Sunday, May 04, 2014

O Bosque dos Lamentos

O Bosque dos Lamentos

- Veja! – Exclamou o saci, apontando uma árvore. – Estamos entrando no bosque dos lamentos.
Era uma árvore cheia de galhos retorcidos e de aspecto ameaçador.  Atrás dela outras árvores apareciam. Cada uma de aspecto mais sombrio que a anterior, que dava ao bosque uma atmosfera lúgubre em plena luz do dia.
- Que árvores feias! Pensei que ia encontrar um bosque bonito.
- Isso é só o começo. – Respondeu Icas. - Este lugar é tenebroso e assustador, até mesmo para um saci.
- Fala sério! São apenas árvores maltratadas pelo tempo.
- Talvez para você, que é humana e não percebe o que se encontra além do que os olhos podem ver. Para mim este lugar é tudo o que a lenda diz.

Gabriela não se deixou levar pelos lamentos do saci, mas percebeu que a sua montaria estava ficando inquieta.
- O que está acontecendo?
- Vozes! Está ouvindo?
Antes que ela respondesse, uma ventania surgiu e passou uivando entre os galhos das árvores, que se agitavam como se quisessem sair do lugar.
- É só o vento passando entre as árvores, eu acho.
- Não. São vozes, sim. Ouça!
Gabriela achou bobagem, mas procurou prestar atenção no silvo do vento. Ainda não achou nada de estranho, mas subitamente distinguiu algumas palavras entre o ruído sibilante da ventania.
-... Ela voltou... Maldita... E traz consigo o ceifador de almas... – Dizia um coro de vozes sobrenaturais.
- Credo! – Exclamou, sentindo um arrepio. – De quem será que estão falando?
- Acho que é... De você. – Respondeu o saci.
- Eu? Mas quem é o ceifador de almas?
- Quem pode saber do que essas almas amaldiçoadas estão falando?
- Será que os fantasmas não estão falando de você? – Perguntou ela de repente.
O saci não respondeu. Temia que isso pudesse acontecer naquele lugar e não era chegada a hora de revelar-se. Entretanto, o impasse se resolveu por si mesmo. A montaria pôs-se a corcovear e os atirou no chão, mesmo com o rosnado de advertência do Cão das Sombras. Depois o paquiderme saiu do bosque em disparada, como se estivesse sendo perseguido por alguma força maligna.
O cão rodeava Gabriela e rosnava para algo que só ele parecia ver. Então os espectros se tornaram visíveis e carregavam em si os vestígios de morte violenta. Alguns estavam degolados, outros com membros amputados e terríveis chagas, testemunhas de sanguinários combates. Vários outros espectros foram surgindo e se colocando ao redor de Gabriela com dedos encarquilhados apontados para ela.
- Voltou Maldita? Tua sede de sangue não tem fim? – Disse uma aparição mais próxima.
Icas, numa atitude surpreendente, pulou à frente de Gabriela agitando os braços.
- Voltem para as trevas! – Gritou o saci.
Os espectros gargalharam e se voltaram contra ele.
- Tu nada podes neste mundo contra nós, ceifador. Tua sina é maior que a nossa, pois continuarás vagando eternamente ainda vivo.
- Quem são vocês? – Perguntou Gabriela, sem se deixar amedrontar.
- Quem somos nós? – Retrucou outra aparição, com uma gargalhada esganiçada. – Somos os malditos que tua espada mandou para o limbo.
- Sim. – Respondeu outro espectro. – A nós, que caímos em combate diante de ti, é negado o direito do guerreiro morto à glória de cavalgar e combater ao lado da deusa da morte.
- Somos malditos, condenados a vagar por entre este vale de sombras até que encontres a morte e tua carcaça apodreça no reino dos mortos. – Disse um espectro, soltando um miasma esverdeado e pútrido.
- Argh! Que fedor.

- É o hálito da morte que vem te buscar.
- Vingança! – Bradaram os espectros fechando o círculo.
O Cão das Sombras saltou sobre eles com as mandíbulas escancaradas, mas os atravessou como se não existissem. Os espectros ergueram Gabriela do chão, fazendo-a girar de modo grotesco sem tocá-la.
- Soltem-me! Icas!
O saci, num ato quase instintivo, tirou sua carapuça e a pôs na cabeça de Gabriela. Quase imediatamente ela caiu no chão e os espectros sumiram como se nunca tivessem estado ali.
- Funcionou! – Exclamou ele, ajudando-a levantar-se.
- Para onde eles foram?
- Acho que voltaram para o limbo.
Pela primeira vez naquela jornada, Icas sentiu que a menina estava abalada. Não foi difícil perceber o que a incomodava: um grande fardo de culpas havia sido colocado em seus ombros. Os deuses deste mundo tinham uma estranha forma de fazer justiça e punir os atos de vilania cometidos em seu nome. Para o saci, naquele momento, não fazia sentido atribuir culpas de uma vida passada de quem quer fosse sobre sua vida presente. Afinal, os ciclos de vida eram independentes e as memórias não deveriam ser carregadas para novas existências.

Do romance Zaphir

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