Friday, May 30, 2014

O Trem Fantasma

 


O Trem Fantasma
 
Os três garotos olharam a boca do túnel escura e misteriosa com sentimentos diferentes. Exceto pelo gordo, que se mostrava claramente assustado, os outros estavam à vontade naquele lugar desolado. Na verdade, estavam se divertindo com o medo dele e se preparavam para lhe dar o maior susto de sua vida.
- Isso parece perigoso. – Disse o garoto gordo, com voz esganiçada.
- Vai “amarelar” agora? – Disse o magro alto, em tom de desafio.
O gordo engoliu em seco. Não queria passar por covarde, mas não precisava de muita imaginação para achar que aquela boca de túnel escura estava apenas aguardando que se aproximassem para mostrar seus enormes dentes e devorá-los.
O garoto ruivo e sardento que, até então, mantinha-se calado, interferiu.
- Quem sabe a gente não vem de manhã. – Disse ele, com pena do Gordo.
Na verdade, ele já estava achando aquela incursão noturna pelo parque de diversões abandonado uma ideia estúpida. Não tinha medo de fantasmas, mas quem poderia saber o que se escondia na escuridão daquele túnel? Aquele lugar era sombrio e assustador o suficiente para ocultar algum tipo de escória que poderia considerá-los intrusos em seu território. Isso poderia ser bem mais perigoso que um susto naquele gordinho covarde. O pobre coitado queria apenas fazer amigos, mas eles viram nisso uma oportunidade para se divertir e inventaram um rito de iniciação para ele. O plano era simples: fazê-lo percorrer o túnel do trem fantasma daquele parque à noite. Durante a travessia, um deles se esconderia para assustar o gordo.
- Voltar amanhã parece uma boa ideia. – Disse o gordo, fazendo menção de voltar por onde tinha vindo.
- Vir aqui durante o dia? – Perguntou o garoto magro e alto, com desdém, segurando-o pela gola da camisa. – Isso não teria a menor graça. Agora que estamos aqui, vamos até o fim.
O Garoto ruivo e sardento ia dizer algo, mas desistiu. Ele não queria ser considerado covarde junto com o gordo.
O magro alto olhou para o gordo sem compaixão. Não gostava de covardes e tinha uma repulsa especial por garotos de aspecto efeminados, como aquele gordinho de fala macia e hesitante. Apesar disso, condescendeu um pouco. Aquela noite e o local eram perfeitos para assustar e ele não queria correr o risco de ver sua vítima correr antes do tempo.
- Vamos todos juntos, então. Está bom assim? – Ele perguntou, ainda segurando o gordo pela gola da camisa.
- Acho que sim. – Respondeu o garoto gordo, sem coragem para dizer que preferia ir embora dali o mais rápido possível.
Os três entraram no túnel e foram envolvidos pela escuridão. O garoto gordo olhou para trás e viu a entrada do túnel cada vez menor, como se estivesse se fechando. Ele fez um esforço para acreditar que era apenas uma impressão, em razão do afastamento deles. Todavia, a escuridão se tornou quase total alguns passos depois.
- Não vejo mais a boca do túnel. – Disse o garoto ruivo e sardento, com voz trêmula. Ele já não se importava muito em parecer um covarde.
- É porque o túnel faz uma curva, bobalhão.
O gordo começou a transpirar e sentiu que seu coração iria sair pela boca a qualquer momento. Já não conseguia enxergar onde estava pisando e maldisse a hora em que ele se envolveu com aqueles dois malucos.
- Não consigo enxergar. – Disse ele com voz trêmula.
O garoto magro e alto ligou uma lanterna e eles perceberam que o túnel tinha se alargado e eles estavam no que parecia ser uma antiga estação de trem.
- Como é que isso tudo cabe num parque de diversão? – Ele perguntou, sem compreender.
- Acho que não estamos mais no parque. – Disse o ruivo.
- Será que estamos em outra dimensão? – Perguntou o gordo, com a respiração entrecortada.
O magro alto também estava assustado e se irritou com a voz do gordo, mas um barulho chamou a atenção dele antes que dissesse qualquer coisa sobre isso.
- Ouviram isso?
- Isso o quê?  Não ouvi nada. – Disse o ruivo.
- Nem eu. – Falou o gordo, com um prazer perverso, ao perceber o medo transparecer na voz do valentão.
- Parece um trem. Não estão ouvindo?
Aos poucos o ruído se tornou mais claro e eles ouviram nitidamente o barulho de um trem se aproximando. Alguns segundos depois, eles podiam ver as luzes da locomotiva no fim do túnel.
- Está vindo para cá. – Disse o ruivo, com a voz quase sumida.
O barulho aumentou e o trem se tornou visível para eles. Era uma velha locomotiva do século 19 e estava em péssimo estado, quase caindo aos pedaços.
- Nossa! Que velharia! – Disse o gordo, enquanto trem finalmente parava na plataforma em que eles estavam.
Pelas janelas dos vagões de passageiros, eles viam figuras estranhas que também olhavam para eles.
- Parecem fantasmas. – Disse o magro alto, já sem nenhum cuidado em disfarçar o pânico.
- Eles são fantasmas, seu idiota! – Falou o gordo. Já não sentia medo e era sua vez de mostrar-se sem compaixão.
Se o magro alto percebeu a mudança de atitude do gordo, nada disse. Estava apavorado demais para isso. Depois de um momento, que pareceu uma eternidade, eles perceberam que trem parecia aguardar por eles.
- O que esse trem maluco está esperando? Perguntou o Magro.
- Ainda não percebeu? Está esperando que a gente embarque. – Disse o ruivo, mordaz.
- Mas ali só tem morto.
O gordo e o ruivo caíram na gargalhada.
- Contamos para ele? – Perguntou o ruivo ainda rindo.
- Não. – Respondeu o gordo, ainda relembrando a boca do túnel se fechando. – Logo ele vai perceber que esse túnel não tem nenhuma curva
 


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