se encontram e tudo volta a ser como sempre foi entre eles. Emocionado, ele sente que nada no universo vai mudar isso.
- Vamos embora? – Pergunta Letícia.
- Não... Ainda não. – Ele responde, fazendo um esforço para disfarçar a emoção.
- Hum... Para que essa boca tão grande, seu lobo?
Ele ri a puxa para si.
- Adivinha, Chapeuzinho.
- Uau!
Enquanto os jovens namorados cedem ao chamado dos seus corações, um risco luminoso corta o céu estrelado.

No comments: