Wednesday, March 02, 2016

Sob o Olhar das Estrelas - Cap. 3

Para os desafetos de Daniel na repartição, aquela manhã se arrastava de tal modo, que parecia não acabar. Para alguns, a pouca disposição para o trabalho se refletia na percepção do tempo e o resultado disso era um imenso tédio. Sem nada de relevante para fazer, Fábio e Andrade se ocupavam de seu passatempo predileto: falar dele pelas costas.
Estavam tão entretidos na extenuante tarefa de tecer comentários jocosos a respeito do colega esquisito, que quase não notaram a entrada do chefe na sala.

-Alguém viu o Daniel? Perguntou Prudêncio, já com o costumeiro arquear de sobrancelhas, ao ver a ociosidade escancarada.
-Deve estar longe... Talvez no mundo da lua. – Respondeu Fábio, sempre sarcástico.
-Ou em algum lugar, onde o homem jamais esteve. – Disse Andrade, se achando muito espirituoso.
-É melhor pararem com isso, antes que a coisa engrosse.
-Ora, o que você quer? O sujeito é todo esquisito, não se mistura com ninguém... – Retrucou Fábio, belicoso.
-Ainda por cima quer dar uma de gostoso! – Completou Andrade.
Numa ocasião como essa, Prudêncio imaginava se um dia seria possível demitir aqueles dois imbecis. Era só um sonho. Ele sabia que estava de mãos atadas pela legislação, que protegia a todos indiscriminadamente. Inclusive o mal funcionário.
- Se vocês conseguissem alcançar o nível dele, talvez não tivessem essa dificuldade de relacionamento.
- Pô! Essa doeu. – Falou Andrade.
-Deixem-no em paz. Ele pode ser estranho, mas não faz mal a ninguém.
- Falando nisso...
- Lá vem bomba! – Exclama Prudêncio contrafeito.
- Mas é da boa. Lembram daquela vez em que foi apresentada a planta do novo prédio? Ele corrigiu um erro do engenheiro na frente de todo mundo.
- É verdade. Eu lembro disso. – Falou Andrade. – Como é que um sujeito, que tem apenas o segundo-grau, pode entender de cálculo estrutural?
- Surpreendente... De fato, mas é possível. Não há nada de estranho nisso.
- Não? Então escuta essa. – Insistiu Andrade. -  Outro dia, ele estava lendo um livro. Eu fiquei curioso e perguntei qual era o título.
- E daí? Muita gente gosta de ler. Se ele não estava lendo em horário de expediente, não vejo mal nenhum nisso.
- Ele estava lendo no intervalo do almoço. A questão não é essa. O que me surpreendeu foi o tipo de leitura. Ele estava lendo um tratado de física quântica.
- Isso não tem nada demais. – Insistiu Prudêncio, já farto daquela conversa. – Muita gente aprende matemática apenas porque possui uma aptidão natural para isso. Por que não física?
-Talvez você não veja nada de estranho nisso, mas o livro era em alemão.
-Muito estranho... – Corroborou Fábio. – Agora eu lembro que, outro dia, ele me deu uma caneta quando eu estava no telefone e precisei fazer uma anotação.
-E o que tem isso?
- Eu não pedi a caneta apenas pensei nela.
-Vocês estão com a imaginação muito fértil. Daqui a pouco vão começar a dizer que o coitado tem orelhas pontudas.
Fábio e Andrade aproveitaram a deixa para soltar uma sonora gargalhada.
- Isso é absolutamente ilógico. – Falou Fábio, entre um acesso de riso e outro.
- Não vai demorar muito para a Enterprise vir buscar o sujeito. – Retrucou Andrade. Ele não tinha como saber, mas sua frase era carregada de presságios.
Prudêncio olhou disfarçadamente para o relógio na parede. Aquela enrolação já tinha durado demais.
-Chega de conversa mole! Vão trabalhar, ou desintegro vocês.
- Perigo! – Disse Fábio, com voz metálica. – Perigo! Perigo! Alienígena hostil se aproximando.
- Recomendo uma ação evasiva. – Retrucou Andrade.
 Ambos foram para suas mesas, sob o olhar de Prudêncio. Ele sabia que não aquilo não ia adiantar, mas pelo menos conseguira acabar com a conversa.
Um pouco depois do meio-dia, Daniel encontrou-se com Letícia no restaurante. Ele esperava que o encontro com ela mudasse aquele dia ruim, mas a conversa não tinha sido boa. Ela estava visivelmente aborrecida, mas se recusou a falar sobre o que lhe incomodava.
Meia hora mais tarde eles se despediram, sem que aquele clima estranho se dissipasse. Daniel voltou para o trabalho pensando no que poderia ter acontecido. Malgrado sua inabilidade em lidar com as mudanças de humor da namorada, sabia que tinha algo a ver com isso.
Durante aquela tarde, resolveu que faria algumas mudanças em sua vida, antes que fosse tarde demais. Amava Letícia e, por ela, abriria mão de qualquer coisa. Era um pensamento bonito, mas assim que o teve, se deu conta que nunca lhe tinha falado isso. Nem mesmo algo parecido. Em sua mente começou a se formar a ideia de que era um estúpido completo, em tudo que se referia à sua garota e a relação que tinha com ela.
No caminho para o escritório já havia tomado algumas resoluções. Se as cumpriria, seria difícil dizer, mas ele sabia que algo preciso estava em jogo. Precisava mudar. Isso significava abrir mão de algo importante. Tão importante, que havia norteado sua vida até ali.
Durante a tarde, ele tentou convidá-la para jantar, mas Letícia pediu que marcassem para outro dia, pois não estava se sentindo bem. Daniel percebeu que precisava se esforçar um pouco mais. Ela sabia ser irredutível, quando se zangava, mas já no fim do dia ainda não lhe tinha ocorrido nenhuma ideia de como deixá-la mais amistosa para uma longa conversa sobre suas vidas. Talvez fosse melhor deixar mesmo para outra ocasião, como ela sugeria. Isso o levou a pensar que ele também precisava de um tempo para pôr a cabeça em ordem. Sabia que estava procrastinando, mas realmente não tinha ideia do que fazer.
Tudo o que lhe ocorreu, ao final do expediente, foi entrar naquela zona de conforto onde os homens costumam se encontrar. O bar da esquina. Neste caso, o bar se chamava muito apropriadamente de Pasárgada. Lá, todos se sentiam amigos do rei. O estabelecimento ficava próximo do escritório, mas poderia ter sido qualquer outro, desde que os problemas ficassem do lado de fora.
No fim do dia, quando os escritórios que ficavam próximo encerravam suas atividades, o Pasárgada costumava lotar de frequentadores sedentos por uma cerveja gelada e uma boa conversa. Era a primeira onda de um movimento que ia até as primeiras horas da madrugada.
Quando Daniel entrou no bar, o burburinho já havia acalmado. Somente alguns dos habituais frequentadores permaneciam. Eles aguardavam a chegada dos boêmio contumazes. Aqueles para os quais a noite era sempre uma festa. Prudêncio era um deles. Solteirão convicto, ele estava no lugar onde todos os solitários se encontravam, fosse a solidão ocasional ou não. No caso dele era um modo de vida, e era feliz assim.
Enquanto arrumava as bolas de bilhar na mesa, ele percebeu Daniel parado na porta. Aos olho de Prudêncio, o amigo parecia mais perdido que cachorro em dia de mudança. Isso era reflexo de um dia cheio de aborrecimentos, mas não era nada que um bom jogo e uma cerveja gelada não pudessem amenizar.
Entre uma tacada e outra, eles conversam sobre os acontecimentos recentes. Daniel não era dado a fazer confidências, mas Prudêncio tinha um dom especial para aquele tipo de conversa. Não que tivesse um interesse especial por assuntos alheios, mas considerava Daniel um irmão mais novo.
- Então... Você já pensou a respeito do que eu lhe falei? – Perguntou Prudêncio, depois que o garçom se afastou.
- Sim. Vou pedir Letícia em casamento.
Prudêncio olhou para Daniel sem compreender. Eles nunca haviam falado sobre aquilo.
- Fico feliz com a novidade, mas não era disso que eu estava falando.
- Tem razão. Desculpe. É que na minha cabeça tudo está relacionado de alguma forma.
- Não sei se entendi, mas acho que você está falando em mudança de vida, estou certo?
- Sim... Preciso de uma vida normal.
- Casar-se com Letícia é um bom passo. Ela é uma moça sensata e vai ajudar você a construir uma vida feliz. Mas você sabe que precisará mudar certas coisas em sua vida, não sabe?
- Sim.
- E o que pretende fazer a respeito?
Daniel respirou fundo. Ele não gostava de falar sobre sua inadequação social. Aquilo o incomodava de tal modo que preferia evitar, mas Prudêncio era um bom amigo. Um dos poucos que tinha.
- Nunca tive a intenção de provocar polêmicas, ou incomodar as pessoas com o meu modo de ser. Jamais pensei que estivesse agredindo os outros por ser um...
- Excêntrico!
- ... Um pouco diferente. Vou procurar conter algumas atitudes, principalmente em público. Em outras palavras... Vou esforçar para ser um sujeito “normal”, como dizia Raul Seixas.
Algo nas palavras de Daniel não agradou Prudêncio. Soava como o epitáfio de um espírito inconformista, em favor da mediocridade.
- Sem dúvida, é uma atitude prudente, mas não exagere. O mundo precisa de pessoas como você.  Agora... Quero ver você sair dessa. – Ele completou, enquanto armava uma sinuca para o amigo.
- Tá valendo o quê? – Daniel pergunta, depois de um momento olhando para a mesa.
- Hum... Aquela cerveja artesanal?
- Feito!
A bola branca dispara pelo feltro da mesa e rebate três vezes, antes de empurrar delicadamente a bola 8 na caçapa do meio.
- Como fez isso? – Prudêncio pergunta, de queixo caído.
- Raciocínio espacial.
- Acho que você precisa compreender melhor o que significa ser “um sujeito normal”.
- Qualquer um pode fazer isso... Eu acho.
- É ... Qualquer um, que seja o Rui Chapéu, ou um maluco como você. Não acredito, perdi de novo!
-Acontece. Vamos tomar uma cerveja pra esquecer a mágoa.
- É melhor mesmo. Garçom!
- Sabe de uma coisa? – Pergunta Prudêncio, depois de encher o copo de Daniel. Até que, para um lunático, você é um cara legal.
- Será que isso foi um elogio?
- Talvez, mas não vai ficar mal acostumado. Agora me diz como é que um sujeito com tanto potencial, se limita a uma carreira medíocre no serviço público e se envolve numa atividade maluca como caçar OVNIS nas horas vagas?
- É uma longa história.
- Temos a noite toda.
- Outro dia. Hoje eu estou treinando para ser um cara normal, esqueceu?
- Está bem. Mas você fica me devendo, OK?
Antes que Daniel responda, sua atenção é desviada pelo som da TV, suspensa na parede atrás do balcão. O Canal sintonizado transmite uma notícia sobre a aparição de um OVNI.

“Um disco-voador apareceu ontem em uma praia de Florianópolis. As imagens que estamos mostrando foram feitas por um turista que estava hospedado no hotel, que fica próximo ao o local onde o OVNI foi visto. Várias pessoas testemunharam o acontecimento.”
“Eu vi quando ele apareceu de repente em cima do morro, passou por cima do hotel e sumiu atrás das dunas.”

- Acho que vou conhecer Florianópolis. – Falou Daniel agitado.
- Vai? E aquele papo de levar uma vida normal?
- Será a última vez. Minha despedida.
- Você vai mesmo atrás dessa história maluca?
- Se não for, vou passar a vida toda pensando nisso.
- Quando você vai?
- Agora. Se dirigir a noite inteira e dormir pela manhã, estarei lá à noite.
-Mas... E o seu trabalho?
- Eu vou faltar amanhã. Não tem outro jeito. Agora preciso ir. Garçom?
- Deixe isso comigo. Eu acho uma loucura, mas se tem que ir...
- Obrigado. – Disse Daniel, já saindo.
Prudêncio o acompanha com o olhar, quase sem acreditar que aquilo estivesse acontecendo.
- Que loucura!

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